sábado, 14 de fevereiro de 2015

Contos Tradicionais dos Lobisomens: A Rainha Jardineira

Era uma vez num reino que já o deixou de ser há mais tempo desde que os reinos daqui o foram, aconteceram os seguintes acontecimentos e as coisas que lhes sucederam.
Nesse reino era costume o rei não escolher a sua rainha, mas sim ser o povo a dizer quem melhor seria a esposa do rei. E a rainha era escolhida pelo povo desta forma que a seguir se diz. Vindo o aniversário do rei, vinham todas as moças de idade casadoira ou não que quisessem ser a nova rainha e chegando à praça da sua aldeia, chamavam o povo e gabavam as sua próprias virtudes. Se o povo acreditasse no que ouvia, escolhiam entre elas qual a melhor, então o alcaide da aldeia pegava num lenço de linho e pedia à mulher casada à menos tempo para bordar o símbolo da aldeia no lenço e entregava-o à moça escolhida. Esta guardava o lenço com todo o cuidado e viajava até à aldeia vizinha. Lá repetia tudo o que anteriormente tinha feito na sua aldeia, e se lhe entregassem outro lenço, juntava-o com todo o cuidado ao anterior, mas se fosse recusada pelo povo dessa aldeia então teria de entregar todos os lenços que tivesse conseguido recolher à mulher do alcaide dessa aldeia. Desta forma sabia o rei se o povo acreditava ou não naquela que desejava ser rainha, pois quando uma moça se apresentasse ao rei para ser rainha, tinha de mostrar todos os lenços que recolhera, e seguidamente o rei chamava à sua presença todos os alcaides das aldeias dos lenços apresentados e todas as mulheres dos alcaides das aldeias que sobejassem. Se todos os alcaides das aldeias dos lenços apresentados sem exceção confirmassem que o lenço tinha realmente sido entregue à moça, e nenhuma das mulheres dos alcaides das aldeias que sobejassem afirmasse que a moça tinha sido recusada, então o rei casava com essa moça e tornava-a sua rainha.
Aconteceu certa vez o seguinte nesse reino. Sendo o rei ainda moço e bem apessoado, queriam muitas moças ser sua rainha, mas o povo que sabia que o rei ainda era muito novo, e não dava lenço a nenhuma delas e pode assim o rei crescer mais um pouco. Ora havia um nobre numa ponta do reino, que desejava muito que a sua filha fosse rainha, e para isso a ensinou em tudo o que fosse coisa de reinar como rainha, lançando mão dos melhores mestres e instrutores. Assim sabia a moça em questão cantar como um anjo, organizar festas sem depauperar os cofres, avaliar a olho ouro prata e pedras preciosas, e falar com quem quer que fosse sobre qualquer assunto que fosse. Ora havia igualmente na outra ponta do reino uma moça do campo, filha de gente trabalhadora mas humilde, que ao fim de um dia em tinha limpado a casa, tratado dos animais, feito a comida, lavado a roupa, sachado a horta e colhido lenha e frutas no bosque, considerou que se conseguia ela fazer tudo aquilo, igualmente conseguiria ser rainha.
Partiram então ambas as moças cada uma de seu lado a recolher os lenços das aldeias, e tão bem se gabavam das suas virtudes que em nenhuma das aldeias por onde passavam foram recusadas. Tanto andaram, tanto andaram, que quando finalmente chegaram ao rei cada uma delas tinha metade das aldeias do reino em lenços e nenhuma delas tinham mais um lenço só que fosse mais que a outra.
Não sabendo bem como resolver tal situação que nunca tinha antes sucedido, decidiu o rei chamar ao seu castelo todos os alcaides de todas as aldeias e todas as mulheres dos alcaides de todas as aldeias. Chegando toda essa gente ao castelo, perguntou-lhes o rei se as tinham aceitado e se não as tinham recusado. Confirmaram os alcaides que tinham realmente aceitado as moças e igualmente afirmaram as mulheres do alcaides que não tinham sido as moças recusadas.
