Era uma vez uma rei que reinava num país distante e cheio de
tradições estranhas.
Uma dessas tradições era que somente os cães podiam combater os demónios e os fantasmas tenebrosos que por força queriam invadir esse país, e por isso todos os senhores da guerra que lá viviam tinham grandes matilhas que empregavam na caça a esses seres malignos.
Outra tradição que lá havia, era a que o rei não podia ter matilha nenhuma que fosse mesmo dele, pois dizia-se que os cães do rei seriam igualmente reis de todos os outros cães, e isso não era considerado uma coisa boa, porque se assim fosse o rei poderia impedir que os cães do reino de combater contra os demónios e as aventesmas.
Aconteceu um dia que, estando o rei e todos os senhores reunidos a festejar as colheitas, uma mulher sábia implorou que o rei escutasse uma profecia que ela tinha profetizado. De inicio, o rei não a quis escutar, mas a mulher sábia tanto chorou e implorou, que finalmente o rei aceitou ouvi-la.
“Sabe agora ó rei,” disse a mulher “ que tão grave é o que irás escutar, que perderei a mente só por to dizer! Por isso aprende aquilo que te vai ser dito, pois nem eu, nem qualquer outro que conheça o futuro voltará a falar claro.”
Ao ouvir isto, o rei e os senhores ficaram muito sobressaltados, mas como eram corajosos e ponderados, mantiveram-se em silencio e abriram ouvidos e mente para aprenderem o que cada um conseguisse.
“Sabe, ó rei, que um grande mal se dirige contra este reino. Sabe mais, ó rei, que só todas as alcateias juntas poderão derrotar e afastar esse mal. Sabe ainda isto, ó rei, que só a matilha do rei consegue juntar todas as outras. E por sabe ainda isto, ó rei, um cão de guerra aprende a lutar e aprende a parar, mas um cão de guarda luta até à morte e para além dela pelo senhor que o mereça, e que esse mesmo cão de guarda luta até à morte e para além dela do senhor que não o mereça.”
Tudo isto muito surpreendeu o rei e os senhores do reino, mas a única coisa que os confundiu foi o bocado sobre os cães de guarda, pois todos os habitantes daquele reino, do mais velho ao mais novo e do mais rico ao mais pobre, sabiam que os cães de guarda nunca deviam ser traídos pelos seus senhores, sob pena de grandes e pavorosas maldições recaírem sobre os traidores e todos aqueles que os rodeassem.
Ao ver que o rei não tinha aprendido tudo aquilo de que necessitaria, a mulher sábia começou a chorar e só conseguiu dizer mais isto, “Um cão é um cão, um homem é um homem, um soldado é um soldado, um assassino é um assassino. Se o teu cão não é um soldado, não deixa de ser teu cão. Se o teu cão sabe que deve guardar os teus passos, não o afastes de ti, nem o mandes para a guerra, pois quando ele regressar já não será o teu cão, mas o teu assassino.”
Depois de ensinar isto a mulher calou-se e nada mais disse. Contudo o rei e os senhores não conseguiram perceber se a última coisa dita pela mulher sábia era ensinamento ou loucura, pelo que se recolheram a si mesmos para pensar em tudo aquilo que tinham sido capazes de aprender.
No dia seguinte, reuniram-se novamente o rei e os senhores e começaram a discutir e a debater entre si o que significariam as palavras da mulher sábia, e das suas discussões e debates concluíram as seguintes coisas, primeiro, que estavam em perigo. Segundo, que esse perigo não era imediato, porque se assim fosse já os espiões e vigias os teriam alertado. Terceiro, que o rei necessitaria de uma matilha que fosse mesmo dele, e que essa matilha deveria ser unicamente de cães de guerra, pois para nenhum outro fim necessitaria o rei de uma matilha. Concluindo todas estas coisas, ficaram muito agradados em si mesmos, pois lhes pareceu que haviam interpretado corretamente todos os avisos da mulher sábia.
Começaram então os senhores da guerra a gabarolar entre si as respetivas matilhas e de qual delas viriam os cães do rei. A rainha que até então havia reservado para si mesma as suas opiniões, decidiu intervir.
“Esposo, como sabes, antes de ser rainha era senhora da guerra, filha de um senhor da guerra e neta de senhores da guerra. Sempre a minha família lutou por este reino contra os males que nos tentam invadir, e nunca os nossos cães falharam como guerreiros e lutadores. Se mo permitires, escolherei por ti os cães certos para a tua matilha e o matilheiro certo para os ensinar.”
Quer o rei quer os senhores ficaram muito agradados com a solução da rainha, o rei porque sabia que a rainha era mais conhecedora de cães, matilhas e matilheiros do ele, e os senhores porque desta forma o rei não seria desviado dos seus atuais deveres de rei.
