O que é então "Lobisomens - O Passado É Para Esquecer"? De uma forma simples é o mundo onde os meus lobisomens vão viver as suas vidas. Ainda não sei tudo acerca deste mundo, sei que os lobisomens são reais lá. Sei que humanos sabem que os lobisomens existem e sabem quem eles são. Sei que esse mundo está a mudar. Sei que esse mundo é muito parecido ao nosso. Sei que os demónios desse mundo são os mesmos do nosso: ódio, ganancia, medo.
terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
Contos Tradicionais dos Lobisomens: A roupa bonita do homem
Em tempos tão antigos que até o tempo era novo, aconteceu um dia os animais começarem a discutir entre si de qual deles seria a roupagem mais bela.
Dizia a loba que o seu pelo era não só bonito, como era acolhedor no inverno e leve no verão.
Respondia a ovelha que nada havia mais belo e suave que a brancura da sua lã.
A águia argumentava que mais belo que as suas penas só o facto de a fazerem voar.
Ria-se a cobra que os seus padrões de escamas batiam aos pontos tudo o resto.
Enfim, cada animal via-se como a mais bela e a mais abençoada com aquilo que as cobria, e defendiam a sua opinião com vozes cada vez mais altas.
Tanto foi o barulho, que o homem, que estava a dormir, acordou e sendo confusão o que acontecia, foi de imediato juntar-se-lhe.
Chegando o homem ao pé dos outros animais, perguntou o que se passava, ao que os outros animais responderam que discutiam qual a qual deles pertencia a roupagem mais bela. O homem olhou em redor e ficou muito contente de ver tantas roupagens tão diferentes e todas tão belas, mas então olhou para si mesmo e viu que estava nu e não apreciou que a sua pele não tivesse padrões, que o seu pelo não o cobrisse e não fosse tão belo como a lã ou as penas.
Enchendo-se de inveja, afastou-se dos outros animais e decidiu remediar aquilo que encarava como uma ofensa que lhe tinha sido feita. Começou a colher flores, plantas, pedras, conchas e todas as coisas bonitas que os seus olhos vissem, e com elas fez uma roupa que considerou a mais bela roupagem de todas. Terminando a sua nova roupa bonita, vestiu-a e foi-se mostrar aos outros animais.
Chegando ao pé dos outros animais, começou de imediato a gabar-se da sua roupagem e de como esta era mais bela do que qualquer outra. O problema foi que os animas não sabiam muito bem o que pensar da roupa do homem, pois tinha tanta coisa misturada, que não se percebia o que era o quê e até nem se conseguia perceber se era uma roupagem bonita ou feia.
Como os animais não lhe contestavam primazia da sua roupa entre todas as roupagens, visto que não conseguiam perceber o que era aquilo, o homem começou a dançar e a pular certo de que todos consideravam a sua roupagem a mais bela. Tanto pulou, tanto dançou, tanto rodopiou, que não viu que se aproximava do rio, e tão pouca atenção prestava ao que fazia que acabou por cair lá dentro.
Acontece que a roupa do homem era tão pesada que ele não conseguia nadar para salvar-se e começou a gritar por ajuda. A loba, que normalmente era quem prestava atenção aos desvarios do homem, foi ver o que se passava, e olhando o homem preste a afogar-se, gritou-lhe que largasse a roupa que o puxava para o fundo do rio.
O homem respondia que a loba estava era com inveja da sua roupa bonita e que por isso queria que ele a perdesse. A loba insistia com o homem para que largasse a roupa que o afogava, mas o homem não queria. Por fim, farta da teimosia do homem, a loba pediu aos cágados do rio que comessem os fios da roupa do homem, para que assim o resto se soltasse e o homem se salvasse.
Assim foi feito pelos peixes e pelos cágados e o homem lá conseguiu sair de dentro de agua. Contudo, vinha muito cabisbaixo, pois via que a loba mais uma vez tinha razão naquilo que lhe aconselhava.
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014
Contos Tradicionais dos Lobisomens: O juramento do homem
Em tempos que já lá vão aconteceu um dia de se encontrarem no
mesmo abrigo durante uma noite chuvosa o lobo, o raposo e o homem.
Começaram o lobo e o homem a discutir que iriam caçar para comer, mas o raposo nada disse. Como não conseguiram combinar o que caçariam, foi lobo para um lado e o homem para o outro e o raposo deixou-se ficar, dizendo que ficaria de vigia e que não se preocupassem com ele, pois não sentia fome.
Regressando o homem em primeiro lugar com o que comer, logo tomou atenção para não cair nas artimanhas do raposo, que era por demais conhecido pelas suas partidas e gatunices.
Chegando o lobo com o que tinha caçado, logo o raposo o enganou e ficou-lhe com a carne. Apercebendo-se que tinha sido enganado, o lobo lutou com o raposo e após umas mordelas e dentadas, recuperou a carne, e de imediato a partilhou com o raposo.
Ao assistir a isto o homem ficou muito confuso e perguntou ao lobo, “Porque partilhas a tua carne com quem te roubou?” Ao que o lobo respondeu “Porque o raposo é melhor forte que eu.”
O homem não entendeu nada e perguntou ao raposo, “Porque aceitas a ajuda de quem te derrotou?” Ao que o raposo respondeu “Porque o lobo é melhor esperto do que eu.”
O homem então ficou realmente confuso com o que ouvia e implorou ao lobo e ao raposo que lhe explicassem o que lhe tinham respondido. Mas o lobo e o raposo nada mais disseram e ficaram muito tristes, pois sabiam que o homem era incapaz de compreender o que eles estavam a falar.
O homem realmente não entendia e começou a oferecer ao lobo e ao raposo tudo quanto lhe pertencia para que estes lhe respondessem. Mas nada daquilo que pertencia ao homem interessava quer ao lobo, quer ao raposo.
Tanto insistiu o homem, que por fim o lobo disse-lhe “Nada tens de teu que me interesse, mas se jurares pelo Pai de Todos que me darás o que quer que eu te peça no futuro, pedirei ao Pai de Todos que te faça entender as nossas palavras.”
O homem estava tão desesperado por entender que aceitou fazer uma promessa de tal gravidade, e após o lobo ter chamado o Pai de Todos como testemunha, o homem jurou que entregaria ao lobo o que quer que este lhe pedisse no futuro. O Pai de Todos testemunhou a promessa do homem e deu-lhe o entendimento necessário para perceber as respostas do lobo e do raposo.
E então explicou o lobo, “O raposo é melhor forte do que eu, porque eu só sei usar a minha força para lutar e o raposo faz muitas coisas com a sua força.”
E continuou o raposo, “O lobo é melhor esperto do que eu, porque eu só sei usar a minha inteligência para enganar e roubar, e o lobo consegue pensar e criar muitas coisas.”
Finalmente o homem entendeu, mas de vez em quando esquecia-se das palavras do lobo e do raposo e só sabia usar a sua força para lutar e a sua esperteza para enganar. Contudo o juramento que fez, cumpriu, e muito perdeu e muito ganhou.
Começaram o lobo e o homem a discutir que iriam caçar para comer, mas o raposo nada disse. Como não conseguiram combinar o que caçariam, foi lobo para um lado e o homem para o outro e o raposo deixou-se ficar, dizendo que ficaria de vigia e que não se preocupassem com ele, pois não sentia fome.
Regressando o homem em primeiro lugar com o que comer, logo tomou atenção para não cair nas artimanhas do raposo, que era por demais conhecido pelas suas partidas e gatunices.
Chegando o lobo com o que tinha caçado, logo o raposo o enganou e ficou-lhe com a carne. Apercebendo-se que tinha sido enganado, o lobo lutou com o raposo e após umas mordelas e dentadas, recuperou a carne, e de imediato a partilhou com o raposo.
Ao assistir a isto o homem ficou muito confuso e perguntou ao lobo, “Porque partilhas a tua carne com quem te roubou?” Ao que o lobo respondeu “Porque o raposo é melhor forte que eu.”
O homem não entendeu nada e perguntou ao raposo, “Porque aceitas a ajuda de quem te derrotou?” Ao que o raposo respondeu “Porque o lobo é melhor esperto do que eu.”
O homem então ficou realmente confuso com o que ouvia e implorou ao lobo e ao raposo que lhe explicassem o que lhe tinham respondido. Mas o lobo e o raposo nada mais disseram e ficaram muito tristes, pois sabiam que o homem era incapaz de compreender o que eles estavam a falar.
O homem realmente não entendia e começou a oferecer ao lobo e ao raposo tudo quanto lhe pertencia para que estes lhe respondessem. Mas nada daquilo que pertencia ao homem interessava quer ao lobo, quer ao raposo.
Tanto insistiu o homem, que por fim o lobo disse-lhe “Nada tens de teu que me interesse, mas se jurares pelo Pai de Todos que me darás o que quer que eu te peça no futuro, pedirei ao Pai de Todos que te faça entender as nossas palavras.”
O homem estava tão desesperado por entender que aceitou fazer uma promessa de tal gravidade, e após o lobo ter chamado o Pai de Todos como testemunha, o homem jurou que entregaria ao lobo o que quer que este lhe pedisse no futuro. O Pai de Todos testemunhou a promessa do homem e deu-lhe o entendimento necessário para perceber as respostas do lobo e do raposo.
E então explicou o lobo, “O raposo é melhor forte do que eu, porque eu só sei usar a minha força para lutar e o raposo faz muitas coisas com a sua força.”
E continuou o raposo, “O lobo é melhor esperto do que eu, porque eu só sei usar a minha inteligência para enganar e roubar, e o lobo consegue pensar e criar muitas coisas.”
Finalmente o homem entendeu, mas de vez em quando esquecia-se das palavras do lobo e do raposo e só sabia usar a sua força para lutar e a sua esperteza para enganar. Contudo o juramento que fez, cumpriu, e muito perdeu e muito ganhou.
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014
O que é a “Playlist”?
A “Playlist” é uma série de contos temáticos inspirados por canções, ou por qualquer outra coisa.
Enquanto os “Contos Tradicionais dos Lobisomens” e a “Converseta” lidam respetivamente com a identidade cultural e a atitude social do mundo dos lobisomens, a “Playlist” destina-se a criar efetivamente esse mundo através de contos que permitem aos personagens deste mundo começar a existir por um lado, e ter um passado por outro.
Não sinto qualquer obrigatoriedade de efetivamente empregar os personagens presentes na “Playlist” em histórias posteriores, mas igualmente não considero que uma personagem qualquer fique limitada ao conto em surgiu.
terça-feira, 11 de fevereiro de 2014
Contos Tradicionais dos Lobisomens: O rei que não o era
Era uma vez uma rei que reinava num país distante e cheio de
tradições estranhas.
Uma dessas tradições era que somente os cães podiam combater os demónios e os fantasmas tenebrosos que por força queriam invadir esse país, e por isso todos os senhores da guerra que lá viviam tinham grandes matilhas que empregavam na caça a esses seres malignos.
Outra tradição que lá havia, era a que o rei não podia ter matilha nenhuma que fosse mesmo dele, pois dizia-se que os cães do rei seriam igualmente reis de todos os outros cães, e isso não era considerado uma coisa boa, porque se assim fosse o rei poderia impedir que os cães do reino de combater contra os demónios e as aventesmas.
Aconteceu um dia que, estando o rei e todos os senhores reunidos a festejar as colheitas, uma mulher sábia implorou que o rei escutasse uma profecia que ela tinha profetizado. De inicio, o rei não a quis escutar, mas a mulher sábia tanto chorou e implorou, que finalmente o rei aceitou ouvi-la.
“Sabe agora ó rei,” disse a mulher “ que tão grave é o que irás escutar, que perderei a mente só por to dizer! Por isso aprende aquilo que te vai ser dito, pois nem eu, nem qualquer outro que conheça o futuro voltará a falar claro.”