Vendo que dessa forma não resolvia o problema de duas candidatas a rainha, decidiu então o rei que ambas as moças se deveriam gabar uma ultima vez na sua presença. Os alcaides e as mulheres dos alcaides escolheriam então o lado do salão correspondente à moça que preferissem. Chegando ao fim o lado com mais gente seria o da moça escolhida. Contudo, tão bem se voltaram a gabar as moças que novamente se dividiu o povo ao meio sem que um lado tivesse mais uma única pessoa que o outro lado.
Chamou então o rei os lobos, que eram amigos e conselheiros daquele reino havia muito tempo, e explicou-lhes a situação. Os lobos escutaram atentamente e responderam: “Mais valia que casasses com as duas, porque uma sabe quanto uma coroa vale e a outra sabe quanto uma coroa pesa. Mas uma será capaz de te dar tudo quanto queiras, mas a outra apenas te dará aquilo de que precisas.”
O rei ouviu isto e ficou a pensar e por fim decidiu. “Casar-me-ei com a filha do nobre. Contudo a moça do campo ficará igualmente comigo. Que escolha um dos meus soldados mais valentes como seu marido, e que sejam padrinhos meu casamento com a minha rainha, tal como a rainha e eu seremos padrinhos do seu casamento.”
A moça do campo até nem desgostou da solução do rei, pois mais gostava de lavrar a terra que bordados, e botando olho para os lados dos soldados do rei, não viu nem um que lhe desagradasse.
A filha do nobre é ficou sem sabem bem o que pensar de tudo isto, porque em momento algum lhe tinham ensinado que alguém poderia valer tanto como ela, de tal forma que toda esta competição a tinha deixado muito abalada. Mas como no final de tudo iria ser rainha na mesma, achou que não valia a pena pensar muito no assunto.
Casaram-se os casais, e apadrinharam-se entre si e começou cada um a viver sua vida. O rei reinava, o soldado protegia o reino, a moça do campo cuidava do seu soldado e da sua casa, e a rainha acompanhava o rei.
No entanto, de dia para dia a rainha entristecia e ninguém sabia dizer porquê. Um dia a moça do campo foi visitar a rainha para lhe contar que estava grávida, mas quando viu a rainha tão triste quis de imediato saber o que se passava. “Sou tua madrinha, e tu és minha. Se não puderes falar comigo com quem poderás então falar?”
Chorou-se então a rainha que nada do que fazia parecia necessário ao reino, nem sequer um pouco, e que mesmo isso era na verdade feito por outros em seu nome, porque ela como rainha não se deveria rebaixar a tais tarefas. Respondeu-lhe então a moça do campo. “Diz ao rei que queres fazer um jardim, mas que a mais ninguém se não tu lá será permitido cavar. Desta forma terás a satisfação de ver crescer coisas tuas e obra das tuas mão, e então toda tristeza que sentes deixará de existir.”
Quando ouviu isto a rainha pensou que era um grande disparate, mas após pensar mais um pouco viu que afinal não era assim tão disparatado. Tão feliz ficou ao ter uma solução para a sua tristeza, que quando soube a moça do campo ia ser mãe, até cantou de alegria. E desta forma se resolveu este assunto.
A alegria da rainha com o seu jardim era tanta, que este se tornou o mais belo jardim no mundo, e dessa alegria toda também deu a rainha ao mundo e ao rei um novo príncipe.
Ora para felicidade de todos nasceu o príncipe tão são como dois peros, mas sendo a rainha mãe pela primeira vez muito se agastava e angustiava que nada de mal sucedesse ao recém-nascido. E foi então que para garantir que nenhuma cura faltasse para qualquer mal que viesse ao príncipe, começou a plantar todas as plantas do mundo no seu jardim, e a estudar todas as curas, venenos e magias que existissem. E durante uns tempos isto foi bom, porque tão sábia se tornou a rainha que muitos males, doenças e maldições foi capaz de curar às gentes do seu reino e dos reinos vizinhos.
O tempo passou e chegou o momento em que deixaria o príncipe as saias da mãe e das aias, para aprender as artes da guerra e outras coisas consideradas de príncipe e de homem. Isto muito entristeceu a rainha, de tal forma que regressou a moça do campo a falar com a rainha para entender o que se passava. Ao compreender os anseios da rainha propôs-lhe esta solução: que uma das filhas da moça do campo seria entregue à rainha, para que esta lhe ensinasse tudo quanto sabia acerca de curas, venenos e magias, e para que assim pudesse o príncipe estar sempre acompanhado de alguém que o soubesse curar dos males do mundo. A rainha concordou de imediato com esta solução, pois assim poderia o príncipe ir-se ao mundo e mesmo assim continuar protegido.