A única dificuldade para o rei era que, para a rainha poder escolher os cães certos, teria de visitar todas as matilhas de todos os senhores, e isso significava que ele não veria a rainha durante muito tempo, pois ele não podia parar de reinar para acompanhar a rainha na sua tarefa.
“Não temais, meu esposo,” disse a rainha “pois o tempo apenas parece longo. Na verdade, só decorrerá uma estação sem que estejamos juntos, e uma estação é um pequeno sacrifício para evitar o mal que ai vem.”
O rei entendia que assim devia e por isso não dificultou a partida da rainha, mas entristeceu-se sem a sua presença e começou a caminhar sozinho pelos campos, para que as gentes do reino não o vissem e igualmente se entristecessem.
Certo dia, o rei encontrou uma pastora que pastoreava vacas, ovelhas e cabras, acompanhada somente por uma cadela prenha. Como quer rei, quer pastora não tinham muito que dizer, habituaram-se a estar sentados lado a lado sem dizer palavra, apreciando apenas o facto de não estarem sozinhos.
Numa das visitas do rei, este não viu a cadela em lado algum, e perguntou à pastora o que lhe tinha sucedido. “Sucedeu o que tinha de suceder, ó rei. À cadela nasceu-lhe a ninhada durante a noite, e sendo todos rafeiros, vão ser todos pastores e ajudar-me a guardar este rebanho.”
Matutou o rei nisto, que à pastora para ter uma matilha lhe bastava que a cadela tivesse cachorros, mas que para o rei ter uma matilha lhe era necessário ficar sem rainha durante meses.
Falando estes pensamentos à pastora, começou esta a gargalhar e a rebolar-se no chão de tanto riso!
“Que tontaria, ó rei! A minha matilha guarda vacas, ovelhas e cabras, e só aquelas que me compete vigiar. A tua matilha vai guardar pessoas, cães e sonhos. Os meus cães serão bons pastores, mas os teus terão de ser os melhores soldados de todos, ou não servirão para nada. Não vale sequer a pena comparar os nossos cães, ó rei, nem tal seria justo, pois os meus são cães de guarda e os teus são cães de guerra.”
Assim posto, percebeu o rei que realmente estava a ser tonto, e tanto alívio sentiu ao perceber que ainda era um homem como os outros, que pediu à pastora que lhe oferecesse um dos cachorros para o relembrar disso todos os dias.
“Pois sim, ó rei! Mas mas não esqueças, mesmo sendo da mesma matilha, o cão da pastora será tanto cão de guerra, como os cães da rainha serão cães de guarda.”
Ficou então combinado que quando o cachorro fosse desmamado, o rei o levaria para a sua matilha e que seria treinado para ser o cão de guarda do rei.
Passou o tempo e finalmente a rainha regressou com os cães e o matilheiro escolhidos. Muito se alegrou o rei, e tão feliz se sentiu que contou à rainha tudo o que tinha sucedido durante a sua ausência sem nada ocultar. Ora aconteceu, que quando a rainha escutou que o rei tinha pedido um cão à pastora para a sua matilha, ficou muito desgostosa, pois acreditou que o rei não confiava na sua sabedoria. E tão feliz estava o rei por ter a rainha novamente a seu lado que não viu a tristeza que lhe tinha provocado.
Observando os cachorros escolhidos pela rainha, muito o rei os gabou e muito louvou a rainha pelas suas capacidades, e colocando o cachorro da pastora junto aos cães da rainha, disse ao matilheiro, “Devem ser criados juntos como iguais que são, mas atenta que os cães da rainha são cães de guerra e vão defender pessoas, cães e sonhos, e que o cão da pastora é cão de guarda e vai defender vacas, ovelhas, cabras e reis tontos que se esqueceram que reis e pastoras são iguais porque são diferentes.”
O matilheiro não entendeu tudo o que o rei disse, mas entendeu que os cães da rainha iriam proteger o reino e que o cão da pastora iria guardar o rei, e que isso estava certo, pois uns eram cães de guerra e o outro era cão de guarda.
A rainha também não entendeu as palavras do rei, e infelizmente o que entendeu foi que o rei não acreditava nos cães da rainha para o defenderem, e isso escureceu o seu coração e fechou-lhe a mente ao raciocínio.
Entretanto, os cachorros não se preocuparam com nenhum destes assuntos e dedicaram-se a cheirarem-se entre si, a rosnarem-se entre si, a lutar entre si, a brincar entre si e a agasalharem-se entre si, pois os cães, mesmo quando ainda não passam de cachorros, sabem que um cão é um cão, quer seja cão de guerra, quer seja cão de guarda.
E por uns tempos tudo pareceu estar bem, o rei e a rainha reinavam, os senhores senhoreavam, o matilheiro matilhava, a pastora pastoreava e os cães cresciam e aprendiam.