Ao ouvir isto, o rei e os senhores ficaram muito sobressaltados, mas como eram corajosos e ponderados, mantiveram-se em silencio e abriram ouvidos e mente para aprenderem o que cada um conseguisse.
“Sabe, ó rei, que um grande mal se dirige contra este reino. Sabe mais, ó rei, que só todas as alcateias juntas poderão derrotar e afastar esse mal. Sabe ainda isto, ó rei, que só a matilha do rei consegue juntar todas as outras. E por sabe ainda isto, ó rei, um cão de guerra aprende a lutar e aprende a parar, mas um cão de guarda luta até à morte e para além dela pelo senhor que o mereça, e que esse mesmo cão de guarda luta até à morte e para além dela do senhor que não o mereça.”
Tudo isto muito surpreendeu o rei e os senhores do reino, mas a única coisa que os confundiu foi o bocado sobre os cães de guarda, pois todos os habitantes daquele reino, do mais velho ao mais novo e do mais rico ao mais pobre, sabiam que os cães de guarda nunca deviam ser traídos pelos seus senhores, sob pena de grandes e pavorosas maldições recaírem sobre os traidores e todos aqueles que os rodeassem.
Ao ver que o rei não tinha aprendido tudo aquilo de que necessitaria, a mulher sábia começou a chorar e só conseguiu dizer mais isto, “Um cão é um cão, um homem é um homem, um soldado é um soldado, um assassino é um assassino. Se o teu cão não é um soldado, não deixa de ser teu cão. Se o teu cão sabe que deve guardar os teus passos, não o afastes de ti, nem o mandes para a guerra, pois quando ele regressar já não será o teu cão, mas o teu assassino.”
Depois de ensinar isto a mulher calou-se e nada mais disse. Contudo o rei e os senhores não conseguiram perceber se a última coisa dita pela mulher sábia era ensinamento ou loucura, pelo que se recolheram a si mesmos para pensar em tudo aquilo que tinham sido capazes de aprender.
No dia seguinte, reuniram-se novamente o rei e os senhores e começaram a discutir e a debater entre si o que significariam as palavras da mulher sábia, e das suas discussões e debates concluíram as seguintes coisas, primeiro, que estavam em perigo. Segundo, que esse perigo não era imediato, porque se assim fosse já os espiões e vigias os teriam alertado. Terceiro, que o rei necessitaria de uma matilha que fosse mesmo dele, e que essa matilha deveria ser unicamente de cães de guerra, pois para nenhum outro fim necessitaria o rei de uma matilha. Concluindo todas estas coisas, ficaram muito agradados em si mesmos, pois lhes pareceu que haviam interpretado corretamente todos os avisos da mulher sábia.
Começaram então os senhores da guerra a gabarolar entre si as respetivas matilhas e de qual delas viriam os cães do rei. A rainha que até então havia reservado para si mesma as suas opiniões, decidiu intervir.
“Esposo, como sabes, antes de ser rainha era senhora da guerra, filha de um senhor da guerra e neta de senhores da guerra. Sempre a minha família lutou por este reino contra os males que nos tentam invadir, e nunca os nossos cães falharam como guerreiros e lutadores. Se mo permitires, escolherei por ti os cães certos para a tua matilha e o matilheiro certo para os ensinar.”
Quer o rei quer os senhores ficaram muito agradados com a solução da rainha, o rei porque sabia que a rainha era mais conhecedora de cães, matilhas e matilheiros do ele, e os senhores porque desta forma o rei não seria desviado dos seus atuais deveres de rei.
A única dificuldade para o rei era que, para a rainha poder escolher os cães certos, teria de visitar todas as matilhas de todos os senhores, e isso significava que ele não veria a rainha durante muito tempo, pois ele não podia parar de reinar para acompanhar a rainha na sua tarefa.
“Não temais, meu esposo,” disse a rainha “pois o tempo apenas parece longo. Na verdade, só decorrerá uma estação sem que estejamos juntos, e uma estação é um pequeno sacrifício para evitar o mal que ai vem.”
O rei entendia que assim devia e por isso não dificultou a partida da rainha, mas entristeceu-se sem a sua presença e começou a caminhar sozinho pelos campos, para que as gentes do reino não o vissem e igualmente se entristecessem.
Certo dia, o rei encontrou uma pastora que pastoreava vacas, ovelhas e cabras, acompanhada somente por uma cadela prenha. Como quer rei, quer pastora não tinham muito que dizer, habituaram-se a estar sentados lado a lado sem dizer palavra, apreciando apenas o facto de não estarem sozinhos.
Numa das visitas do rei, este não viu a cadela em lado algum, e perguntou à pastora o que lhe tinha sucedido. “Sucedeu o que tinha de suceder, ó rei. À cadela nasceu-lhe a ninhada durante a noite, e sendo todos rafeiros, vão ser todos pastores e ajudar-me a guardar este rebanho.”
Matutou o rei nisto, que à pastora para ter uma matilha lhe bastava que a cadela tivesse cachorros, mas que para o rei ter uma matilha lhe era necessário ficar sem rainha durante meses.
Falando estes pensamentos à pastora, começou esta a gargalhar e a rebolar-se no chão de tanto riso!
“Que tontaria, ó rei! A minha matilha guarda vacas, ovelhas e cabras, e só aquelas que me compete vigiar. A tua matilha vai guardar pessoas, cães e sonhos. Os meus cães serão bons pastores, mas os teus terão de ser os melhores soldados de todos, ou não servirão para nada. Não vale sequer a pena comparar os nossos cães, ó rei, nem tal seria justo, pois os meus são cães de guarda e os teus são cães de guerra.”
Assim posto, percebeu o rei que realmente estava a ser tonto, e tanto alívio sentiu ao perceber que ainda era um homem como os outros, que pediu à pastora que lhe oferecesse um dos cachorros para o relembrar disso todos os dias.
“Pois sim, ó rei! Mas mas não esqueças, mesmo sendo da mesma matilha, o cão da pastora será tanto cão de guerra, como os cães da rainha serão cães de guarda.”
Ficou então combinado que quando o cachorro fosse desmamado, o rei o levaria para a sua matilha e que seria treinado para ser o cão de guarda do rei.
Passou o tempo e finalmente a rainha regressou com os cães e o matilheiro escolhidos. Muito se alegrou o rei, e tão feliz se sentiu que contou à rainha tudo o que tinha sucedido durante a sua ausência sem nada ocultar. Ora aconteceu, que quando a rainha escutou que o rei tinha pedido um cão à pastora para a sua matilha, ficou muito desgostosa, pois acreditou que o rei não confiava na sua sabedoria. E tão feliz estava o rei por ter a rainha novamente a seu lado que não viu a tristeza que lhe tinha provocado.
Observando os cachorros escolhidos pela rainha, muito o rei os gabou e muito louvou a rainha pelas suas capacidades, e colocando o cachorro da pastora junto aos cães da rainha, disse ao matilheiro, “Devem ser criados juntos como iguais que são, mas atenta que os cães da rainha são cães de guerra e vão defender pessoas, cães e sonhos, e que o cão da pastora é cão de guarda e vai defender vacas, ovelhas, cabras e reis tontos que se esqueceram que reis e pastoras são iguais porque são diferentes.”
O matilheiro não entendeu tudo o que o rei disse, mas entendeu que os cães da rainha iriam proteger o reino e que o cão da pastora iria guardar o rei, e que isso estava certo, pois uns eram cães de guerra e o outro era cão de guarda.
A rainha também não entendeu as palavras do rei, e infelizmente o que entendeu foi que o rei não acreditava nos cães da rainha para o defenderem, e isso escureceu o seu coração e fechou-lhe a mente ao raciocínio.
Entretanto, os cachorros não se preocuparam com nenhum destes assuntos e dedicaram-se a cheirarem-se entre si, a rosnarem-se entre si, a lutar entre si, a brincar entre si e a agasalharem-se entre si, pois os cães, mesmo quando ainda não passam de cachorros, sabem que um cão é um cão, quer seja cão de guerra, quer seja cão de guarda.
E por uns tempos tudo pareceu estar bem, o rei e a rainha reinavam, os senhores senhoreavam, o matilheiro matilhava, a pastora pastoreava e os cães cresciam e aprendiam.
Ora veio um dia em que os vigias deram o alerta de que inimigos se aproximavam do reino pelo sul, e sendo os cães do rei já crescidos e treinados mandou o rei que se preparassem para a guerra. Acontece que a rainha viu então uma oportunidade de se vingar das ofensas que acreditava que o rei lhe tinha feito. Disse então, “Meu esposo, não mandes já os cães de guerra, pois estes inimigos poderão não ser aqueles que foram profetizados. Manda em vez deles o teu cão de guarda, e ele será capaz de lidar com os teus inimigos normais. Mas se forem os inimigos profetizados, isso dará tempo para que os teus cães de guerra os destruam.”
De inicio estas palavras perturbaram o rei, mas os senhores da guerra concordaram que não colocar em perigo os defensores maiores do reino por causa de inimigos menores era uma boa ideia. E assim o rei ordenou o rei ao seu cão de guarda que fosse derrotar os inimigos que vinham pelo sul.
O cão de guarda foi, e muito lutou com os inimigos, mas por fim conseguiu derrota-los a todos e regressou ao rei. Vinha coberto de sangue e de ferimentos, mas satisfeito por ter protegido o rei e o reino. Quando assim o viu, logo o rei o quis louvar grandemente, mas a rainha, enraivecida com a vitória do cão da pastora, disse assim “Meu esposo, não te esqueças que ele é cão de guarda, e não será bom que se lhe louvem feitos de guerra.”
O rei pensou no assunto e, mesmo sentindo que não era certo, concordou que não seria certo louvar um cão de guarda por ter lutada na guerra, pelo que mandou apenas que lhe curassem os ferimentos e que regressasse para junto da matilha do rei. Ao ver a forma como o cão de guarda era recompensado, inquietaram-se os cães de guerra com a sorte dele e com a sua própria sorte, mas a rainha disse-lhes que não se inquietassem pois eles eram cães de guerra, e ele era cão de guarda.
Quem não gostou de ver isto foi o matilheiro, que começou a pensar que talvez o rei não soubesse ser justo. Mas nada disse e nada falou.
Vieram então os vigias e alertaram que outros inimigos vinham de leste e que era necessário defender o reino novamente. Novamente quis o rei enviar os cães de guerra, mas novamente falou a rainha, “Melhor é que vá o cão de guarda, pois já provou que sabe guardar o reino e assim poupa os cães de guerra para os inimigos da profecia.”
Novamente enviou o rei o cão de guarda para combater os inimigos do reino, desta vez a leste, e novamente o cão de guarda foi vitorioso. Regressando novamente ao rei, vinha coberto outra vez de sangue e ferimentos. Novamente o rei o quis louvar, mas a rainha repetiu, “Recorda que não é bom louvar os cães de guarda pelos seus feitos de guerra.”
E assim novamente foi enviado o cão de guarda de regresso à matilha sem qualquer recompensa. Mas desta vez o matilheiro queixou-se ao rei e a quem o quis ouvir acerca da maneira como o cão de guerra era tratado, mas a rainha convenceu o rei que as palavras do matilheiro não eram de importância. Contudo as gentes do reino começaram a pensar se o rei saberia reinar, mas nada disseram e nada falaram.
Novamente alertaram os vigias de inimigos que se aproximavam do reino, desta vez pelo oeste. Novamente quis o rei enviar os cães de guerra e novamente conseguiu a rainha convencer o rei a enviar o cão de guarda.
Mais um vez foi o cão de guarda vitorioso, e mais uma vez regressou ao rei coberto de sangue e de ferimentos, mas mais uma vez não obteve qualquer louvor por causa das palavras da rainha. Só que desta vez as gentes do reino começaram a dizer entre si que o rei não sabia reinar, e os senhores do reino ouviram as gentes e começaram a pensar.