E assim foi que a filha mais velha da moça do campo foi entregue à rainha para ser sua aprendiz, e que esta lhe ensinou tudo quanto sabia menos o conhecimento de como lançar maldições, pois a rainha não desejava que mais ninguém soubesse de tão negras artes.
Cresceu o príncipe, e tornou-se guerreiro sem par. Cresceu a aprendiz, e tornou-se benzedeira sem igual. E quando chegou o momento de o príncipe ir-se ao mundo, a aprendiz foi como sua companhia. Tendo sido criados juntos, via o príncipe à aprendiz como irmã, mas a aprendiz aprendeu a ver o príncipe como homem e como homem o desejou, mas isto nunca disse a quem quer que fosse.
Indo o príncipe e a aprendiz a aprender o mundo, calhou um dia entrarem numa grande floresta, magnifica como mais neste que até então tivessem visto. Numa clareira no meio dessa floresta encontraram uma árvore-mulher, que era tão bela como uma rosa e tão forte como um carvalho, e o príncipe logo ali se enamorou da árvore-mulher e a pediu em casamento.
Como é sabido, as árvores-mulher vivem longos séculos, e aquela era a mais antiga de todas as árvores-mulher. Apesar de para ela ser o príncipe não mais que um recém-nascido, ao ler-lhe o coração, descobriu tanta honra e tanto amor, que decidiu aceitar o pedido do príncipe.
Ao assistir a tudo quanto sucedia, muito se entristeceu a aprendiz, mas nada disse e no seu pensamento começou a imaginar como haveria de ficar com o príncipe para si mesma. Começou então a deplorar não lhe ter sido ensinado como lançar maldições e outras negras artes.
Na sua felicidade, tornou-se o príncipe cego ao que o rodeava, mas à árvore-mulher não escapou o escurecimento do coração da aprendiz. No entanto como era muito sábia, decidiu dar à aprendiz o tempo necessário para esquecer o mal em que matutava e aceitar a felicidade do príncipe, portanto disse ao príncipe: “Regressa à tua terra e prepara-me alojamento digno de mim. E não te esqueças que sendo eu uma árvore-mulher, não habitarei pedras mortas mas sim árvores vivas.” E concedeu um ano ao príncipe para lhe preparar os alojamentos que desejava.
Regressou de imediato o príncipe ao reino de seus pais e lá chegando de imediato contou ao rei e à rainha as novas do seu futuro casamento. O rei, apesar de surpreendido, aceitou as escolhas do príncipe e o abençoou, mas a rainha, que desejava que o príncipe se casasse com uma princesa, muito se zangou com ele. Acontece que naquele reino ninguém se podia opor a um casamento honesto, e como nem o príncipe nem a árvore-mulher tinham sido obrigados a se jurarem um ao outro, ninguém os podia impedir de se casarem, pelo que a rainha nada podia fazer.
Enfurecida, recolheu-se a rainha ao seu jardim para pensar em como havia de impedir o casamento do príncipe, e foi lá que descobriu a aprendiz a chorar as suas mágoas. Perguntando-lhe o que se passava, ficou a rainha ainda mais zangada ao saber da paixão da aprendiz pelo príncipe, e logo ali e para si mesma jurou que jamais permitira que o príncipe se casasse com uma mulher que não fosse escolhida a dedo pela rainha. Adoçando a voz, começou a compadecer-se do sofrimento da aprendiz, e lhe sugeriu que haveria de criar uma maneira de ajudá-la a ficar com o príncipe. Como tinha o coração e o pensamento escurecidos por maus pensamentos, não se apercebeu a aprendiz dos maus intentos da rainha e se comprometeu a fazer tudo quanto a rainha lhe pedisse.
Ora durante os seus estudos, tinha a rainha aprendido a fazer muito bem, mas igualmente tinha aprendido a fazer muito mal, e como é sabido para fazer o mal basta querer fazê-lo. Começou então a rainha a preparar uma maldição tão terrível, que até os demónios do Inferno se recusaram a ajuda-la.