Ora veio um dia em que os vigias deram o alerta de que inimigos se aproximavam do reino pelo sul, e sendo os cães do rei já crescidos e treinados mandou o rei que se preparassem para a guerra. Acontece que a rainha viu então uma oportunidade de se vingar das ofensas que acreditava que o rei lhe tinha feito. Disse então, “Meu esposo, não mandes já os cães de guerra, pois estes inimigos poderão não ser aqueles que foram profetizados. Manda em vez deles o teu cão de guarda, e ele será capaz de lidar com os teus inimigos normais. Mas se forem os inimigos profetizados, isso dará tempo para que os teus cães de guerra os destruam.”
De inicio estas palavras perturbaram o rei, mas os senhores da guerra concordaram que não colocar em perigo os defensores maiores do reino por causa de inimigos menores era uma boa ideia. E assim o rei ordenou o rei ao seu cão de guarda que fosse derrotar os inimigos que vinham pelo sul.
O cão de guarda foi, e muito lutou com os inimigos, mas por fim conseguiu derrota-los a todos e regressou ao rei. Vinha coberto de sangue e de ferimentos, mas satisfeito por ter protegido o rei e o reino. Quando assim o viu, logo o rei o quis louvar grandemente, mas a rainha, enraivecida com a vitória do cão da pastora, disse assim “Meu esposo, não te esqueças que ele é cão de guarda, e não será bom que se lhe louvem feitos de guerra.”
O rei pensou no assunto e, mesmo sentindo que não era certo, concordou que não seria certo louvar um cão de guarda por ter lutada na guerra, pelo que mandou apenas que lhe curassem os ferimentos e que regressasse para junto da matilha do rei. Ao ver a forma como o cão de guarda era recompensado, inquietaram-se os cães de guerra com a sorte dele e com a sua própria sorte, mas a rainha disse-lhes que não se inquietassem pois eles eram cães de guerra, e ele era cão de guarda.
Quem não gostou de ver isto foi o matilheiro, que começou a pensar que talvez o rei não soubesse ser justo. Mas nada disse e nada falou.
Vieram então os vigias e alertaram que outros inimigos vinham de leste e que era necessário defender o reino novamente. Novamente quis o rei enviar os cães de guerra, mas novamente falou a rainha, “Melhor é que vá o cão de guarda, pois já provou que sabe guardar o reino e assim poupa os cães de guerra para os inimigos da profecia.”
Novamente enviou o rei o cão de guarda para combater os inimigos do reino, desta vez a leste, e novamente o cão de guarda foi vitorioso. Regressando novamente ao rei, vinha coberto outra vez de sangue e ferimentos. Novamente o rei o quis louvar, mas a rainha repetiu, “Recorda que não é bom louvar os cães de guarda pelos seus feitos de guerra.”
E assim novamente foi enviado o cão de guarda de regresso à matilha sem qualquer recompensa. Mas desta vez o matilheiro queixou-se ao rei e a quem o quis ouvir acerca da maneira como o cão de guerra era tratado, mas a rainha convenceu o rei que as palavras do matilheiro não eram de importância. Contudo as gentes do reino começaram a pensar se o rei saberia reinar, mas nada disseram e nada falaram.
Novamente alertaram os vigias de inimigos que se aproximavam do reino, desta vez pelo oeste. Novamente quis o rei enviar os cães de guerra e novamente conseguiu a rainha convencer o rei a enviar o cão de guarda.
Mais um vez foi o cão de guarda vitorioso, e mais uma vez regressou ao rei coberto de sangue e de ferimentos, mas mais uma vez não obteve qualquer louvor por causa das palavras da rainha. Só que desta vez as gentes do reino começaram a dizer entre si que o rei não sabia reinar, e os senhores do reino ouviram as gentes e começaram a pensar.
Por fim, alertaram os vigias que inimigos vinham do norte. Vendo que o cão de guarda ainda não estava completamente recuperado da sua última batalha, quis o rei enviar os cães de guerra, mas disse a rainha, “Mais vale perder a vida o cão de guarda, do que pores em perigo aqueles que vão defender o reino do mal profetizado.” E assim foi que o cão de guarda foi enviado para a guerra uma quarta vez.
Mas dessa vez aconteceu que começou o mal da profecia a concretizar-se. O cão de guarda lutou e venceu, mas ao regressar coberto de sangue e ferimentos, não se apresentou ao rei e foi diretamente para a matilha, que o cercou e protegeu. Vendo isto, o rei muito se perturbou, mas a rainha disse “Meu esposo, vê a gratidão do cão da pastora para contigo. Tu lhe permitis-te que te protegesse, mas ele não demonstra o respeito que te é devido.” Inflamado por estas palavras, ordenou o rei que lhe trouxessem o cão de guarda para ser julgado por desrespeito à sua pessoa, e reuniram-se todos o senhores do reino para assistir ao julgamento.