Por fim, alertaram os vigias que inimigos vinham do norte. Vendo que o cão de guarda ainda não estava completamente recuperado da sua última batalha, quis o rei enviar os cães de guerra, mas disse a rainha, “Mais vale perder a vida o cão de guarda, do que pores em perigo aqueles que vão defender o reino do mal profetizado.” E assim foi que o cão de guarda foi enviado para a guerra uma quarta vez.
Mas dessa vez aconteceu que começou o mal da profecia a concretizar-se. O cão de guarda lutou e venceu, mas ao regressar coberto de sangue e ferimentos, não se apresentou ao rei e foi diretamente para a matilha, que o cercou e protegeu. Vendo isto, o rei muito se perturbou, mas a rainha disse “Meu esposo, vê a gratidão do cão da pastora para contigo. Tu lhe permitis-te que te protegesse, mas ele não demonstra o respeito que te é devido.” Inflamado por estas palavras, ordenou o rei que lhe trouxessem o cão de guarda para ser julgado por desrespeito à sua pessoa, e reuniram-se todos o senhores do reino para assistir ao julgamento.
Começando o julgamento, não permitiu o rei que mais ninguém falasse, e condenou o cão de guarda a ser expulso da matilha e do reino. Ao ouvir esta sentença muito se indignaram as gentes do reino pois sabiam que era injusta, mas o rei não as escutou. Os senhores do reino ao assistir a tudo isto, nada disseram ao rei, mas começaram a escolher entre si qual deles seria melhor como rei, pois deixaram de acreditar num rei que não praticava a justiça.
A rainha assistia a tudo isto com grande contentamento, pois acreditava que esta era uma boa punição para as ações do rei, mas não se apercebeu daquilo que tinha realmente feito.
A mulher sábia, que agora era louca, começou a chorar, pois ninguém se tinha apercebido que o mal que iria atacar o reino não teria de vir de fora, e que só todos juntos conseguiriam salvar o reino.
E assim foi que aos cães de guerra foi ordenado que enviassem o seu irmão cão de guarda para fora do reino e que o impedissem de regressar, mas quando chegaram à fronteira falaram entre si e decidiram acompanhar o cão de guarda no seu exílio e não regressar para junto de um rei tonto e cego de vaidade. Disseram então aos vigias da fronteira, “Diz ao rei deste reino, que já não somos a sua matilha. Um cão de guarda, guarda, um cão de guerra, guerreia. Ele ordenou que o cão de guarda guerreasse e que os cães de guerra guardassem, e por suas próprias ações provou não saber como reinar. Não regressaremos jamais a este reino, vamos sim juntar-nos às alcateias da nossa Mãe Loba e lá ficaremos em paz.”
Quando isto foi comunicado ao rei, grande alvoroço criou no reino, pois as gentes não queriam que ele continuasse como rei, mas os senhores ainda não tinham escolhido qual de entre eles seria o novo rei.
Quando estas novidades chegaram à pastora, logo ela se apressou para falar com o rei, apesar de já ser tarde de mais, mas ainda assim o rei a escutou.
“Ó rei, que fizeste tu? Esqueceste que um cão de guarda não serve como cão de guerra? Quem te disse a ti para cometeres tão grande disparate?”
Ao ouvir estas palavras, muito a rainha se ofendeu e replicou “Mais sabe um rei que uma pastora acerca de quem enviar para a guerra!”
E finalmente, ao ouvir a forma como a rainha falava com a pastora, percebeu o rei de quão graves e erradas tinham sido as suas decisões e quis emendar os seus erros. Mas era tarde de mais.
Os senhores do reino, incapazes de escolher um novo rei que a todos agradasse começaram a lutar entre si e nas suas lutas destruíram o reino e mataram as suas gentes, e tão ferozes eram uns para os outros que nenhum venceu e todos perderam, pois os demónios e aventesmas que cercavam o reino aproveitaram-se deste estado de coisas e invadiram o reino e destruíram tudo o que podiam.
A toda esta loucura ninguém escapou com vida, exceto o rei. Nem rainha, nem matilheiro, nem pastora, nem mulher sábia, ninguém escapou ao mal profetizado. Apenas o rei ficou, mas só porque o seu castigo pelo que tinha feito ainda não havia terminado. O rei ficou sozinho nas ruínas do reino, sem ninguém para lhe fazer companhia, com exceção de memórias e arrependimentos.
Por fim, após muitas estações sem ver vivalma, apareceu à frente do rei a Mãe Loba e a matilha que tinha sido do rei.
Falou então a Mãe Loba, “Ó homem arrogante e tonto! Que fizeste tu aos teus com as tuas vaidades e a tua falta de tino. Contudo ainda não terminou o teu castigo por teres traído as tuas gentes com as tuas más decisões. Não morrerás enquanto neste mundo existirem homens como tu, e todos os dias relembrarás os teus erros e os dos outros como tu. E se acreditas que este castigo é excessivo, recorda que a quem muito é dado, muito é exigido. Estes que teriam sido os teus protetores e aliados, serão agora os teus carcereiros, para que não possas espalhar a tua tontice ainda mais pelo mundo. Eles estão aqui como teus vigias e não te farão companhia ou sequer aliviarão a tua solidão. Este será o teu castigo completo e só a vontade do Pai de Todos te poderá aliviar a pena.”
E assim foi durante muito tempo, mas diz-se que certo dia, após muita solidão e sofrimento, o primeiro lobisomem conseguiu falar com o rei tonto e que este lhe contou a sua história e lhe fez entender o porquê do castigo que sofria. O primeiro lobisomem ganhou então humildade e perdão tornando-se muito grande em justiça e pensamento, e por isto o Pai de Todos recompensou o rei tonto libertando-o do seu castigo e permitindo-lhe que morresse. Diz-se ainda que de cada vez que o rei tonto regressa ao mundo, a matilha volta a acompanha-lo para o proteger, e que a cada regresso do rei este deve salvar tantos dos seus antigos súbditos quantos conseguir, mas que a rainha não poderá ser salva pois ainda não perdoou ao rei por algo que este não fez.
Uma dessas tradições era que somente os cães podiam combater os demónios e os fantasmas tenebrosos que por força queriam invadir esse país, e por isso todos os senhores da guerra que lá viviam tinham grandes matilhas que empregavam na caça a esses seres malignos.
Outra tradição que lá havia, era a que o rei não podia ter matilha nenhuma que fosse mesmo dele, pois dizia-se que os cães do rei seriam igualmente reis de todos os outros cães, e isso não era considerado uma coisa boa, porque se assim fosse o rei poderia impedir que os cães do reino de combater contra os demónios e as aventesmas.
Aconteceu um dia que, estando o rei e todos os senhores reunidos a festejar as colheitas, uma mulher sábia implorou que o rei escutasse uma profecia que ela tinha profetizado. De inicio, o rei não a quis escutar, mas a mulher sábia tanto chorou e implorou, que finalmente o rei aceitou ouvi-la.
“Sabe agora ó rei,” disse a mulher “ que tão grave é o que irás escutar, que perderei a mente só por to dizer! Por isso aprende aquilo que te vai ser dito, pois nem eu, nem qualquer outro que conheça o futuro voltará a falar claro.”
Ao ouvir isto, o rei e os senhores ficaram muito sobressaltados, mas como eram corajosos e ponderados, mantiveram-se em silencio e abriram ouvidos e mente para aprenderem o que cada um conseguisse.
“Sabe, ó rei, que um grande mal se dirige contra este reino. Sabe mais, ó rei, que só todas as alcateias juntas poderão derrotar e afastar esse mal. Sabe ainda isto, ó rei, que só a matilha do rei consegue juntar todas as outras. E por sabe ainda isto, ó rei, um cão de guerra aprende a lutar e aprende a parar, mas um cão de guarda luta até à morte e para além dela pelo senhor que o mereça, e que esse mesmo cão de guarda luta até à morte e para além dela do senhor que não o mereça.”
Tudo isto muito surpreendeu o rei e os senhores do reino, mas a única coisa que os confundiu foi o bocado sobre os cães de guarda, pois todos os habitantes daquele reino, do mais velho ao mais novo e do mais rico ao mais pobre, sabiam que os cães de guarda nunca deviam ser traídos pelos seus senhores, sob pena de grandes e pavorosas maldições recaírem sobre os traidores e todos aqueles que os rodeassem.
Ao ver que o rei não tinha aprendido tudo aquilo de que necessitaria, a mulher sábia começou a chorar e só conseguiu dizer mais isto, “Um cão é um cão, um homem é um homem, um soldado é um soldado, um assassino é um assassino. Se o teu cão não é um soldado, não deixa de ser teu cão. Se o teu cão sabe que deve guardar os teus passos, não o afastes de ti, nem o mandes para a guerra, pois quando ele regressar já não será o teu cão, mas o teu assassino.”
Depois de ensinar isto a mulher calou-se e nada mais disse. Contudo o rei e os senhores não conseguiram perceber se a última coisa dita pela mulher sábia era ensinamento ou loucura, pelo que se recolheram a si mesmos para pensar em tudo aquilo que tinham sido capazes de aprender.
No dia seguinte, reuniram-se novamente o rei e os senhores e começaram a discutir e a debater entre si o que significariam as palavras da mulher sábia, e das suas discussões e debates concluíram as seguintes coisas, primeiro, que estavam em perigo. Segundo, que esse perigo não era imediato, porque se assim fosse já os espiões e vigias os teriam alertado. Terceiro, que o rei necessitaria de uma matilha que fosse mesmo dele, e que essa matilha deveria ser unicamente de cães de guerra, pois para nenhum outro fim necessitaria o rei de uma matilha. Concluindo todas estas coisas, ficaram muito agradados em si mesmos, pois lhes pareceu que haviam interpretado corretamente todos os avisos da mulher sábia.
Começaram então os senhores da guerra a gabarolar entre si as respetivas matilhas e de qual delas viriam os cães do rei. A rainha que até então havia reservado para si mesma as suas opiniões, decidiu intervir.
“Esposo, como sabes, antes de ser rainha era senhora da guerra, filha de um senhor da guerra e neta de senhores da guerra. Sempre a minha família lutou por este reino contra os males que nos tentam invadir, e nunca os nossos cães falharam como guerreiros e lutadores. Se mo permitires, escolherei por ti os cães certos para a tua matilha e o matilheiro certo para os ensinar.”
Quer o rei quer os senhores ficaram muito agradados com a solução da rainha, o rei porque sabia que a rainha era mais conhecedora de cães, matilhas e matilheiros do ele, e os senhores porque desta forma o rei não seria desviado dos seus atuais deveres de rei.
A única dificuldade para o rei era que, para a rainha poder escolher os cães certos, teria de visitar todas as matilhas de todos os senhores, e isso significava que ele não veria a rainha durante muito tempo, pois ele não podia parar de reinar para acompanhar a rainha na sua tarefa.
“Não temais, meu esposo,” disse a rainha “pois o tempo apenas parece longo. Na verdade, só decorrerá uma estação sem que estejamos juntos, e uma estação é um pequeno sacrifício para evitar o mal que ai vem.”
O rei entendia que assim devia e por isso não dificultou a partida da rainha, mas entristeceu-se sem a sua presença e começou a caminhar sozinho pelos campos, para que as gentes do reino não o vissem e igualmente se entristecessem.
Certo dia, o rei encontrou uma pastora que pastoreava vacas, ovelhas e cabras, acompanhada somente por uma cadela prenha. Como quer rei, quer pastora não tinham muito que dizer, habituaram-se a estar sentados lado a lado sem dizer palavra, apreciando apenas o facto de não estarem sozinhos.