Quando faltava um dia para a árvore-mulher chegar ao reino e se casar com o príncipe, foi quando terminou a rainha a sua maldição, e chamando a aprendiz a si lha entregou e disse: “Se beberes esta poção, ela te dará a força para beber a vida da árvore-mulher e dessa forma se apaixonará o príncipe por ti.” O que a rainha não disse à aprendiz, era que apôs beber a poção a aprendiz se transformaria num monstro que iria consumir todas as árvores-mulher, e que vendo o príncipe isto a iria recusar como mal que seria. A aprendiz estava tão cega, que nem sequer hesitou em beber a sua própria perdição e assim se tornou na primeira vampiresa.
O bem cria o bem e o mal atrai o mal. Sabendo nós que isto é verdadeiro, não nos deverá surpreender o que seguidamente aconteceu. Estando o príncipe a dar os últimos retoques nos alojamentos da árvore-mulher, espetou uma pua num dedo, e não a conseguindo remover foi pedir à aprendiz que lha tirasse. Ora vendo a aprendiz a pua no dedo do príncipe, com mil cuidados a removeu e a seguir, deu um beijinho na ferida, para que se curasse mais depressa. Mas foi nesse momento que a maldição teve inicio, pois uma gota de sangue do príncipe foi bebida pela aprendiz, e foi desta maneira que se tornaram os vampiros sedentos do sangue dos homens.
Enlouquecida pela maldição, a vampiresa atacou e matou todos os que moravam no castelo, começando pelo príncipe e terminando com a sua própria mãe, a moça do campo. A única que se salvou foi a rainha, pois usou as suas magias para se proteger.
No dia seguinte chegou ao castelo a árvore-mulher acompanhada pelos lobos amigos do reino, e vendo o que havia sucedido muito se angustiaram. No entanto a árvore-mulher, que era muito sábia chamou a si a rainha e a aprendiz e leu-lhes os corações para determinar o que sucedera, e o que leu muito a enfureceu, e tão grande foi a sua fúria que até o Pai decidiu intervir para que não se acabasse ali o mundo.
Olhando para tudo o que sucedera determinou então o Pai para a aprendiz: “Que seja a tua fome tão grande quão negro for o teu coração. Que roubes no sangue dos homens as suas trevas. Que bebas a luz dos homens no sangue que te for ofertado.” De seguida, curou a da loucura mas não das trevas e mandou vaguear pelo mundo até que penasse tantas vidas quantas aquelas que bebera. Ordenou então aos lobos que protegessem todas as criaturas menos os homens da sede da vampiresa e concedeu-lhes o condão de serem resistentes aos vampiros.
À árvore-mulher concedeu isto: “Como perdeste o teu amado, farei a sua alma regressar a ti de todas as vezes que ele regressar a este mundo. Mas como não mostras-te contenção quando soubeste o que aqui se passou, e estavas disposta a fazer terminar o mundo por causa disso, ele nunca se vai recordar de ti, e de todas as vezes vais ter de o ensinar novamente a amar-te.”
Por fim, lançou o Pai a sua Fúria sobre a rainha: “De tanto que te foi dado o que fizeste tu? Como te atreveste a corromper o conhecimento que te foi concedido? Não verás! Não escutarás! Não saborearás! Não cheirarás! Não sentirás! Que fiques fechada no teu jardim e na tua mente e que nunca o teu corpo morra mas que apodreças como o mal em que te converteste! Enquanto existir mal neste mundo não terminará a tua sentença e não terás nem paz, nem sossego!”
E assim como foi determinado assim aconteceu. A vampiresa vagueou pelo mundo e muitos males fez até que um dia os lobisomens a caçaram e a prenderam. Os lobos contaram aos lobisomens sua sentença da vampiresa, e estes começaram a oferecer-lhe do seu próprio sangue e dessa forma conseguiram expurgar dela as trevas que a habitavam.
A árvore-mulher voltou a encontrar-se muitas vezes com o príncipe regressado à terra, mas de cada vez que ele tinha de partir por que afinal era apenas um homem, e todos os homens morrem, de cada vez mais e mais se entristecia. Tão grande era a sua tristeza, que por fim o Pai condoeu-se do seu sofrimento e permitiu que ela o acompanha-se enquanto estivesse no outro mundo.

