Quando o Pai de Tudo começou a criar os seres que nascem, crescem, vivem e morrem, só criou fêmeas, pois para estas terem descendência, bastava-lhes que chegasse o momento certo para a terem, e somente então ficariam as fêmeas prenhas de nova vida. E durante muito tempo foram os seres felizes com este modo das coisas.
Acontece que um dia, ao olhar para as suas filhas, o Pai entristeceu-se grandemente, pois as filhas eram cópias das mães e nada faziam de diferente das suas mães. Então o Pai de Tudo recolheu-se em pensamento e meditou em como tornar aquelas filhas que tanto amava em filhas que o amassem de verdade em vez de somente o amarem por assim lhes ser dito. Pensou, pensou, pensou ainda mais, e finalmente decidiu criar o homem, para que lhes servisse de bom e mau exemplo, e assim seriam as suas filhas levadas a pensar por si próprias.
E assim foi criado o homem, incapaz de ver tudo o que existisse, para que cometesse erros; inteligente, para perceber o que o rodeava, quer o visse ou não; curioso, para querer aprender mais e mais; misericordioso ao ponto de destruir; cruel ao ponto de criar. Por fim, tornou-o capaz do bem e do mal, para que pudesse pensar por si mesmo.
E desta forma foi o homem criado, mas era tão perigoso para si e para as suas irmãs, que o Pai decidiu que haveria de ser macho, para que não pudesse nele ser gerada nova vida, e desta forma seriam as suas ações controladas.
Foi então o homem largado no mundo e desde logo começou a diferenciar entre as suas irmãs, que até então eram todas iguais entre si aos seus próprios olhos, mesmo sendo de formas diferentes. A umas chamou o homem de belas e as louvou, a outras de feias e as recusou. A umas chamou de úteis e delas se aproveitou, a outras chamou de inúteis e as ignorou. A umas chamou amigas e as corrompeu e a outras chamou inimigas e as destruiu.
Grande foi o tumulto gerado no mundo devido às ações do homem, e muito sofreram as filhas do Pai às mãos de seu irmão, mas o Pai de Tudo manteve-se em silencio para ver se as suas filhas cresciam. Mas elas continuavam a ser iguais às suas mães.
Aconteceu então, que um dia o homem começou a interrogar-se acerca das suas ações e opinou para si mesmo que nada do que fazia tinha sentido. Então parou de andar, de fazer e de falar, e apenas ficou a ver e a ouvir o que o rodeava, e enquanto assim fez pareceu que voltou a paz ao mundo.
Um dia, estando sozinho e a observar uma loba, viu algo de extraordinário. Viu essa loba a dar à luz uma ninhada de lobinhas. Surpreendido, aproximou-se da loba e perguntou-lhe acerca do que se tinha passado e de onde vinham as lobinhas que acabavam de nascer.
“Vêm do Pai de Tudo. Assim é para todos os seres que nascem, crescem, vivem e morrem.”
Olhando em volta, reparou então o homem que havia muitas filhas de todas as espécies, mas que ele era único e que, sendo macho, não podia gerar vida dentro de si. Percebendo que estava só, muito se entristeceu e fugiu para lugares desolados e secretos para chorar sem ser visto.
Foi então que o Pai de Tudo se moveu, pois de todas as suas criações, o homem era o único que podia desobedecer aos seus pedidos, e ao Pai repugnava impor a sua vontade àqueles que tinha criado. Então para resolver a situação, o Pai de Tudo foi falar com aquela loba que tinha respondido às perguntas do homem, e contou-lhe o porquê da criação do homem e de quão era necessário era que este continuasse a desafiar as suas irmãs ao crescimento.
Perguntou a loba ao Pai de Tudo, porque não falava este diretamente ao homem, mas o Pai respondeu que o homem era incapaz de o ver, para que quando as suas irmãs lhe descrevessem o Pai, tivessem que pensar naquilo que viam.
Meditou nisto a loba, mas concluiu que nada disto a impedia de falar com o homem e de lhe pedir que voltasse a desempenhar as suas tarefas. E assim fez a loba e começou a procurar o homem para com ele falar.
Ora como já foi dito, o homem tinha-se escondido onde ninguém o visse chorar, e por isso igualmente ninguém sabia onde ele estava, pelo que a loba teve de correr o mundo inteiro à sua procura. De caminho perguntava a cada uma das suas irmãs com que se cruzava se tinha visto o homem, e por sua vez relatava tudo aquilo que o Pai de Tudo lhe tinha dito acerca do homem. Ao ouvir a história da loba, algumas decidiram ajuda-la a achar o homem e outras consideraram que a paz em que viviam era melhor que os desejos do Pai e não a ajudaram. Mas sem a loba saber, nem todas as irmãs que a ajudavam queriam que o homem voltasse, e só a seguiam para matar o homem assim que pudessem .
Finalmente, após percorrer o mundo inteiro e depois de falar com todas as suas irmãs, só sobrava um sítio desolado e secreto que ainda não tinha sido visto pela loba. E foi assim que o homem foi descoberto no sítio onde se tinha escondido.