Numa das visitas do rei, este não viu a cadela em lado algum, e perguntou à pastora o que lhe tinha sucedido. “Sucedeu o que tinha de suceder, ó rei. À cadela nasceu-lhe a ninhada durante a noite, e sendo todos rafeiros, vão ser todos pastores e ajudar-me a guardar este rebanho.”
Matutou o rei nisto, que à pastora para ter uma matilha lhe bastava que a cadela tivesse cachorros, mas que para o rei ter uma matilha lhe era necessário ficar sem rainha durante meses.
Falando estes pensamentos à pastora, começou esta a gargalhar e a rebolar-se no chão de tanto riso!
“Que tontaria, ó rei! A minha matilha guarda vacas, ovelhas e cabras, e só aquelas que me compete vigiar. A tua matilha vai guardar pessoas, cães e sonhos. Os meus cães serão bons pastores, mas os teus terão de ser os melhores soldados de todos, ou não servirão para nada. Não vale sequer a pena comparar os nossos cães, ó rei, nem tal seria justo, pois os meus são cães de guarda e os teus são cães de guerra.”
Assim posto, percebeu o rei que realmente estava a ser tonto, e tanto alívio sentiu ao perceber que ainda era um homem como os outros, que pediu à pastora que lhe oferecesse um dos cachorros para o relembrar disso todos os dias.
“Pois sim, ó rei! Mas mas não esqueças, mesmo sendo da mesma matilha, o cão da pastora será tanto cão de guerra, como os cães da rainha serão cães de guarda.”
Ficou então combinado que quando o cachorro fosse desmamado, o rei o levaria para a sua matilha e que seria treinado para ser o cão de guarda do rei.
Passou o tempo e finalmente a rainha regressou com os cães e o matilheiro escolhidos. Muito se alegrou o rei, e tão feliz se sentiu que contou à rainha tudo o que tinha sucedido durante a sua ausência sem nada ocultar. Ora aconteceu, que quando a rainha escutou que o rei tinha pedido um cão à pastora para a sua matilha, ficou muito desgostosa, pois acreditou que o rei não confiava na sua sabedoria. E tão feliz estava o rei por ter a rainha novamente a seu lado que não viu a tristeza que lhe tinha provocado.
Observando os cachorros escolhidos pela rainha, muito o rei os gabou e muito louvou a rainha pelas suas capacidades, e colocando o cachorro da pastora junto aos cães da rainha, disse ao matilheiro, “Devem ser criados juntos como iguais que são, mas atenta que os cães da rainha são cães de guerra e vão defender pessoas, cães e sonhos, e que o cão da pastora é cão de guarda e vai defender vacas, ovelhas, cabras e reis tontos que se esqueceram que reis e pastoras são iguais porque são diferentes.”
O matilheiro não entendeu tudo o que o rei disse, mas entendeu que os cães da rainha iriam proteger o reino e que o cão da pastora iria guardar o rei, e que isso estava certo, pois uns eram cães de guerra e o outro era cão de guarda.
A rainha também não entendeu as palavras do rei, e infelizmente o que entendeu foi que o rei não acreditava nos cães da rainha para o defenderem, e isso escureceu o seu coração e fechou-lhe a mente ao raciocínio.
Entretanto, os cachorros não se preocuparam com nenhum destes assuntos e dedicaram-se a cheirarem-se entre si, a rosnarem-se entre si, a lutar entre si, a brincar entre si e a agasalharem-se entre si, pois os cães, mesmo quando ainda não passam de cachorros, sabem que um cão é um cão, quer seja cão de guerra, quer seja cão de guarda.
E por uns tempos tudo pareceu estar bem, o rei e a rainha reinavam, os senhores senhoreavam, o matilheiro matilhava, a pastora pastoreava e os cães cresciam e aprendiam.
Ora veio um dia em que os vigias deram o alerta de que inimigos se aproximavam do reino pelo sul, e sendo os cães do rei já crescidos e treinados mandou o rei que se preparassem para a guerra. Acontece que a rainha viu então uma oportunidade de se vingar das ofensas que acreditava que o rei lhe tinha feito. Disse então, “Meu esposo, não mandes já os cães de guerra, pois estes inimigos poderão não ser aqueles que foram profetizados. Manda em vez deles o teu cão de guarda, e ele será capaz de lidar com os teus inimigos normais. Mas se forem os inimigos profetizados, isso dará tempo para que os teus cães de guerra os destruam.”
De inicio estas palavras perturbaram o rei, mas os senhores da guerra concordaram que não colocar em perigo os defensores maiores do reino por causa de inimigos menores era uma boa ideia. E assim o rei ordenou o rei ao seu cão de guarda que fosse derrotar os inimigos que vinham pelo sul.
O cão de guarda foi, e muito lutou com os inimigos, mas por fim conseguiu derrota-los a todos e regressou ao rei. Vinha coberto de sangue e de ferimentos, mas satisfeito por ter protegido o rei e o reino. Quando assim o viu, logo o rei o quis louvar grandemente, mas a rainha, enraivecida com a vitória do cão da pastora, disse assim “Meu esposo, não te esqueças que ele é cão de guarda, e não será bom que se lhe louvem feitos de guerra.”
O rei pensou no assunto e, mesmo sentindo que não era certo, concordou que não seria certo louvar um cão de guarda por ter lutada na guerra, pelo que mandou apenas que lhe curassem os ferimentos e que regressasse para junto da matilha do rei. Ao ver a forma como o cão de guarda era recompensado, inquietaram-se os cães de guerra com a sorte dele e com a sua própria sorte, mas a rainha disse-lhes que não se inquietassem pois eles eram cães de guerra, e ele era cão de guarda.
Quem não gostou de ver isto foi o matilheiro, que começou a pensar que talvez o rei não soubesse ser justo. Mas nada disse e nada falou.
Vieram então os vigias e alertaram que outros inimigos vinham de leste e que era necessário defender o reino novamente. Novamente quis o rei enviar os cães de guerra, mas novamente falou a rainha, “Melhor é que vá o cão de guarda, pois já provou que sabe guardar o reino e assim poupa os cães de guerra para os inimigos da profecia.”
Novamente enviou o rei o cão de guarda para combater os inimigos do reino, desta vez a leste, e novamente o cão de guarda foi vitorioso. Regressando novamente ao rei, vinha coberto outra vez de sangue e ferimentos. Novamente o rei o quis louvar, mas a rainha repetiu, “Recorda que não é bom louvar os cães de guarda pelos seus feitos de guerra.”
E assim novamente foi enviado o cão de guarda de regresso à matilha sem qualquer recompensa. Mas desta vez o matilheiro queixou-se ao rei e a quem o quis ouvir acerca da maneira como o cão de guerra era tratado, mas a rainha convenceu o rei que as palavras do matilheiro não eram de importância. Contudo as gentes do reino começaram a pensar se o rei saberia reinar, mas nada disseram e nada falaram.
Novamente alertaram os vigias de inimigos que se aproximavam do reino, desta vez pelo oeste. Novamente quis o rei enviar os cães de guerra e novamente conseguiu a rainha convencer o rei a enviar o cão de guarda.
Mais um vez foi o cão de guarda vitorioso, e mais uma vez regressou ao rei coberto de sangue e de ferimentos, mas mais uma vez não obteve qualquer louvor por causa das palavras da rainha. Só que desta vez as gentes do reino começaram a dizer entre si que o rei não sabia reinar, e os senhores do reino ouviram as gentes e começaram a pensar.
Por fim, alertaram os vigias que inimigos vinham do norte. Vendo que o cão de guarda ainda não estava completamente recuperado da sua última batalha, quis o rei enviar os cães de guerra, mas disse a rainha, “Mais vale perder a vida o cão de guarda, do que pores em perigo aqueles que vão defender o reino do mal profetizado.” E assim foi que o cão de guarda foi enviado para a guerra uma quarta vez.
Mas dessa vez aconteceu que começou o mal da profecia a concretizar-se. O cão de guarda lutou e venceu, mas ao regressar coberto de sangue e ferimentos, não se apresentou ao rei e foi diretamente para a matilha, que o cercou e protegeu. Vendo isto, o rei muito se perturbou, mas a rainha disse “Meu esposo, vê a gratidão do cão da pastora para contigo. Tu lhe permitis-te que te protegesse, mas ele não demonstra o respeito que te é devido.” Inflamado por estas palavras, ordenou o rei que lhe trouxessem o cão de guarda para ser julgado por desrespeito à sua pessoa, e reuniram-se todos o senhores do reino para assistir ao julgamento.
Começando o julgamento, não permitiu o rei que mais ninguém falasse, e condenou o cão de guarda a ser expulso da matilha e do reino. Ao ouvir esta sentença muito se indignaram as gentes do reino pois sabiam que era injusta, mas o rei não as escutou. Os senhores do reino ao assistir a tudo isto, nada disseram ao rei, mas começaram a escolher entre si qual deles seria melhor como rei, pois deixaram de acreditar num rei que não praticava a justiça.
A rainha assistia a tudo isto com grande contentamento, pois acreditava que esta era uma boa punição para as ações do rei, mas não se apercebeu daquilo que tinha realmente feito.
A mulher sábia, que agora era louca, começou a chorar, pois ninguém se tinha apercebido que o mal que iria atacar o reino não teria de vir de fora, e que só todos juntos conseguiriam salvar o reino.
E assim foi que aos cães de guerra foi ordenado que enviassem o seu irmão cão de guarda para fora do reino e que o impedissem de regressar, mas quando chegaram à fronteira falaram entre si e decidiram acompanhar o cão de guarda no seu exílio e não regressar para junto de um rei tonto e cego de vaidade. Disseram então aos vigias da fronteira, “Diz ao rei deste reino, que já não somos a sua matilha. Um cão de guarda, guarda, um cão de guerra, guerreia. Ele ordenou que o cão de guarda guerreasse e que os cães de guerra guardassem, e por suas próprias ações provou não saber como reinar. Não regressaremos jamais a este reino, vamos sim juntar-nos às alcateias da nossa Mãe Loba e lá ficaremos em paz.”
Quando isto foi comunicado ao rei, grande alvoroço criou no reino, pois as gentes não queriam que ele continuasse como rei, mas os senhores ainda não tinham escolhido qual de entre eles seria o novo rei.
Quando estas novidades chegaram à pastora, logo ela se apressou para falar com o rei, apesar de já ser tarde de mais, mas ainda assim o rei a escutou.
“Ó rei, que fizeste tu? Esqueceste que um cão de guarda não serve como cão de guerra? Quem te disse a ti para cometeres tão grande disparate?”
Ao ouvir estas palavras, muito a rainha se ofendeu e replicou “Mais sabe um rei que uma pastora acerca de quem enviar para a guerra!”
E finalmente, ao ouvir a forma como a rainha falava com a pastora, percebeu o rei de quão graves e erradas tinham sido as suas decisões e quis emendar os seus erros. Mas era tarde de mais.
Os senhores do reino, incapazes de escolher um novo rei que a todos agradasse começaram a lutar entre si e nas suas lutas destruíram o reino e mataram as suas gentes, e tão ferozes eram uns para os outros que nenhum venceu e todos perderam, pois os demónios e aventesmas que cercavam o reino aproveitaram-se deste estado de coisas e invadiram o reino e destruíram tudo o que podiam.
A toda esta loucura ninguém escapou com vida, exceto o rei. Nem rainha, nem matilheiro, nem pastora, nem mulher sábia, ninguém escapou ao mal profetizado. Apenas o rei ficou, mas só porque o seu castigo pelo que tinha feito ainda não havia terminado. O rei ficou sozinho nas ruínas do reino, sem ninguém para lhe fazer companhia, com exceção de memórias e arrependimentos.
Por fim, após muitas estações sem ver vivalma, apareceu à frente do rei a Mãe Loba e a matilha que tinha sido do rei.