Tanto quanto sei a rainha continua no seu jardim, mas diz-se que se uma alma for suficientemente negra, pode chamar a si a rainha jardineira e pedir-lhe que novamente lance os seus males ao mndo.

Contos Tradicionais dos Lobisomens: O Primeiro Lobisomem

Durante muito tempo os lobos não exigiram que os homens cumprissem o juramento do primeiro homem ao primeiro lobo, mas aconteceu um dia que os homens e os lobos de uma terra distante começaram a guerrear entre si. Tão feroz foi a luta que por fim só sobrou um homem e uma loba.
Quando a loba se apercebeu que estava sozinha muito se enfureceu e decidiu invocar o castigo do Pai sobre o homem, mas o Pai ao ouvir o que a loba lhe pedia, respondeu-lhe que somente o culpado deseja o castigo do culpado. Não compreendendo o que lhe era dito, ainda mais se irou a loba, mas não conseguia imaginar como se vingaria do homem.
Lembrou-se então do juramento do primeiro homem e pediu-lhe o seguinte: como ela estava sozinha devia o homem ser o pai de uma ninhada de lobinhos. Ao ouvir tal pedido, tanto se encolerizou o homem que nem sequer pensou no que dizia e, invocando o Pai, renegou o seu juramento.
Ora como é sabido, a palavra dada é para ser cumprida, e tendo sido o Pai testemunha do juramento, logo ali lançou a Morte sobre o homem por ter renegado a palavra dada.
De seguida lançou o Pai a sua Justiça sobre a loba e proclamou: “Pedis-te a teu irmão que cumprisse com algo com que ele nunca seria capaz de cumprir. O homem renegou a sua palavra e por esse motivo recebeu de mim o devido castigo. Tu corrompeste a minha vontade ao pedires ao homem uma coisa impossível. Será teu castigo que não entenderão mais os homens aos lobos. e que por esse motivo perseguirão os homens aos lobos, e os matarão.”
A loba ficou horrorizada, pois nunca imaginara um castigo tão cruel, e chorou aos pés do Pai a pedir-lhe perdão. Tanto era o seu arrependimento, que se compadeceu o Pai das suas lágrimas e decidiu alterar a sua sentença: “Não entenderão os homens aos lobos, mas se algum homem aprender a amar aos lobos, será capaz de os entender e de ensinar os homens seus irmãos a novamente entender aos lobos. Contudo, até isso acontecer, serão os lobos perseguidos pelos homens e não considerarei culpado de crime de sangue nenhum homem que mate a um lobo.”
“Mas para que mais cedo chegue esse homem, concedo-te a seguinte prova: se comeres a carne deste homem que renegou a palavra dada, nascerá de ti um que será lobo e será homem. Não será ele capaz de ensinar os homens a entender aos lobos, mas por existir serão capazes os homens de aprender a amar aos lobos.”
“Contudo esta restrição te imponho, que até esse que é lobo e que é homem nascer de ti, não poderás comer de mais nenhuma carne, pois se assim o fizeres, ele se tornará em maldição e te consumirá de dentro para fora até nada restar de ti. E para que aprendas a contenção, por mais que comas, nunca estarás satisfeita até ao momento em que aquele que é lobo e que é homem nascer.”
E assim foi, a loba começou a comer a carne do homem, mas sendo um homem maior que uma loba, comeu a loba o homem inteiro e com mais fome ficou. Recordando-se das palavras do Pai, não comeu a loba de mais nenhuma carne, mas nada do que bebesse ou comesse lhe aliviava a fome que sentia.
Longa, muito longa foi a prenhez da loba. Muitas vezes a prenhez dos lobos. Muitas vezes a prenhez dos homens. Mais longa pareceu à loba a sua prenhez, pois somente pior que a fome que sentia era a solidão que tinha por única companhia.
Por fim, apôs muitas e muitas estações, sentiu a loba que era o momento de dar à luz, e logo se recolheu à sua toca para que assim fosse. Nasceu então o mais belo lobinho que alguma vez tinha sido enviado ao mundo, e disso muito se agradou a loba, pois não sabia se este haveria de nascer lobo ou nascer homem. E como nasceu lobo, como lobo e criou e como lobo o ensinou. Mas não lhe ensinou nada acerca dos homens.