Começando o julgamento, não permitiu o rei que mais ninguém falasse, e condenou o cão de guarda a ser expulso da matilha e do reino. Ao ouvir esta sentença muito se indignaram as gentes do reino pois sabiam que era injusta, mas o rei não as escutou. Os senhores do reino ao assistir a tudo isto, nada disseram ao rei, mas começaram a escolher entre si qual deles seria melhor como rei, pois deixaram de acreditar num rei que não praticava a justiça.
A rainha assistia a tudo isto com grande contentamento, pois acreditava que esta era uma boa punição para as ações do rei, mas não se apercebeu daquilo que tinha realmente feito.
A mulher sábia, que agora era louca, começou a chorar, pois ninguém se tinha apercebido que o mal que iria atacar o reino não teria de vir de fora, e que só todos juntos conseguiriam salvar o reino.
E assim foi que aos cães de guerra foi ordenado que enviassem o seu irmão cão de guarda para fora do reino e que o impedissem de regressar, mas quando chegaram à fronteira falaram entre si e decidiram acompanhar o cão de guarda no seu exílio e não regressar para junto de um rei tonto e cego de vaidade. Disseram então aos vigias da fronteira, “Diz ao rei deste reino, que já não somos a sua matilha. Um cão de guarda, guarda, um cão de guerra, guerreia. Ele ordenou que o cão de guarda guerreasse e que os cães de guerra guardassem, e por suas próprias ações provou não saber como reinar. Não regressaremos jamais a este reino, vamos sim juntar-nos às alcateias da nossa Mãe Loba e lá ficaremos em paz.”
Quando isto foi comunicado ao rei, grande alvoroço criou no reino, pois as gentes não queriam que ele continuasse como rei, mas os senhores ainda não tinham escolhido qual de entre eles seria o novo rei.
Quando estas novidades chegaram à pastora, logo ela se apressou para falar com o rei, apesar de já ser tarde de mais, mas ainda assim o rei a escutou.
“Ó rei, que fizeste tu? Esqueceste que um cão de guarda não serve como cão de guerra? Quem te disse a ti para cometeres tão grande disparate?”
Ao ouvir estas palavras, muito a rainha se ofendeu e replicou “Mais sabe um rei que uma pastora acerca de quem enviar para a guerra!”
E finalmente, ao ouvir a forma como a rainha falava com a pastora, percebeu o rei de quão graves e erradas tinham sido as suas decisões e quis emendar os seus erros. Mas era tarde de mais.
Os senhores do reino, incapazes de escolher um novo rei que a todos agradasse começaram a lutar entre si e nas suas lutas destruíram o reino e mataram as suas gentes, e tão ferozes eram uns para os outros que nenhum venceu e todos perderam, pois os demónios e aventesmas que cercavam o reino aproveitaram-se deste estado de coisas e invadiram o reino e destruíram tudo o que podiam.
A toda esta loucura ninguém escapou com vida, exceto o rei. Nem rainha, nem matilheiro, nem pastora, nem mulher sábia, ninguém escapou ao mal profetizado. Apenas o rei ficou, mas só porque o seu castigo pelo que tinha feito ainda não havia terminado. O rei ficou sozinho nas ruínas do reino, sem ninguém para lhe fazer companhia, com exceção de memórias e arrependimentos.
Por fim, após muitas estações sem ver vivalma, apareceu à frente do rei a Mãe Loba e a matilha que tinha sido do rei.
Falou então a Mãe Loba, “Ó homem arrogante e tonto! Que fizeste tu aos teus com as tuas vaidades e a tua falta de tino. Contudo ainda não terminou o teu castigo por teres traído as tuas gentes com as tuas más decisões. Não morrerás enquanto neste mundo existirem homens como tu, e todos os dias relembrarás os teus erros e os dos outros como tu. E se acreditas que este castigo é excessivo, recorda que a quem muito é dado, muito é exigido. Estes que teriam sido os teus protetores e aliados, serão agora os teus carcereiros, para que não possas espalhar a tua tontice ainda mais pelo mundo. Eles estão aqui como teus vigias e não te farão companhia ou sequer aliviarão a tua solidão. Este será o teu castigo completo e só a vontade do Pai de Todos te poderá aliviar a pena.”
E assim foi durante muito tempo, mas diz-se que certo dia, após muita solidão e sofrimento, o primeiro lobisomem conseguiu falar com o rei tonto e que este lhe contou a sua história e lhe fez entender o porquê do castigo que sofria. O primeiro lobisomem ganhou então humildade e perdão tornando-se muito grande em justiça e pensamento, e por isto o Pai de Todos recompensou o rei tonto libertando-o do seu castigo e permitindo-lhe que morresse. Diz-se ainda que de cada vez que o rei tonto regressa ao mundo, a matilha volta a acompanha-lo para o proteger, e que a cada regresso do rei este deve salvar tantos dos seus antigos súbditos quantos conseguir, mas que a rainha não poderá ser salva pois ainda não perdoou ao rei por algo que este não fez.
