domingo, 2 de fevereiro de 2014

Contos Tradicionais dos Lobisomens: A Criação dos Machos

Quando o Pai de Tudo começou a criar os seres que nascem, crescem, vivem e morrem, só criou fêmeas, pois para estas terem descendência, bastava-lhes que chegasse o momento certo para a terem, e somente então ficariam as fêmeas prenhas de nova vida. E durante muito tempo foram os seres felizes com este modo das coisas.
Acontece que um dia, ao olhar para as suas filhas, o Pai entristeceu-se grandemente, pois as filhas eram cópias das mães e nada faziam de diferente das suas mães. Então o Pai de Tudo recolheu-se em pensamento e meditou em como tornar aquelas filhas que tanto amava em filhas que o amassem de verdade em vez de somente o amarem por assim lhes ser dito. Pensou, pensou, pensou ainda mais, e finalmente decidiu criar o homem, para que lhes servisse de bom e mau exemplo, e assim seriam as suas filhas levadas a pensar por si próprias.
E assim foi criado o homem, incapaz de ver tudo o que existisse, para que cometesse erros; inteligente, para perceber o que o rodeava, quer o visse ou não; curioso, para querer aprender mais e mais; misericordioso ao ponto de destruir; cruel ao ponto de criar. Por fim, tornou-o capaz do bem e do mal, para que pudesse pensar por si mesmo.
E desta forma foi o homem criado, mas era tão perigoso para si e para as suas irmãs, que o Pai decidiu que haveria de ser macho, para que não pudesse nele ser gerada nova vida, e desta forma seriam as suas ações controladas.
Foi então o homem largado no mundo e desde logo começou a diferenciar entre as suas irmãs, que até então eram todas iguais entre si aos seus próprios olhos, mesmo sendo de formas diferentes. A umas chamou o homem de belas e as louvou, a outras de feias e as recusou. A umas chamou de úteis e delas se aproveitou, a outras chamou de inúteis e as ignorou. A umas chamou amigas e as corrompeu e a outras chamou inimigas e as destruiu.
Grande foi o tumulto gerado no mundo devido às ações do homem, e muito sofreram as filhas do Pai às mãos de seu irmão, mas o Pai de Tudo manteve-se em silencio para ver se as suas filhas cresciam. Mas elas continuavam a ser iguais às suas mães.
Aconteceu então, que um dia o homem começou a interrogar-se acerca das suas ações e opinou para si mesmo que nada do que fazia tinha sentido. Então parou de andar, de fazer e de falar, e apenas ficou a ver e a ouvir o que o rodeava, e enquanto assim fez pareceu que voltou a paz ao mundo.
Um dia, estando sozinho e a observar uma loba, viu algo de extraordinário. Viu essa loba a dar à luz uma ninhada de lobinhas. Surpreendido, aproximou-se da loba e perguntou-lhe acerca do que se tinha passado e de onde vinham as lobinhas que acabavam de nascer.
“Vêm do Pai de Tudo. Assim é para todos os seres que nascem, crescem, vivem e morrem.”
Olhando em volta, reparou então o homem que havia muitas filhas de todas as espécies, mas que ele era único e que, sendo macho, não podia gerar vida dentro de si. Percebendo que estava só, muito se entristeceu e fugiu para lugares desolados e secretos para chorar sem ser visto.
Foi então que o Pai de Tudo se moveu, pois de todas as suas criações, o homem era o único que podia desobedecer aos seus pedidos, e ao Pai repugnava impor a sua vontade àqueles que tinha criado. Então para resolver a situação, o Pai de Tudo foi falar com aquela loba que tinha respondido às perguntas do homem, e contou-lhe o porquê da criação do homem e de quão era necessário era que este continuasse a desafiar as suas irmãs ao crescimento.
Perguntou a loba ao Pai de Tudo, porque não falava este diretamente ao homem, mas o Pai respondeu que o homem era incapaz de o ver, para que quando as suas irmãs lhe descrevessem o Pai, tivessem que pensar naquilo que viam.
Meditou nisto a loba, mas concluiu que nada disto a impedia de falar com o homem e de lhe pedir que voltasse a desempenhar as suas tarefas. E assim fez a loba e começou a procurar o homem para com ele falar.
Ora como já foi dito, o homem tinha-se escondido onde ninguém o visse chorar, e por isso igualmente ninguém sabia onde ele estava, pelo que a loba teve de correr o mundo inteiro à sua procura. De caminho perguntava a cada uma das suas irmãs com que se cruzava se tinha visto o homem, e por sua vez relatava tudo aquilo que o Pai de Tudo lhe tinha dito acerca do homem. Ao ouvir a história da loba, algumas decidiram ajuda-la a achar o homem e outras consideraram que a paz em que viviam era melhor que os desejos do Pai e não a ajudaram. Mas sem a loba saber, nem todas as irmãs que a ajudavam queriam que o homem voltasse, e só a seguiam para matar o homem assim que pudessem .