Falou então a Mãe Loba, “Ó homem arrogante e tonto! Que fizeste tu aos teus com as tuas vaidades e a tua falta de tino. Contudo ainda não terminou o teu castigo por teres traído as tuas gentes com as tuas más decisões. Não morrerás enquanto neste mundo existirem homens como tu, e todos os dias relembrarás os teus erros e os dos outros como tu. E se acreditas que este castigo é excessivo, recorda que a quem muito é dado, muito é exigido. Estes que teriam sido os teus protetores e aliados, serão agora os teus carcereiros, para que não possas espalhar a tua tontice ainda mais pelo mundo. Eles estão aqui como teus vigias e não te farão companhia ou sequer aliviarão a tua solidão. Este será o teu castigo completo e só a vontade do Pai de Todos te poderá aliviar a pena.”
E assim foi durante muito tempo, mas diz-se que certo dia, após muita solidão e sofrimento, o primeiro lobisomem conseguiu falar com o rei tonto e que este lhe contou a sua história e lhe fez entender o porquê do castigo que sofria. O primeiro lobisomem ganhou então humildade e perdão tornando-se muito grande em justiça e pensamento, e por isto o Pai de Todos recompensou o rei tonto libertando-o do seu castigo e permitindo-lhe que morresse. Diz-se ainda que de cada vez que o rei tonto regressa ao mundo, a matilha volta a acompanha-lo para o proteger, e que a cada regresso do rei este deve salvar tantos dos seus antigos súbditos quantos conseguir, mas que a rainha não poderá ser salva pois ainda não perdoou ao rei por algo que este não fez.
domingo, 2 de fevereiro de 2014
Converseta: Transcrição do programa de 2014-01-31
(inicio de transcrição)
Anabela Matos (Apresentadora) [AM] Ora então muito bom dia a todos os nossos ouvintes! Cá estamos nós mais uma vez em vésperas de fim de semana! Finalmente, já estamos mais que prontos para um descanso bem merecido!
João Luís (Apresentador) [JL] Merecido, merecido... também não sejamos exagerados. Há por ai muito profissional só de nome.
Rita Félix (Convidada Permanente) [RF] Ai lá está ele com o mau feitio! Ó João, com esses azeites não chegas a velho.
[JL] Ai chego, chego! E digo mais, até fico cá p'ra semente.
[RF] Agora é que acertastes. Nem os anjinhos te aturam quando estás dessa forma.
[JL] O minha senhora dona Rita Félix! Fique sabendo que já tenho caldeirão apalavrado lá p'ra baixo!
[RF] No Algarve? Pensava que lá era só apartamentos de féria.
[JL] Ai valha-me uma santa que esteja de turno aos apresentadores de rádio com mau feitio...
[AM] Vá-lá pessoal. Portem-se bem, que isto não é aquela casa de que fomos proibidos de falar mais. Afinal somos todos adultos responsáveis e comedidos.
[RF] Responsável! Comedida! Ó Anabela, vê lá o que dizes! Olha que consigo tão peixeira como se tivesse nascido na praça a gritar o preço da sardinha!
[JL] É verdade, verdadinha. Rita, se quiseres uma testemunha estou completamente disponível.
[AM] Ora bem! Vamos nem sequer começar com peixeiradas que eu só sei apresentar programas de rádio. Para começar, parabéns Rita! Já são dez anos como nossa convidada.
[RF] É verdade! Foi à dez anos aquela primeira entrevista... Olha lá não vão dar uma de Gato Fedorento e voltar a passar aquela vergonha, pois não?
[JL] Não te preocupes que não a vamos repetir. De qualquer forma nem é preciso. Continua a estar no top 10 dos programas com mais downloads do site cá da rádio.
[AM] Bem! Adiante. Rita, após dez anos, como é que lembras daquela cabeça de vento que entrou no nosso estúdio pela primeira vez, para falar de uma personagem de telenovela?
[RF] Olha, por vezes com saudades de quão tapadinha era.
[JL] Tens saudades de não fazeres ideia do mundo que te rodeava?
[RF] Em certos momentos, sim. Tenho saudades de não fazer ideia do que me rodeava.
[AM] Hmmm... Mas a tua vida tem sido um sucesso aos olhos do mundo.
[RF] Não estou a negar que existiram momentos extraordinários nestes dez anos desde que falamos pela primeira vez. Mas igualmente percebi que a vida é maior do que as telenovelas fazem crer.
[JL] Arrependes-te de ter representado a Aninhas?
[RF] Não... Ouve momentos em que senti muita vergonha por a ter representado, mas com o tempo acabei por perceber que a Aninhas, com toda a sua ignorância e com toda a sua cobiça, era igualmente muito inocente. Eu e ela tinha-mos essa caraterística em comum: éramos ambas muito inocentes.
[AM] Uma década depois como vês a tua escolha para representar uma canis? Sendo tu félix, lembro-me que foi uma confusão para muita gente.
[RF] Também foi muito confuso para mim perceber de inicio essa escolha do Miguel, mas acabava por fazer todo o sentido, pois praticamente não havia transformações em cena. Os personagens estavam muito direcionados para o diálogo, quase não havia cenas de ação.
[JL] Para aqueles que nos estão a ouvir, Miguel Rodrigues foi o autor, produtor e realizador de “Um Amor Verdadeiro”, uma das mais bem sucedidas telenovelas da nossa televisão com inúmeros prémios nacionais e internacionais.
[AM] Infelizmente, “Um Amor Verdadeiro” foi igualmente o ultimo trabalho do Miguel Rodrigues, pois ele faleceu repentinamente quanto estava a preparar o seu projeto seguinte, “A terra sob os teus pés”.
[RF] Foi realmente uma grande perda para as artes quando o Miguel morreu. Eu não tinha sido escolhida para nenhum papel na “A terra”, mas li a sinopse e alguns guiões dos primeiros capítulos e era algo de sublime. Foi realmente trágico que tenha ardido tudo naquele incêndio que vitimou o Miguel.
[JL] É claro que até hoje continuam as teorias da conspiração acerca desse incêndio...
[RF] Continuam apenas para aqueles que não conheciam o Miguel! Quem quer que se tivesse cruzado com ele, sabia que ele era um fumador compulsivo. Ele não largava os cigarros nunca, e não seria a primeira vez que pegava fogo a qualquer coisa por por não prestar atenção aonde punha os cigarros acessos.
[AM] A verdade é que se perdeu um dos melhores artistas do nosso pais, mas a sua memória perdura. E as suas intenções também!
[RF] Isso é verdade. A Aninhas era uma palerma interesseira, mas foi extremamente eficaz a criar ligações com o público. Na realidade a personagem foi tão bem sucedida, que começou a assumir parte das funções que deveriam ser da Margarida, que era a sua mãe na telenovela. As pessoas gostaram tanto de ver os disparates em que a Aninhas se metia, que a tarefa de mostrar o dia a dia dos metamorfos passou para ela.
[JL] É verdade que a Joana Guerra, a atriz que fazia de Margarida, a tua mãe na telenovela, se zangou com o Miguel por causa de lhe esvaziarem a personagem?
[RF] Mais uma vez não passa tudo de mitos e diz-que-disse. A Joana teve que permitir a alteração ao seu personagem, pois as caraterísticas do personagem faziam parte do contrato que tinha assinado. A dificuldade foi com o Miguel, que não queria mexer em nada da “sua visão”. O que realmente aconteceu foi que a Joana engravidou e teve de aligeirar a carga horária de filmagens. Se bem se lembram, a personagem dela começou a demonstrar como era um gravidez tardia para uma mulher com mais de 40 anos.
[AM] Não sabia que as caraterísticas dos personagens faziam parte dos contratos dos autores.
[RF] E não fazem normalmente. Mas a Joana já andava à muito tempo nisto e não queria que lhe arrebentassem com a carreira por dá cá aquela palha. Eu que é era fazer como me diziam ou não voltava a fazer nada em televisão.
[JL] Então é verdade que és madrinha da ninhada dela?
[RF] (ri-se) Não! Eles chamam-me todos de irmã mais velha e passam o tempo a ensinar-me a uivar, mas na altura eu e a Joana tinha-mos acabado de nos conhecer. Não se convida ninguém para apadrinhar, que não seja muito bem conhecido por nós. E os lupus são piores em relação a isso.
[AM] Voltando à Aninhas, do que mais te recordas dela?
[RF] Da relação dela com o António. A cena em que eles se separam, continuam a ser das mais duras que tive de representar. Aliás, eu nem sequer as vi na sua forma final.
[JL] Nunca viste uma das cenas mais dramáticas da nossa televisão?
[RF] Não. Na altura estava muito mergulhada na personagem, e tudo aquilo doeu muito à atriz, talvez por eu não ser capaz de uma traição tão grande na vida real.
[AM] Ainda assim, a Aninhas continuou a ser uma das personagens preferidas dos telespetadores.
[RF] É verdade. Uma boa vilã tem sempre muitos seguidores.
[JL] Ora bem. Temos de prosseguir com o nosso programa, e vamos agora entrar em contacto por telefone com um convidado regular do nosso programa: Dr. Fernandes! Bom dia!
Dr. Joaquim Fernandes (Convidado regular) [DF] Bom dia João! Bom dia Anabela! E parabéns Rita! E já agora, os meus agradecimentos. Se não fosse pela sua presença eu nunca teria sido convidado para falar neste programa.
[RF] Não tem de quê Dr. Fernandes! Afinal de contas, alguém tinha de me explicar os meus disparates. É verdade que na altura não achava piada nenhuma, mas hoje em dia, quando me recordo das nossas discussões até caio da cadeira a rir-me de mim mesma.
[DF] Eu é que agradeço. Os seus disparates eram os disparates de muita gente. A quantidade de enganos e erros que se desfizeram fez valer tudo a pena.
[JL] Ai que eles ainda voltam ao Fernando Pessoa!
[RF] Porta-te bem, ó rabugento por convicção! Deixa os adultos falarem!
[AM] Meninos! Vá lá! O meu nome é Anabela, não Teresa.
[DF] Isso quer dizer que não posso ser a voz?
[AM] Ó senhor doutor Joaquim Fernandes! Também você?
[RF] Não lhe ligue dr. Pode ser a voz sim senhora!
[AM] Não pode nada! Os da televisão ainda nos ameaçam com outro processo!
[JL] Mas eu queria ser a peixeira!
[AM] Calou! Aqui quem manda sou eu e as votações para a expulsão ainda não foram encerradas e para expulsar basta telefonar para... Já viram o que fizeram? Agora até eu fui na onda!
[JL] (com voz sedutora) Deixa-te ir Anabela. Aqui na casa está-se muito bem.
[RF] (muito aflita) Não Anabela! Não o escutes! Volta para a luz! Recusa o lado negro!
[AM] Lado negro? Afinal é a casa ou a Guerra das Estrela?
[RF] (continuando muito aflita) É aquele que me levar até Hollywood, Anabela!
[JL] Agora é que descarrilou.
[AM] Agora falando a sério. Dr. Fernandes. De tudo aquilo que se discutiu e esclareceu nas nossas conversas, qual é o tema que ainda dá mais luta?
[DF] Sem dúvida alguma que é o dos parceiros perfeitos, ou almas gémeas, ou qualquer um dos outros nomes que lhe queiram dar.
[JL] Ainda à gente a insistir nessa?
[DF] Sem dúvida alguma que ainda à gente a insistir nessa. E é fácil entender o porquê. O romantismo associado à ideia de um parceiro perfeito pré-destinado é muito forte para as adolescentes e não só. A ideia de que existe alguém que é só nosso é muito apelativa.
[RF] Só para que fique claro: Pessoas! Não existem parceiros perfeitos!
[AM] Calma Rita. Calma. Queres um chazinho de camomila para os nervos?