Uma dessas tradições era que somente os cães podiam combater os demónios e os fantasmas tenebrosos que por força queriam invadir esse país, e por isso todos os senhores da guerra que lá viviam tinham grandes matilhas que empregavam na caça a esses seres malignos.
Outra tradição que lá havia, era a que o rei não podia ter matilha nenhuma que fosse mesmo dele, pois dizia-se que os cães do rei seriam igualmente reis de todos os outros cães, e isso não era considerado uma coisa boa, porque se assim fosse o rei poderia impedir que os cães do reino de combater contra os demónios e as aventesmas.
Aconteceu um dia que, estando o rei e todos os senhores reunidos a festejar as colheitas, uma mulher sábia implorou que o rei escutasse uma profecia que ela tinha profetizado. De inicio, o rei não a quis escutar, mas a mulher sábia tanto chorou e implorou, que finalmente o rei aceitou ouvi-la.
“Sabe agora ó rei,” disse a mulher “ que tão grave é o que irás escutar, que perderei a mente só por to dizer! Por isso aprende aquilo que te vai ser dito, pois nem eu, nem qualquer outro que conheça o futuro voltará a falar claro.”
Ao ouvir isto, o rei e os senhores ficaram muito sobressaltados, mas como eram corajosos e ponderados, mantiveram-se em silencio e abriram ouvidos e mente para aprenderem o que cada um conseguisse.
“Sabe, ó rei, que um grande mal se dirige contra este reino. Sabe mais, ó rei, que só todas as alcateias juntas poderão derrotar e afastar esse mal. Sabe ainda isto, ó rei, que só a matilha do rei consegue juntar todas as outras. E por sabe ainda isto, ó rei, um cão de guerra aprende a lutar e aprende a parar, mas um cão de guarda luta até à morte e para além dela pelo senhor que o mereça, e que esse mesmo cão de guarda luta até à morte e para além dela do senhor que não o mereça.”
Tudo isto muito surpreendeu o rei e os senhores do reino, mas a única coisa que os confundiu foi o bocado sobre os cães de guarda, pois todos os habitantes daquele reino, do mais velho ao mais novo e do mais rico ao mais pobre, sabiam que os cães de guarda nunca deviam ser traídos pelos seus senhores, sob pena de grandes e pavorosas maldições recaírem sobre os traidores e todos aqueles que os rodeassem.
Ao ver que o rei não tinha aprendido tudo aquilo de que necessitaria, a mulher sábia começou a chorar e só conseguiu dizer mais isto, “Um cão é um cão, um homem é um homem, um soldado é um soldado, um assassino é um assassino. Se o teu cão não é um soldado, não deixa de ser teu cão. Se o teu cão sabe que deve guardar os teus passos, não o afastes de ti, nem o mandes para a guerra, pois quando ele regressar já não será o teu cão, mas o teu assassino.”
Depois de ensinar isto a mulher calou-se e nada mais disse. Contudo o rei e os senhores não conseguiram perceber se a última coisa dita pela mulher sábia era ensinamento ou loucura, pelo que se recolheram a si mesmos para pensar em tudo aquilo que tinham sido capazes de aprender.
No dia seguinte, reuniram-se novamente o rei e os senhores e começaram a discutir e a debater entre si o que significariam as palavras da mulher sábia, e das suas discussões e debates concluíram as seguintes coisas, primeiro, que estavam em perigo. Segundo, que esse perigo não era imediato, porque se assim fosse já os espiões e vigias os teriam alertado. Terceiro, que o rei necessitaria de uma matilha que fosse mesmo dele, e que essa matilha deveria ser unicamente de cães de guerra, pois para nenhum outro fim necessitaria o rei de uma matilha. Concluindo todas estas coisas, ficaram muito agradados em si mesmos, pois lhes pareceu que haviam interpretado corretamente todos os avisos da mulher sábia.
Começaram então os senhores da guerra a gabarolar entre si as respetivas matilhas e de qual delas viriam os cães do rei. A rainha que até então havia reservado para si mesma as suas opiniões, decidiu intervir.
“Esposo, como sabes, antes de ser rainha era senhora da guerra, filha de um senhor da guerra e neta de senhores da guerra. Sempre a minha família lutou por este reino contra os males que nos tentam invadir, e nunca os nossos cães falharam como guerreiros e lutadores. Se mo permitires, escolherei por ti os cães certos para a tua matilha e o matilheiro certo para os ensinar.”
Quer o rei quer os senhores ficaram muito agradados com a solução da rainha, o rei porque sabia que a rainha era mais conhecedora de cães, matilhas e matilheiros do ele, e os senhores porque desta forma o rei não seria desviado dos seus atuais deveres de rei.