Então falou a loba ao homem, e disse-lhe o quão era necessário que desafiasse as suas irmãs, mas o homem disse que não.
“Não quero estar sozinho! Quero outros como eu para me fazerem companhia.”
As irmãs que o escutavam sofreram muito com a sua solidão e reunindo-se, discutiram entre si como fazer para que o homem pudesse gerar uma ninhada sendo macho. Contudo, como não sabiam o que era um macho ou uma fêmea e de que forma eram diferentes, não conseguiram concluir coisa nenhuma. Então nomearam a loba como enviada e pediram-lhe que falasse com o Pai de Tudo, para que este ajudasse o homem a ter companheiros iguais a si.
A loba simplesmente chamou o Pai e lhe relatou o que tinha sucedido e pediu-lhe que o homem gerasse uma ninhada de outros homens para finalmente ter companhia. Ao ouvir isto o Pai de Tudo ficou em silencio, pois se por um lado o homem estava a cumprir com a tarefa para com a qual tinha sido criado ao levar as suas irmãs a pensar em coisas em que nunca o tinham feito, por outro, aceder ao pedido das suas filhas levaria a que o mundo tivesse de ser refeito no seu todo.
Ora, enquanto o Pai de Tudo meditava em como aceder ao pedido das suas filhas, sucedeu que algumas delas decidiram que era o momento de matar o homem, para que este não pudesse continuar a criar tumultos no mundo e então atacaram-no e quase o conseguiram matar, mas antes que o conseguissem fazer, a loba e as outras irmãs que aguardavam a decisão do Pai, lutaram contra elas e conseguiram que o homem não morresse de imediato, mas este tinha ficado gravemente ferido e não iria viver muito mais tempo.
Ao ver tudo isto o Pai de Tudo muito sofreu pelas suas filhas, pois ao querer que estas crescessem não as podia impedir de crescer para o mal. Então adormeceu todos o seres do mundo com exceção da loba e do homem.
Então falou à loba. “A Vida e a Morte pertencem-me a mim e não a vós minhas filhas. Como punição por terem tentado matar o homem não poderão mais gerar vida sozinhas. Como recompensa por se terem detido a vós próprias, criarei machos para serem vossos companheiros e dividirei a capacidade de gerar vida entre a fêmea e o macho. Mas sabe isto, cuidar da vida gerada cabe a todos, fêmeas e machos. Aquele que se recusar a proteger irmã ou irmão, será entregue ao homem, e este o destruirá.”
Voltou-se então para o homem e falou-lhe. “Recusaste o meu pedido e fugiste para chorar lágrimas inúteis. Tivesses-me contado o teu sofrimento e eu to aliviaria. Assim, serás castigado com fragilidade no corpo, na mente e no espírito, e todas as tuas ações deixaram de ser tuas. Contudo, a tua solidão escurece-te, pelo que criarei para ti uma fêmea, que chamarás de mulher, e ela será forte onde tu fores fraco, e fraca onde tu fores forte, e nada farás que perdure sem estejam ambos a trabalhar em conjunto. Mas isto te ofereço, pois se assim agiste foi porque assim foste por mim criado. Permitirei que o amor verdadeiro habite em ti, e se dois da tua espécie se amarem com amor verdadeiro, serão a meus olhos como macho e fêmea, e serão capazes de cumprir com as suas missões, mesmo que não sejam capazes de gerar vida.”
Terminando de falar o Pai de Tudo adormeceu a loba e homem. Então refez o homem da maneira que decretara e para cada fêmea criou um macho e para o homem criou a mulher. Tendo terminado recolheu-se em silencio e aguardou que as suas filhas e os seus filhos acordassem e se reconhecessem entre si.
E assim foi que quando as filhas e os filhos do Pai de Tudo acordaram do seu sono se reconheceram entre si e começaram a aprender como deveriam ser um para com os outros. A loba explicou a quem a quis ouvir aquilo que o Pai de Tudo tinha determinado, mas uns não a quiseram ouvir, outros não a entenderam e somente uns poucos a escutaram com atenção. Desses que a escutaram com atenção faziam parte o homem e a mulher, mas devido ao decreto do Pai de Tudo em relação ao homem, aconteceu que rapidamente a sua descendência esqueceu como devia agir, e o dom que era o amor verdadeiro, e criaram para eles próprios regras que por vezes chegavam ao ponto de negar a vontade do Pai.
E assim foram criados os machos, e assim começou a rodar o mundo. Quem me escuta que me ouça.
O que é então "Lobisomens - O Passado É Para Esquecer"? De uma forma simples é o mundo onde os meus lobisomens vão viver as suas vidas. Ainda não sei tudo acerca deste mundo, sei que os lobisomens são reais lá. Sei que humanos sabem que os lobisomens existem e sabem quem eles são. Sei que esse mundo está a mudar. Sei que esse mundo é muito parecido ao nosso. Sei que os demónios desse mundo são os mesmos do nosso: ódio, ganancia, medo.
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