[DF] Um chazinho agora é que nem ginjas. De qualquer forma, o que a Rita disse é o essencial de tudo aquilo que disse acerca do tema. Apesar dos metamorfos poderem sentir-se sexualmente atraídos pelo cheiro de certos indivíduos, isso não é muito significativo na sua escolha de parceiros permanentes. São outros os critérios que levam os metamorfos a serem emocionalmente fieis. Essa fidelidade emocional nem sequer se traduz necessariamente numa fidelidade sexual. São inúmeros os exemplos de fidelidade emocional conjugada com infidelidade sexual declarada ou até requerida pelos mais diversos motivos.
[AM] Bem dr. Fernandes, vamos ter de fazer um intervalo para publicidade e já voltamos à nossa converseta.
(fim de transcrição)
Anabela Matos (Apresentadora) [AM] Ora então muito bom dia a todos os nossos ouvintes! Cá estamos nós mais uma vez em vésperas de fim de semana! Finalmente, já estamos mais que prontos para um descanso bem merecido!
João Luís (Apresentador) [JL] Merecido, merecido... também não sejamos exagerados. Há por ai muito profissional só de nome.
Rita Félix (Convidada Permanente) [RF] Ai lá está ele com o mau feitio! Ó João, com esses azeites não chegas a velho.
[JL] Ai chego, chego! E digo mais, até fico cá p'ra semente.
[RF] Agora é que acertastes. Nem os anjinhos te aturam quando estás dessa forma.
[JL] O minha senhora dona Rita Félix! Fique sabendo que já tenho caldeirão apalavrado lá p'ra baixo!
[RF] No Algarve? Pensava que lá era só apartamentos de féria.
[JL] Ai valha-me uma santa que esteja de turno aos apresentadores de rádio com mau feitio...
[AM] Vá-lá pessoal. Portem-se bem, que isto não é aquela casa de que fomos proibidos de falar mais. Afinal somos todos adultos responsáveis e comedidos.
[RF] Responsável! Comedida! Ó Anabela, vê lá o que dizes! Olha que consigo tão peixeira como se tivesse nascido na praça a gritar o preço da sardinha!
[JL] É verdade, verdadinha. Rita, se quiseres uma testemunha estou completamente disponível.
[AM] Ora bem! Vamos nem sequer começar com peixeiradas que eu só sei apresentar programas de rádio. Para começar, parabéns Rita! Já são dez anos como nossa convidada.
[RF] É verdade! Foi à dez anos aquela primeira entrevista... Olha lá não vão dar uma de Gato Fedorento e voltar a passar aquela vergonha, pois não?
[JL] Não te preocupes que não a vamos repetir. De qualquer forma nem é preciso. Continua a estar no top 10 dos programas com mais downloads do site cá da rádio.
[AM] Bem! Adiante. Rita, após dez anos, como é que lembras daquela cabeça de vento que entrou no nosso estúdio pela primeira vez, para falar de uma personagem de telenovela?
[RF] Olha, por vezes com saudades de quão tapadinha era.
[JL] Tens saudades de não fazeres ideia do mundo que te rodeava?
[RF] Em certos momentos, sim. Tenho saudades de não fazer ideia do que me rodeava.
[AM] Hmmm... Mas a tua vida tem sido um sucesso aos olhos do mundo.
[RF] Não estou a negar que existiram momentos extraordinários nestes dez anos desde que falamos pela primeira vez. Mas igualmente percebi que a vida é maior do que as telenovelas fazem crer.
[JL] Arrependes-te de ter representado a Aninhas?
[RF] Não... Ouve momentos em que senti muita vergonha por a ter representado, mas com o tempo acabei por perceber que a Aninhas, com toda a sua ignorância e com toda a sua cobiça, era igualmente muito inocente. Eu e ela tinha-mos essa caraterística em comum: éramos ambas muito inocentes.
[AM] Uma década depois como vês a tua escolha para representar uma canis? Sendo tu félix, lembro-me que foi uma confusão para muita gente.
[RF] Também foi muito confuso para mim perceber de inicio essa escolha do Miguel, mas acabava por fazer todo o sentido, pois praticamente não havia transformações em cena. Os personagens estavam muito direcionados para o diálogo, quase não havia cenas de ação.
[JL] Para aqueles que nos estão a ouvir, Miguel Rodrigues foi o autor, produtor e realizador de “Um Amor Verdadeiro”, uma das mais bem sucedidas telenovelas da nossa televisão com inúmeros prémios nacionais e internacionais.
[AM] Infelizmente, “Um Amor Verdadeiro” foi igualmente o ultimo trabalho do Miguel Rodrigues, pois ele faleceu repentinamente quanto estava a preparar o seu projeto seguinte, “A terra sob os teus pés”.
[RF] Foi realmente uma grande perda para as artes quando o Miguel morreu. Eu não tinha sido escolhida para nenhum papel na “A terra”, mas li a sinopse e alguns guiões dos primeiros capítulos e era algo de sublime. Foi realmente trágico que tenha ardido tudo naquele incêndio que vitimou o Miguel.
[JL] É claro que até hoje continuam as teorias da conspiração acerca desse incêndio...
[RF] Continuam apenas para aqueles que não conheciam o Miguel! Quem quer que se tivesse cruzado com ele, sabia que ele era um fumador compulsivo. Ele não largava os cigarros nunca, e não seria a primeira vez que pegava fogo a qualquer coisa por por não prestar atenção aonde punha os cigarros acessos.
[AM] A verdade é que se perdeu um dos melhores artistas do nosso pais, mas a sua memória perdura. E as suas intenções também!
[RF] Isso é verdade. A Aninhas era uma palerma interesseira, mas foi extremamente eficaz a criar ligações com o público. Na realidade a personagem foi tão bem sucedida, que começou a assumir parte das funções que deveriam ser da Margarida, que era a sua mãe na telenovela. As pessoas gostaram tanto de ver os disparates em que a Aninhas se metia, que a tarefa de mostrar o dia a dia dos metamorfos passou para ela.
[JL] É verdade que a Joana Guerra, a atriz que fazia de Margarida, a tua mãe na telenovela, se zangou com o Miguel por causa de lhe esvaziarem a personagem?
[RF] Mais uma vez não passa tudo de mitos e diz-que-disse. A Joana teve que permitir a alteração ao seu personagem, pois as caraterísticas do personagem faziam parte do contrato que tinha assinado. A dificuldade foi com o Miguel, que não queria mexer em nada da “sua visão”. O que realmente aconteceu foi que a Joana engravidou e teve de aligeirar a carga horária de filmagens. Se bem se lembram, a personagem dela começou a demonstrar como era um gravidez tardia para uma mulher com mais de 40 anos.
[AM] Não sabia que as caraterísticas dos personagens faziam parte dos contratos dos autores.
[RF] E não fazem normalmente. Mas a Joana já andava à muito tempo nisto e não queria que lhe arrebentassem com a carreira por dá cá aquela palha. Eu que é era fazer como me diziam ou não voltava a fazer nada em televisão.
[JL] Então é verdade que és madrinha da ninhada dela?
[RF] (ri-se) Não! Eles chamam-me todos de irmã mais velha e passam o tempo a ensinar-me a uivar, mas na altura eu e a Joana tinha-mos acabado de nos conhecer. Não se convida ninguém para apadrinhar, que não seja muito bem conhecido por nós. E os lupus são piores em relação a isso.
[AM] Voltando à Aninhas, do que mais te recordas dela?
[RF] Da relação dela com o António. A cena em que eles se separam, continuam a ser das mais duras que tive de representar. Aliás, eu nem sequer as vi na sua forma final.
[JL] Nunca viste uma das cenas mais dramáticas da nossa televisão?
[RF] Não. Na altura estava muito mergulhada na personagem, e tudo aquilo doeu muito à atriz, talvez por eu não ser capaz de uma traição tão grande na vida real.
[AM] Ainda assim, a Aninhas continuou a ser uma das personagens preferidas dos telespetadores.
[RF] É verdade. Uma boa vilã tem sempre muitos seguidores.
[JL] Ora bem. Temos de prosseguir com o nosso programa, e vamos agora entrar em contacto por telefone com um convidado regular do nosso programa: Dr. Fernandes! Bom dia!
Dr. Joaquim Fernandes (Convidado regular) [DF] Bom dia João! Bom dia Anabela! E parabéns Rita! E já agora, os meus agradecimentos. Se não fosse pela sua presença eu nunca teria sido convidado para falar neste programa.
[RF] Não tem de quê Dr. Fernandes! Afinal de contas, alguém tinha de me explicar os meus disparates. É verdade que na altura não achava piada nenhuma, mas hoje em dia, quando me recordo das nossas discussões até caio da cadeira a rir-me de mim mesma.
[DF] Eu é que agradeço. Os seus disparates eram os disparates de muita gente. A quantidade de enganos e erros que se desfizeram fez valer tudo a pena.
[JL] Ai que eles ainda voltam ao Fernando Pessoa!
[RF] Porta-te bem, ó rabugento por convicção! Deixa os adultos falarem!
[AM] Meninos! Vá lá! O meu nome é Anabela, não Teresa.
[DF] Isso quer dizer que não posso ser a voz?
[AM] Ó senhor doutor Joaquim Fernandes! Também você?
[RF] Não lhe ligue dr. Pode ser a voz sim senhora!
[AM] Não pode nada! Os da televisão ainda nos ameaçam com outro processo!
[JL] Mas eu queria ser a peixeira!
[AM] Calou! Aqui quem manda sou eu e as votações para a expulsão ainda não foram encerradas e para expulsar basta telefonar para... Já viram o que fizeram? Agora até eu fui na onda!
[JL] (com voz sedutora) Deixa-te ir Anabela. Aqui na casa está-se muito bem.
[RF] (muito aflita) Não Anabela! Não o escutes! Volta para a luz! Recusa o lado negro!
[AM] Lado negro? Afinal é a casa ou a Guerra das Estrela?
[RF] (continuando muito aflita) É aquele que me levar até Hollywood, Anabela!
[JL] Agora é que descarrilou.
[AM] Agora falando a sério. Dr. Fernandes. De tudo aquilo que se discutiu e esclareceu nas nossas conversas, qual é o tema que ainda dá mais luta?
[DF] Sem dúvida alguma que é o dos parceiros perfeitos, ou almas gémeas, ou qualquer um dos outros nomes que lhe queiram dar.
[JL] Ainda à gente a insistir nessa?
[DF] Sem dúvida alguma que ainda à gente a insistir nessa. E é fácil entender o porquê. O romantismo associado à ideia de um parceiro perfeito pré-destinado é muito forte para as adolescentes e não só. A ideia de que existe alguém que é só nosso é muito apelativa.
[RF] Só para que fique claro: Pessoas! Não existem parceiros perfeitos!
[AM] Calma Rita. Calma. Queres um chazinho de camomila para os nervos?
[DF] Um chazinho agora é que nem ginjas. De qualquer forma, o que a Rita disse é o essencial de tudo aquilo que disse acerca do tema. Apesar dos metamorfos poderem sentir-se sexualmente atraídos pelo cheiro de certos indivíduos, isso não é muito significativo na sua escolha de parceiros permanentes. São outros os critérios que levam os metamorfos a serem emocionalmente fieis. Essa fidelidade emocional nem sequer se traduz necessariamente numa fidelidade sexual. São inúmeros os exemplos de fidelidade emocional conjugada com infidelidade sexual declarada ou até requerida pelos mais diversos motivos.
[AM] Bem dr. Fernandes, vamos ter de fazer um intervalo para publicidade e já voltamos à nossa converseta.
(fim de transcrição)
O que são os “Contos Tradicionais dos Lobisomens”?
Todas as culturas possuem uma tradição oral ou escrita de contos mais ou menos morais que ajudam a modelar o pensamento dessas culturas. Na sociedade ocidental moderna perdeu-se um pouco a ligação a esses contos, mas o mesmo não é verdade para todos os povos do mundo.