A única dificuldade para o rei era que, para a rainha poder escolher os cães certos, teria de visitar todas as matilhas de todos os senhores, e isso significava que ele não veria a rainha durante muito tempo, pois ele não podia parar de reinar para acompanhar a rainha na sua tarefa.
“Não temais, meu esposo,” disse a rainha “pois o tempo apenas parece longo. Na verdade, só decorrerá uma estação sem que estejamos juntos, e uma estação é um pequeno sacrifício para evitar o mal que ai vem.”
O rei entendia que assim devia e por isso não dificultou a partida da rainha, mas entristeceu-se sem a sua presença e começou a caminhar sozinho pelos campos, para que as gentes do reino não o vissem e igualmente se entristecessem.
Certo dia, o rei encontrou uma pastora que pastoreava vacas, ovelhas e cabras, acompanhada somente por uma cadela prenha. Como quer rei, quer pastora não tinham muito que dizer, habituaram-se a estar sentados lado a lado sem dizer palavra, apreciando apenas o facto de não estarem sozinhos.
Numa das visitas do rei, este não viu a cadela em lado algum, e perguntou à pastora o que lhe tinha sucedido. “Sucedeu o que tinha de suceder, ó rei. À cadela nasceu-lhe a ninhada durante a noite, e sendo todos rafeiros, vão ser todos pastores e ajudar-me a guardar este rebanho.”
Matutou o rei nisto, que à pastora para ter uma matilha lhe bastava que a cadela tivesse cachorros, mas que para o rei ter uma matilha lhe era necessário ficar sem rainha durante meses.
Falando estes pensamentos à pastora, começou esta a gargalhar e a rebolar-se no chão de tanto riso!
“Que tontaria, ó rei! A minha matilha guarda vacas, ovelhas e cabras, e só aquelas que me compete vigiar. A tua matilha vai guardar pessoas, cães e sonhos. Os meus cães serão bons pastores, mas os teus terão de ser os melhores soldados de todos, ou não servirão para nada. Não vale sequer a pena comparar os nossos cães, ó rei, nem tal seria justo, pois os meus são cães de guarda e os teus são cães de guerra.”
Assim posto, percebeu o rei que realmente estava a ser tonto, e tanto alívio sentiu ao perceber que ainda era um homem como os outros, que pediu à pastora que lhe oferecesse um dos cachorros para o relembrar disso todos os dias.
“Pois sim, ó rei! Mas mas não esqueças, mesmo sendo da mesma matilha, o cão da pastora será tanto cão de guerra, como os cães da rainha serão cães de guarda.”
Ficou então combinado que quando o cachorro fosse desmamado, o rei o levaria para a sua matilha e que seria treinado para ser o cão de guarda do rei.
Passou o tempo e finalmente a rainha regressou com os cães e o matilheiro escolhidos. Muito se alegrou o rei, e tão feliz se sentiu que contou à rainha tudo o que tinha sucedido durante a sua ausência sem nada ocultar. Ora aconteceu, que quando a rainha escutou que o rei tinha pedido um cão à pastora para a sua matilha, ficou muito desgostosa, pois acreditou que o rei não confiava na sua sabedoria. E tão feliz estava o rei por ter a rainha novamente a seu lado que não viu a tristeza que lhe tinha provocado.
Observando os cachorros escolhidos pela rainha, muito o rei os gabou e muito louvou a rainha pelas suas capacidades, e colocando o cachorro da pastora junto aos cães da rainha, disse ao matilheiro, “Devem ser criados juntos como iguais que são, mas atenta que os cães da rainha são cães de guerra e vão defender pessoas, cães e sonhos, e que o cão da pastora é cão de guarda e vai defender vacas, ovelhas, cabras e reis tontos que se esqueceram que reis e pastoras são iguais porque são diferentes.”
O matilheiro não entendeu tudo o que o rei disse, mas entendeu que os cães da rainha iriam proteger o reino e que o cão da pastora iria guardar o rei, e que isso estava certo, pois uns eram cães de guerra e o outro era cão de guarda.
A rainha também não entendeu as palavras do rei, e infelizmente o que entendeu foi que o rei não acreditava nos cães da rainha para o defenderem, e isso escureceu o seu coração e fechou-lhe a mente ao raciocínio.
Entretanto, os cachorros não se preocuparam com nenhum destes assuntos e dedicaram-se a cheirarem-se entre si, a rosnarem-se entre si, a lutar entre si, a brincar entre si e a agasalharem-se entre si, pois os cães, mesmo quando ainda não passam de cachorros, sabem que um cão é um cão, quer seja cão de guerra, quer seja cão de guarda.
E por uns tempos tudo pareceu estar bem, o rei e a rainha reinavam, os senhores senhoreavam, o matilheiro matilhava, a pastora pastoreava e os cães cresciam e aprendiam.