Finalmente, após percorrer o mundo inteiro e depois de falar com todas as suas irmãs, só sobrava um sítio desolado e secreto que ainda não tinha sido visto pela loba. E foi assim que o homem foi descoberto no sítio onde se tinha escondido.
Então falou a loba ao homem, e disse-lhe o quão era necessário que desafiasse as suas irmãs, mas o homem disse que não.
“Não quero estar sozinho! Quero outros como eu para me fazerem companhia.”
As irmãs que o escutavam sofreram muito com a sua solidão e reunindo-se, discutiram entre si como fazer para que o homem pudesse gerar uma ninhada sendo macho. Contudo, como não sabiam o que era um macho ou uma fêmea e de que forma eram diferentes, não conseguiram concluir coisa nenhuma. Então nomearam a loba como enviada e pediram-lhe que falasse com o Pai de Tudo, para que este ajudasse o homem a ter companheiros iguais a si.
A loba simplesmente chamou o Pai e lhe relatou o que tinha sucedido e pediu-lhe que o homem gerasse uma ninhada de outros homens para finalmente ter companhia. Ao ouvir isto o Pai de Tudo ficou em silencio, pois se por um lado o homem estava a cumprir com a tarefa para com a qual tinha sido criado ao levar as suas irmãs a pensar em coisas em que nunca o tinham feito, por outro, aceder ao pedido das suas filhas levaria a que o mundo tivesse de ser refeito no seu todo.
Ora, enquanto o Pai de Tudo meditava em como aceder ao pedido das suas filhas, sucedeu que algumas delas decidiram que era o momento de matar o homem, para que este não pudesse continuar a criar tumultos no mundo e então atacaram-no e quase o conseguiram matar, mas antes que o conseguissem fazer, a loba e as outras irmãs que aguardavam a decisão do Pai, lutaram contra elas e conseguiram que o homem não morresse de imediato, mas este tinha ficado gravemente ferido e não iria viver muito mais tempo.
Ao ver tudo isto o Pai de Tudo muito sofreu pelas suas filhas, pois ao querer que estas crescessem não as podia impedir de crescer para o mal. Então adormeceu todos o seres do mundo com exceção da loba e do homem.
Então falou à loba. “A Vida e a Morte pertencem-me a mim e não a vós minhas filhas. Como punição por terem tentado matar o homem não poderão mais gerar vida sozinhas. Como recompensa por se terem detido a vós próprias, criarei machos para serem vossos companheiros e dividirei a capacidade de gerar vida entre a fêmea e o macho. Mas sabe isto, cuidar da vida gerada cabe a todos, fêmeas e machos. Aquele que se recusar a proteger irmã ou irmão, será entregue ao homem, e este o destruirá.”
Voltou-se então para o homem e falou-lhe. “Recusaste o meu pedido e fugiste para chorar lágrimas inúteis. Tivesses-me contado o teu sofrimento e eu to aliviaria. Assim, serás castigado com fragilidade no corpo, na mente e no espírito, e todas as tuas ações deixaram de ser tuas. Contudo, a tua solidão escurece-te, pelo que criarei para ti uma fêmea, que chamarás de mulher, e ela será forte onde tu fores fraco, e fraca onde tu fores forte, e nada farás que perdure sem estejam ambos a trabalhar em conjunto. Mas isto te ofereço, pois se assim agiste foi porque assim foste por mim criado. Permitirei que o amor verdadeiro habite em ti, e se dois da tua espécie se amarem com amor verdadeiro, serão a meus olhos como macho e fêmea, e serão capazes de cumprir com as suas missões, mesmo que não sejam capazes de gerar vida.”
Terminando de falar o Pai de Tudo adormeceu a loba e homem. Então refez o homem da maneira que decretara e para cada fêmea criou um macho e para o homem criou a mulher. Tendo terminado recolheu-se em silencio e aguardou que as suas filhas e os seus filhos acordassem e se reconhecessem entre si.
E assim foi que quando as filhas e os filhos do Pai de Tudo acordaram do seu sono se reconheceram entre si e começaram a aprender como deveriam ser um para com os outros. A loba explicou a quem a quis ouvir aquilo que o Pai de Tudo tinha determinado, mas uns não a quiseram ouvir, outros não a entenderam e somente uns poucos a escutaram com atenção. Desses que a escutaram com atenção faziam parte o homem e a mulher, mas devido ao decreto do Pai de Tudo em relação ao homem, aconteceu que rapidamente a sua descendência esqueceu como devia agir, e o dom que era o amor verdadeiro, e criaram para eles próprios regras que por vezes chegavam ao ponto de negar a vontade do Pai.
E assim foram criados os machos, e assim começou a rodar o mundo. Quem me escuta que me ouça.

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