Não é meu objetivo criar toda uma mitologia para os lobisomens. Nem sequer vou tentar que os contos sejam consequentes entre si. O meu objetivo é somente o criar “motivos” para as razões de ser dos lobisomens. Como se facilmente se conclui, essas “razões” baseadas nesses “motivos”, são tão objetivas no mundo dos lobisomens, como as nossas “razões” baseadas nos nossos “motivos” são “objetivas” no nosso mundo real. Se duvidam do que afirmo, basta consultarem os livros de Historia. Muito daquilo que temos a certeza de ter acontecido no passado, não aconteceu como afirmamos que aconteceu.
Não é meu objetivo criar toda uma mitologia para os lobisomens. Nem sequer vou tentar que os contos sejam consequentes entre si. O meu objetivo é somente o criar “motivos” para as razões de ser dos lobisomens. Como se facilmente se conclui, essas “razões” baseadas nesses “motivos”, são tão objetivas no mundo dos lobisomens, como as nossas “razões” baseadas nos nossos “motivos” são “objetivas” no nosso mundo real. Se duvidam do que afirmo, basta consultarem os livros de Historia. Muito daquilo que temos a certeza de ter acontecido no passado, não aconteceu como afirmamos que aconteceu.
O que é a “Converseta”?
A “Converseta” é um programa de rádio mais ou menos popular no mundo dos meus lobisomens.
Em termos do mundo em que se insere é particularmente irrelevante, mas para mim como escrivinhador é uma ferramenta muito útil, pois permite-me começar a contextualizar esse mundo da aparência para as suas fundações.
De certa forma age como contraponto aos “Contos Tradicionais dos Lobisomens”, transferindo a realidade deste mundo para o mundo fictício onde tudo decorre.
Em termos do mundo em que se insere é particularmente irrelevante, mas para mim como escrivinhador é uma ferramenta muito útil, pois permite-me começar a contextualizar esse mundo da aparência para as suas fundações.
De certa forma age como contraponto aos “Contos Tradicionais dos Lobisomens”, transferindo a realidade deste mundo para o mundo fictício onde tudo decorre.
Contos Tradicionais dos Lobisomens: A Criação dos Machos
Quando o Pai de Tudo começou a criar os seres que nascem, crescem, vivem e morrem, só criou fêmeas, pois para estas terem descendência, bastava-lhes que chegasse o momento certo para a terem, e somente então ficariam as fêmeas prenhas de nova vida. E durante muito tempo foram os seres felizes com este modo das coisas.
Acontece que um dia, ao olhar para as suas filhas, o Pai entristeceu-se grandemente, pois as filhas eram cópias das mães e nada faziam de diferente das suas mães. Então o Pai de Tudo recolheu-se em pensamento e meditou em como tornar aquelas filhas que tanto amava em filhas que o amassem de verdade em vez de somente o amarem por assim lhes ser dito. Pensou, pensou, pensou ainda mais, e finalmente decidiu criar o homem, para que lhes servisse de bom e mau exemplo, e assim seriam as suas filhas levadas a pensar por si próprias.
E assim foi criado o homem, incapaz de ver tudo o que existisse, para que cometesse erros; inteligente, para perceber o que o rodeava, quer o visse ou não; curioso, para querer aprender mais e mais; misericordioso ao ponto de destruir; cruel ao ponto de criar. Por fim, tornou-o capaz do bem e do mal, para que pudesse pensar por si mesmo.
E desta forma foi o homem criado, mas era tão perigoso para si e para as suas irmãs, que o Pai decidiu que haveria de ser macho, para que não pudesse nele ser gerada nova vida, e desta forma seriam as suas ações controladas.
Foi então o homem largado no mundo e desde logo começou a diferenciar entre as suas irmãs, que até então eram todas iguais entre si aos seus próprios olhos, mesmo sendo de formas diferentes. A umas chamou o homem de belas e as louvou, a outras de feias e as recusou. A umas chamou de úteis e delas se aproveitou, a outras chamou de inúteis e as ignorou. A umas chamou amigas e as corrompeu e a outras chamou inimigas e as destruiu.
Grande foi o tumulto gerado no mundo devido às ações do homem, e muito sofreram as filhas do Pai às mãos de seu irmão, mas o Pai de Tudo manteve-se em silencio para ver se as suas filhas cresciam. Mas elas continuavam a ser iguais às suas mães.
Aconteceu então, que um dia o homem começou a interrogar-se acerca das suas ações e opinou para si mesmo que nada do que fazia tinha sentido. Então parou de andar, de fazer e de falar, e apenas ficou a ver e a ouvir o que o rodeava, e enquanto assim fez pareceu que voltou a paz ao mundo.
Um dia, estando sozinho e a observar uma loba, viu algo de extraordinário. Viu essa loba a dar à luz uma ninhada de lobinhas. Surpreendido, aproximou-se da loba e perguntou-lhe acerca do que se tinha passado e de onde vinham as lobinhas que acabavam de nascer.
“Vêm do Pai de Tudo. Assim é para todos os seres que nascem, crescem, vivem e morrem.”
Olhando em volta, reparou então o homem que havia muitas filhas de todas as espécies, mas que ele era único e que, sendo macho, não podia gerar vida dentro de si. Percebendo que estava só, muito se entristeceu e fugiu para lugares desolados e secretos para chorar sem ser visto.
Foi então que o Pai de Tudo se moveu, pois de todas as suas criações, o homem era o único que podia desobedecer aos seus pedidos, e ao Pai repugnava impor a sua vontade àqueles que tinha criado. Então para resolver a situação, o Pai de Tudo foi falar com aquela loba que tinha respondido às perguntas do homem, e contou-lhe o porquê da criação do homem e de quão era necessário era que este continuasse a desafiar as suas irmãs ao crescimento.
Perguntou a loba ao Pai de Tudo, porque não falava este diretamente ao homem, mas o Pai respondeu que o homem era incapaz de o ver, para que quando as suas irmãs lhe descrevessem o Pai, tivessem que pensar naquilo que viam.
Meditou nisto a loba, mas concluiu que nada disto a impedia de falar com o homem e de lhe pedir que voltasse a desempenhar as suas tarefas. E assim fez a loba e começou a procurar o homem para com ele falar.
Ora como já foi dito, o homem tinha-se escondido onde ninguém o visse chorar, e por isso igualmente ninguém sabia onde ele estava, pelo que a loba teve de correr o mundo inteiro à sua procura. De caminho perguntava a cada uma das suas irmãs com que se cruzava se tinha visto o homem, e por sua vez relatava tudo aquilo que o Pai de Tudo lhe tinha dito acerca do homem. Ao ouvir a história da loba, algumas decidiram ajuda-la a achar o homem e outras consideraram que a paz em que viviam era melhor que os desejos do Pai e não a ajudaram. Mas sem a loba saber, nem todas as irmãs que a ajudavam queriam que o homem voltasse, e só a seguiam para matar o homem assim que pudessem .
Finalmente, após percorrer o mundo inteiro e depois de falar com todas as suas irmãs, só sobrava um sítio desolado e secreto que ainda não tinha sido visto pela loba. E foi assim que o homem foi descoberto no sítio onde se tinha escondido.
Então falou a loba ao homem, e disse-lhe o quão era necessário que desafiasse as suas irmãs, mas o homem disse que não.
“Não quero estar sozinho! Quero outros como eu para me fazerem companhia.”
As irmãs que o escutavam sofreram muito com a sua solidão e reunindo-se, discutiram entre si como fazer para que o homem pudesse gerar uma ninhada sendo macho. Contudo, como não sabiam o que era um macho ou uma fêmea e de que forma eram diferentes, não conseguiram concluir coisa nenhuma. Então nomearam a loba como enviada e pediram-lhe que falasse com o Pai de Tudo, para que este ajudasse o homem a ter companheiros iguais a si.
A loba simplesmente chamou o Pai e lhe relatou o que tinha sucedido e pediu-lhe que o homem gerasse uma ninhada de outros homens para finalmente ter companhia. Ao ouvir isto o Pai de Tudo ficou em silencio, pois se por um lado o homem estava a cumprir com a tarefa para com a qual tinha sido criado ao levar as suas irmãs a pensar em coisas em que nunca o tinham feito, por outro, aceder ao pedido das suas filhas levaria a que o mundo tivesse de ser refeito no seu todo.
Ora, enquanto o Pai de Tudo meditava em como aceder ao pedido das suas filhas, sucedeu que algumas delas decidiram que era o momento de matar o homem, para que este não pudesse continuar a criar tumultos no mundo e então atacaram-no e quase o conseguiram matar, mas antes que o conseguissem fazer, a loba e as outras irmãs que aguardavam a decisão do Pai, lutaram contra elas e conseguiram que o homem não morresse de imediato, mas este tinha ficado gravemente ferido e não iria viver muito mais tempo.
Ao ver tudo isto o Pai de Tudo muito sofreu pelas suas filhas, pois ao querer que estas crescessem não as podia impedir de crescer para o mal. Então adormeceu todos o seres do mundo com exceção da loba e do homem.
Então falou à loba. “A Vida e a Morte pertencem-me a mim e não a vós minhas filhas. Como punição por terem tentado matar o homem não poderão mais gerar vida sozinhas. Como recompensa por se terem detido a vós próprias, criarei machos para serem vossos companheiros e dividirei a capacidade de gerar vida entre a fêmea e o macho. Mas sabe isto, cuidar da vida gerada cabe a todos, fêmeas e machos. Aquele que se recusar a proteger irmã ou irmão, será entregue ao homem, e este o destruirá.”
Voltou-se então para o homem e falou-lhe. “Recusaste o meu pedido e fugiste para chorar lágrimas inúteis. Tivesses-me contado o teu sofrimento e eu to aliviaria. Assim, serás castigado com fragilidade no corpo, na mente e no espírito, e todas as tuas ações deixaram de ser tuas. Contudo, a tua solidão escurece-te, pelo que criarei para ti uma fêmea, que chamarás de mulher, e ela será forte onde tu fores fraco, e fraca onde tu fores forte, e nada farás que perdure sem estejam ambos a trabalhar em conjunto. Mas isto te ofereço, pois se assim agiste foi porque assim foste por mim criado. Permitirei que o amor verdadeiro habite em ti, e se dois da tua espécie se amarem com amor verdadeiro, serão a meus olhos como macho e fêmea, e serão capazes de cumprir com as suas missões, mesmo que não sejam capazes de gerar vida.”
Terminando de falar o Pai de Tudo adormeceu a loba e homem. Então refez o homem da maneira que decretara e para cada fêmea criou um macho e para o homem criou a mulher. Tendo terminado recolheu-se em silencio e aguardou que as suas filhas e os seus filhos acordassem e se reconhecessem entre si.
E assim foi que quando as filhas e os filhos do Pai de Tudo acordaram do seu sono se reconheceram entre si e começaram a aprender como deveriam ser um para com os outros. A loba explicou a quem a quis ouvir aquilo que o Pai de Tudo tinha determinado, mas uns não a quiseram ouvir, outros não a entenderam e somente uns poucos a escutaram com atenção. Desses que a escutaram com atenção faziam parte o homem e a mulher, mas devido ao decreto do Pai de Tudo em relação ao homem, aconteceu que rapidamente a sua descendência esqueceu como devia agir, e o dom que era o amor verdadeiro, e criaram para eles próprios regras que por vezes chegavam ao ponto de negar a vontade do Pai.
E assim foram criados os machos, e assim começou a rodar o mundo. Quem me escuta que me ouça.