Ora veio um dia em que os vigias deram o alerta de que inimigos se aproximavam do reino pelo sul, e sendo os cães do rei já crescidos e treinados mandou o rei que se preparassem para a guerra. Acontece que a rainha viu então uma oportunidade de se vingar das ofensas que acreditava que o rei lhe tinha feito. Disse então, “Meu esposo, não mandes já os cães de guerra, pois estes inimigos poderão não ser aqueles que foram profetizados. Manda em vez deles o teu cão de guarda, e ele será capaz de lidar com os teus inimigos normais. Mas se forem os inimigos profetizados, isso dará tempo para que os teus cães de guerra os destruam.”
De inicio estas palavras perturbaram o rei, mas os senhores da guerra concordaram que não colocar em perigo os defensores maiores do reino por causa de inimigos menores era uma boa ideia. E assim o rei ordenou o rei ao seu cão de guarda que fosse derrotar os inimigos que vinham pelo sul.
O cão de guarda foi, e muito lutou com os inimigos, mas por fim conseguiu derrota-los a todos e regressou ao rei. Vinha coberto de sangue e de ferimentos, mas satisfeito por ter protegido o rei e o reino. Quando assim o viu, logo o rei o quis louvar grandemente, mas a rainha, enraivecida com a vitória do cão da pastora, disse assim “Meu esposo, não te esqueças que ele é cão de guarda, e não será bom que se lhe louvem feitos de guerra.”
O rei pensou no assunto e, mesmo sentindo que não era certo, concordou que não seria certo louvar um cão de guarda por ter lutada na guerra, pelo que mandou apenas que lhe curassem os ferimentos e que regressasse para junto da matilha do rei. Ao ver a forma como o cão de guarda era recompensado, inquietaram-se os cães de guerra com a sorte dele e com a sua própria sorte, mas a rainha disse-lhes que não se inquietassem pois eles eram cães de guerra, e ele era cão de guarda.
Quem não gostou de ver isto foi o matilheiro, que começou a pensar que talvez o rei não soubesse ser justo. Mas nada disse e nada falou.
Vieram então os vigias e alertaram que outros inimigos vinham de leste e que era necessário defender o reino novamente. Novamente quis o rei enviar os cães de guerra, mas novamente falou a rainha, “Melhor é que vá o cão de guarda, pois já provou que sabe guardar o reino e assim poupa os cães de guerra para os inimigos da profecia.”
Novamente enviou o rei o cão de guarda para combater os inimigos do reino, desta vez a leste, e novamente o cão de guarda foi vitorioso. Regressando novamente ao rei, vinha coberto outra vez de sangue e ferimentos. Novamente o rei o quis louvar, mas a rainha repetiu, “Recorda que não é bom louvar os cães de guarda pelos seus feitos de guerra.”
E assim novamente foi enviado o cão de guarda de regresso à matilha sem qualquer recompensa. Mas desta vez o matilheiro queixou-se ao rei e a quem o quis ouvir acerca da maneira como o cão de guerra era tratado, mas a rainha convenceu o rei que as palavras do matilheiro não eram de importância. Contudo as gentes do reino começaram a pensar se o rei saberia reinar, mas nada disseram e nada falaram.
Novamente alertaram os vigias de inimigos que se aproximavam do reino, desta vez pelo oeste. Novamente quis o rei enviar os cães de guerra e novamente conseguiu a rainha convencer o rei a enviar o cão de guarda.
Mais um vez foi o cão de guarda vitorioso, e mais uma vez regressou ao rei coberto de sangue e de ferimentos, mas mais uma vez não obteve qualquer louvor por causa das palavras da rainha. Só que desta vez as gentes do reino começaram a dizer entre si que o rei não sabia reinar, e os senhores do reino ouviram as gentes e começaram a pensar.
Por fim, alertaram os vigias que inimigos vinham do norte. Vendo que o cão de guarda ainda não estava completamente recuperado da sua última batalha, quis o rei enviar os cães de guerra, mas disse a rainha, “Mais vale perder a vida o cão de guarda, do que pores em perigo aqueles que vão defender o reino do mal profetizado.” E assim foi que o cão de guarda foi enviado para a guerra uma quarta vez.
Mas dessa vez aconteceu que começou o mal da profecia a concretizar-se. O cão de guarda lutou e venceu, mas ao regressar coberto de sangue e ferimentos, não se apresentou ao rei e foi diretamente para a matilha, que o cercou e protegeu. Vendo isto, o rei muito se perturbou, mas a rainha disse “Meu esposo, vê a gratidão do cão da pastora para contigo. Tu lhe permitis-te que te protegesse, mas ele não demonstra o respeito que te é devido.” Inflamado por estas palavras, ordenou o rei que lhe trouxessem o cão de guarda para ser julgado por desrespeito à sua pessoa, e reuniram-se todos o senhores do reino para assistir ao julgamento.