Acontece que um dia, ao olhar para as suas filhas, o Pai entristeceu-se grandemente, pois as filhas eram cópias das mães e nada faziam de diferente das suas mães. Então o Pai de Tudo recolheu-se em pensamento e meditou em como tornar aquelas filhas que tanto amava em filhas que o amassem de verdade em vez de somente o amarem por assim lhes ser dito. Pensou, pensou, pensou ainda mais, e finalmente decidiu criar o homem, para que lhes servisse de bom e mau exemplo, e assim seriam as suas filhas levadas a pensar por si próprias.
E assim foi criado o homem, incapaz de ver tudo o que existisse, para que cometesse erros; inteligente, para perceber o que o rodeava, quer o visse ou não; curioso, para querer aprender mais e mais; misericordioso ao ponto de destruir; cruel ao ponto de criar. Por fim, tornou-o capaz do bem e do mal, para que pudesse pensar por si mesmo.
E desta forma foi o homem criado, mas era tão perigoso para si e para as suas irmãs, que o Pai decidiu que haveria de ser macho, para que não pudesse nele ser gerada nova vida, e desta forma seriam as suas ações controladas.
Foi então o homem largado no mundo e desde logo começou a diferenciar entre as suas irmãs, que até então eram todas iguais entre si aos seus próprios olhos, mesmo sendo de formas diferentes. A umas chamou o homem de belas e as louvou, a outras de feias e as recusou. A umas chamou de úteis e delas se aproveitou, a outras chamou de inúteis e as ignorou. A umas chamou amigas e as corrompeu e a outras chamou inimigas e as destruiu.
Grande foi o tumulto gerado no mundo devido às ações do homem, e muito sofreram as filhas do Pai às mãos de seu irmão, mas o Pai de Tudo manteve-se em silencio para ver se as suas filhas cresciam. Mas elas continuavam a ser iguais às suas mães.
Aconteceu então, que um dia o homem começou a interrogar-se acerca das suas ações e opinou para si mesmo que nada do que fazia tinha sentido. Então parou de andar, de fazer e de falar, e apenas ficou a ver e a ouvir o que o rodeava, e enquanto assim fez pareceu que voltou a paz ao mundo.
Um dia, estando sozinho e a observar uma loba, viu algo de extraordinário. Viu essa loba a dar à luz uma ninhada de lobinhas. Surpreendido, aproximou-se da loba e perguntou-lhe acerca do que se tinha passado e de onde vinham as lobinhas que acabavam de nascer.
“Vêm do Pai de Tudo. Assim é para todos os seres que nascem, crescem, vivem e morrem.”
Olhando em volta, reparou então o homem que havia muitas filhas de todas as espécies, mas que ele era único e que, sendo macho, não podia gerar vida dentro de si. Percebendo que estava só, muito se entristeceu e fugiu para lugares desolados e secretos para chorar sem ser visto.
Foi então que o Pai de Tudo se moveu, pois de todas as suas criações, o homem era o único que podia desobedecer aos seus pedidos, e ao Pai repugnava impor a sua vontade àqueles que tinha criado. Então para resolver a situação, o Pai de Tudo foi falar com aquela loba que tinha respondido às perguntas do homem, e contou-lhe o porquê da criação do homem e de quão era necessário era que este continuasse a desafiar as suas irmãs ao crescimento.
Perguntou a loba ao Pai de Tudo, porque não falava este diretamente ao homem, mas o Pai respondeu que o homem era incapaz de o ver, para que quando as suas irmãs lhe descrevessem o Pai, tivessem que pensar naquilo que viam.
Meditou nisto a loba, mas concluiu que nada disto a impedia de falar com o homem e de lhe pedir que voltasse a desempenhar as suas tarefas. E assim fez a loba e começou a procurar o homem para com ele falar.
Ora como já foi dito, o homem tinha-se escondido onde ninguém o visse chorar, e por isso igualmente ninguém sabia onde ele estava, pelo que a loba teve de correr o mundo inteiro à sua procura. De caminho perguntava a cada uma das suas irmãs com que se cruzava se tinha visto o homem, e por sua vez relatava tudo aquilo que o Pai de Tudo lhe tinha dito acerca do homem. Ao ouvir a história da loba, algumas decidiram ajuda-la a achar o homem e outras consideraram que a paz em que viviam era melhor que os desejos do Pai e não a ajudaram. Mas sem a loba saber, nem todas as irmãs que a ajudavam queriam que o homem voltasse, e só a seguiam para matar o homem assim que pudessem .
Finalmente, após percorrer o mundo inteiro e depois de falar com todas as suas irmãs, só sobrava um sítio desolado e secreto que ainda não tinha sido visto pela loba. E foi assim que o homem foi descoberto no sítio onde se tinha escondido.
Então falou a loba ao homem, e disse-lhe o quão era necessário que desafiasse as suas irmãs, mas o homem disse que não.
“Não quero estar sozinho! Quero outros como eu para me fazerem companhia.”
As irmãs que o escutavam sofreram muito com a sua solidão e reunindo-se, discutiram entre si como fazer para que o homem pudesse gerar uma ninhada sendo macho. Contudo, como não sabiam o que era um macho ou uma fêmea e de que forma eram diferentes, não conseguiram concluir coisa nenhuma. Então nomearam a loba como enviada e pediram-lhe que falasse com o Pai de Tudo, para que este ajudasse o homem a ter companheiros iguais a si.
A loba simplesmente chamou o Pai e lhe relatou o que tinha sucedido e pediu-lhe que o homem gerasse uma ninhada de outros homens para finalmente ter companhia. Ao ouvir isto o Pai de Tudo ficou em silencio, pois se por um lado o homem estava a cumprir com a tarefa para com a qual tinha sido criado ao levar as suas irmãs a pensar em coisas em que nunca o tinham feito, por outro, aceder ao pedido das suas filhas levaria a que o mundo tivesse de ser refeito no seu todo.
Ora, enquanto o Pai de Tudo meditava em como aceder ao pedido das suas filhas, sucedeu que algumas delas decidiram que era o momento de matar o homem, para que este não pudesse continuar a criar tumultos no mundo e então atacaram-no e quase o conseguiram matar, mas antes que o conseguissem fazer, a loba e as outras irmãs que aguardavam a decisão do Pai, lutaram contra elas e conseguiram que o homem não morresse de imediato, mas este tinha ficado gravemente ferido e não iria viver muito mais tempo.
Ao ver tudo isto o Pai de Tudo muito sofreu pelas suas filhas, pois ao querer que estas crescessem não as podia impedir de crescer para o mal. Então adormeceu todos o seres do mundo com exceção da loba e do homem.
Então falou à loba. “A Vida e a Morte pertencem-me a mim e não a vós minhas filhas. Como punição por terem tentado matar o homem não poderão mais gerar vida sozinhas. Como recompensa por se terem detido a vós próprias, criarei machos para serem vossos companheiros e dividirei a capacidade de gerar vida entre a fêmea e o macho. Mas sabe isto, cuidar da vida gerada cabe a todos, fêmeas e machos. Aquele que se recusar a proteger irmã ou irmão, será entregue ao homem, e este o destruirá.”
Voltou-se então para o homem e falou-lhe. “Recusaste o meu pedido e fugiste para chorar lágrimas inúteis. Tivesses-me contado o teu sofrimento e eu to aliviaria. Assim, serás castigado com fragilidade no corpo, na mente e no espírito, e todas as tuas ações deixaram de ser tuas. Contudo, a tua solidão escurece-te, pelo que criarei para ti uma fêmea, que chamarás de mulher, e ela será forte onde tu fores fraco, e fraca onde tu fores forte, e nada farás que perdure sem estejam ambos a trabalhar em conjunto. Mas isto te ofereço, pois se assim agiste foi porque assim foste por mim criado. Permitirei que o amor verdadeiro habite em ti, e se dois da tua espécie se amarem com amor verdadeiro, serão a meus olhos como macho e fêmea, e serão capazes de cumprir com as suas missões, mesmo que não sejam capazes de gerar vida.”
Terminando de falar o Pai de Tudo adormeceu a loba e homem. Então refez o homem da maneira que decretara e para cada fêmea criou um macho e para o homem criou a mulher. Tendo terminado recolheu-se em silencio e aguardou que as suas filhas e os seus filhos acordassem e se reconhecessem entre si.
E assim foi que quando as filhas e os filhos do Pai de Tudo acordaram do seu sono se reconheceram entre si e começaram a aprender como deveriam ser um para com os outros. A loba explicou a quem a quis ouvir aquilo que o Pai de Tudo tinha determinado, mas uns não a quiseram ouvir, outros não a entenderam e somente uns poucos a escutaram com atenção. Desses que a escutaram com atenção faziam parte o homem e a mulher, mas devido ao decreto do Pai de Tudo em relação ao homem, aconteceu que rapidamente a sua descendência esqueceu como devia agir, e o dom que era o amor verdadeiro, e criaram para eles próprios regras que por vezes chegavam ao ponto de negar a vontade do Pai.
E assim foram criados os machos, e assim começou a rodar o mundo. Quem me escuta que me ouça.
Não que perguntem, mas respondo na mesma: O que é isto?
Há já muito tempo que o bichinho da escrita existe em mim, mas só agora tenho a falta de vergonha suficiente para mostrar ao mundo alguns dos meus delírios.
Este blog é o meu tubo de ensaio enquanto, não direi escritor, mais escrevinhador de coisas. Estando a sofrer desde alguns anos a esta parte de um gravíssimo caso de viciação em histórias com lobisomens, considerei que o melhor era começa por ai mesmo, por um tema sem dúvida absurdo, mas com uma tolerância à asneira quase total.
O que é então "Lobisomens - O Passado É Para Esquecer"? De uma forma simples é o mundo onde os meus lobisomens vão viver as suas vidas. Ainda não sei tudo acerca deste mundo, sei que os lobisomens são reais lá. Sei que humanos sabem que os lobisomens existem e sabem quem eles são. Sei que esse mundo está a mudar. Sei que esse mundo é muito parecido ao nosso. Sei que os demónios desse mundo são os mesmos do nosso: ódio, ganancia, medo.
Como se percebe, não sei muito ainda acerca desse mundo. Não estou preocupado. Quero descobri-lo tanto como vocês. Quero que esse mundo exista para além das minhas limitações. Quero que esse mundo me faça pensar naquilo em que não quero pensar neste.
Não sei se se vão interessar por este mundo tanto como eu já estou interessado em o descobrir. Espero apenas que me acompanhem na viagem e que me digam quando estar prestes a chocar contra um qualquer obstáculo.
Até à próxima. Pode ser que os lobisomens sejam mais reais neste mundo do que no nosso.
Este blog é o meu tubo de ensaio enquanto, não direi escritor, mais escrevinhador de coisas. Estando a sofrer desde alguns anos a esta parte de um gravíssimo caso de viciação em histórias com lobisomens, considerei que o melhor era começa por ai mesmo, por um tema sem dúvida absurdo, mas com uma tolerância à asneira quase total.
O que é então "Lobisomens - O Passado É Para Esquecer"? De uma forma simples é o mundo onde os meus lobisomens vão viver as suas vidas. Ainda não sei tudo acerca deste mundo, sei que os lobisomens são reais lá. Sei que humanos sabem que os lobisomens existem e sabem quem eles são. Sei que esse mundo está a mudar. Sei que esse mundo é muito parecido ao nosso. Sei que os demónios desse mundo são os mesmos do nosso: ódio, ganancia, medo.
Como se percebe, não sei muito ainda acerca desse mundo. Não estou preocupado. Quero descobri-lo tanto como vocês. Quero que esse mundo exista para além das minhas limitações. Quero que esse mundo me faça pensar naquilo em que não quero pensar neste.
Não sei se se vão interessar por este mundo tanto como eu já estou interessado em o descobrir. Espero apenas que me acompanhem na viagem e que me digam quando estar prestes a chocar contra um qualquer obstáculo.
Até à próxima. Pode ser que os lobisomens sejam mais reais neste mundo do que no nosso.
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