Começando o julgamento, não permitiu o rei que mais ninguém falasse, e condenou o cão de guarda a ser expulso da matilha e do reino. Ao ouvir esta sentença muito se indignaram as gentes do reino pois sabiam que era injusta, mas o rei não as escutou. Os senhores do reino ao assistir a tudo isto, nada disseram ao rei, mas começaram a escolher entre si qual deles seria melhor como rei, pois deixaram de acreditar num rei que não praticava a justiça.
A rainha assistia a tudo isto com grande contentamento, pois acreditava que esta era uma boa punição para as ações do rei, mas não se apercebeu daquilo que tinha realmente feito.
A mulher sábia, que agora era louca, começou a chorar, pois ninguém se tinha apercebido que o mal que iria atacar o reino não teria de vir de fora, e que só todos juntos conseguiriam salvar o reino.
E assim foi que aos cães de guerra foi ordenado que enviassem o seu irmão cão de guarda para fora do reino e que o impedissem de regressar, mas quando chegaram à fronteira falaram entre si e decidiram acompanhar o cão de guarda no seu exílio e não regressar para junto de um rei tonto e cego de vaidade. Disseram então aos vigias da fronteira, “Diz ao rei deste reino, que já não somos a sua matilha. Um cão de guarda, guarda, um cão de guerra, guerreia. Ele ordenou que o cão de guarda guerreasse e que os cães de guerra guardassem, e por suas próprias ações provou não saber como reinar. Não regressaremos jamais a este reino, vamos sim juntar-nos às alcateias da nossa Mãe Loba e lá ficaremos em paz.”
Quando isto foi comunicado ao rei, grande alvoroço criou no reino, pois as gentes não queriam que ele continuasse como rei, mas os senhores ainda não tinham escolhido qual de entre eles seria o novo rei.
Quando estas novidades chegaram à pastora, logo ela se apressou para falar com o rei, apesar de já ser tarde de mais, mas ainda assim o rei a escutou.
“Ó rei, que fizeste tu? Esqueceste que um cão de guarda não serve como cão de guerra? Quem te disse a ti para cometeres tão grande disparate?”
Ao ouvir estas palavras, muito a rainha se ofendeu e replicou “Mais sabe um rei que uma pastora acerca de quem enviar para a guerra!”
E finalmente, ao ouvir a forma como a rainha falava com a pastora, percebeu o rei de quão graves e erradas tinham sido as suas decisões e quis emendar os seus erros. Mas era tarde de mais.
Os senhores do reino, incapazes de escolher um novo rei que a todos agradasse começaram a lutar entre si e nas suas lutas destruíram o reino e mataram as suas gentes, e tão ferozes eram uns para os outros que nenhum venceu e todos perderam, pois os demónios e aventesmas que cercavam o reino aproveitaram-se deste estado de coisas e invadiram o reino e destruíram tudo o que podiam.
A toda esta loucura ninguém escapou com vida, exceto o rei. Nem rainha, nem matilheiro, nem pastora, nem mulher sábia, ninguém escapou ao mal profetizado. Apenas o rei ficou, mas só porque o seu castigo pelo que tinha feito ainda não havia terminado. O rei ficou sozinho nas ruínas do reino, sem ninguém para lhe fazer companhia, com exceção de memórias e arrependimentos.
Por fim, após muitas estações sem ver vivalma, apareceu à frente do rei a Mãe Loba e a matilha que tinha sido do rei.
Falou então a Mãe Loba, “Ó homem arrogante e tonto! Que fizeste tu aos teus com as tuas vaidades e a tua falta de tino. Contudo ainda não terminou o teu castigo por teres traído as tuas gentes com as tuas más decisões. Não morrerás enquanto neste mundo existirem homens como tu, e todos os dias relembrarás os teus erros e os dos outros como tu. E se acreditas que este castigo é excessivo, recorda que a quem muito é dado, muito é exigido. Estes que teriam sido os teus protetores e aliados, serão agora os teus carcereiros, para que não possas espalhar a tua tontice ainda mais pelo mundo. Eles estão aqui como teus vigias e não te farão companhia ou sequer aliviarão a tua solidão. Este será o teu castigo completo e só a vontade do Pai de Todos te poderá aliviar a pena.”
E assim foi durante muito tempo, mas diz-se que certo dia, após muita solidão e sofrimento, o primeiro lobisomem conseguiu falar com o rei tonto e que este lhe contou a sua história e lhe fez entender o porquê do castigo que sofria. O primeiro lobisomem ganhou então humildade e perdão tornando-se muito grande em justiça e pensamento, e por isto o Pai de Todos recompensou o rei tonto libertando-o do seu castigo e permitindo-lhe que morresse. Diz-se ainda que de cada vez que o rei tonto regressa ao mundo, a matilha volta a acompanha-lo para o proteger, e que a cada regresso do rei este deve salvar tantos dos seus antigos súbditos quantos conseguir, mas que a rainha não poderá ser salva pois ainda não perdoou ao rei por algo que este não fez.
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