E durante uns tempos foram a loba e o lobinho muito felizes, mas na estação em que o lobinho se tornou lobo adulto, regressaram os homens àquela terra, e assim foi que pela primeira vez viu o lobo a um homem.
Perguntou o lobo à loba que criaturas eram aquelas e por que nada acerca delas lhe tinha ela o ensinado. Percebeu logo a loba que tinha feito um grande mal ao lobo ao não lhe ensinar tudo o que havia neste mundo para aprender, e foi de cabeça baixa que lhe contou tudo acerca dos homens e de como o lobo tinha sido gerado.
Muito se inquietou o lobo ao escutar tais coisas, pois sempre acreditara ser uma coisa, e agora lhe diziam que era outra, e nessa inquietação sentiu-se muito traído pela loba. No entanto, o Pai mantinha-se muito atento àquilo que à loba e ao lobo dizia respeito, e vendo o que sucedia, de imediato surgiu ao lobo e lhe explicou como as coisas realmente eram. Mas mesmo sabendo a verdade, o lobo continuava a sentir-se muito desgostoso. Disse-lhe então o Pai: “Irás correr o mundo, e será tua recompensa aprenderes tudo o que há para aprender. Todas as terras te pronunciarão como filho, mas a nenhuma terra chamarás de tua. Como já sabes ser lobo, serás agora ensinado a ser homem, e quando souberes ser homem por completo, te darei irmãos e irmãos, filhos e filhas e nunca mais estarás só.”

E desta maneira começou o lobo a percorrer o mundo e a aprender tudo aquilo que nele havia para aprender. Mas diz-se que só aprendeu a ser homem por completo quando depois de muito andar se encontrou com o Rei Que Não O Era e este lhe testemunhou todas as tontices de que um homem é capaz.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Playlist: As pessoas boas não têm sombra

Inspirado por:
Existe uma frase muito repetida que diz: “Se não existissem as trevas não existiria a luz”, uma variante da mesma diz: “é a existência da luz que dá origem às trevas”. O conceito básico por detrás destas e outras afirmações do mesmo género é o de existe uma relação simbiótica entre a luz e as trevas, entre o bem e o mal. Esse conceito sempre me perturbou, na realidade sempre o considerei uma falsidade, uma falácia, mas até agora ainda não tinha conseguido desenvolver uma resposta que me satisfizesse.
A resposta que me “surgiu” é a seguinte: “A luz provoca sombra/trevas porque aqueles em quem incide, não a partilham com os que estão em seu redor”. Este conto destina-se a explanar esse conceito, daí o título, as pessoas boas não têm sombra porque partilham a luz que recebem com os outros.


Domingo de manhã. A noite tinha sido boa. O bar estava apinhado, a música alta, a cerveja a metade do preço. Uma noite realmente boa. A parte pior tinha sido ter de voltar cedo a casa. Mas a escolha era fácil, cuidar dos irmãos naquele domingo, ou ficar fechado em casa nos próximos sábados, sextas, quintas... Realmente, uma escolha fácil. Os lobitos até nem se portavam tão mal como isso. E de qualquer forma, quem ia realmente cuidar deles era a Marta, a Maria e a Margarida.
De qualquer forma, passar a manhã a dormir, declamar o rol das queixas costumeiras quando os pais chegassem, e as próximas saídas estavam garantidas. Com jeitinho até se conseguia um aumento de mesada...
De repente, algo fez soar o alerta. Aliás, algo não fez soar o alerta.
Televisão ao berros? Certo.
Margarida no telemóvel com as amigas? Certo.
Qualquer coisa a queimar-se na cozinha? Certo.
Lobitos a implicar uns com os outros? E estava uma manhã tão sossegada. Este foi o seu pensamento ao começar a levantar-se da cama.
“Máááário!!!”
Para crianças tão pequenas tinham uns vozeirões de fazer inveja às vuvuzelas. É claro que as vuvuzelas eram menos irritantes.
O espaço de tempo que demorou a percorrer entre o quarto da primeira ninhada e a sala, foi mais que suficiente para desencadear a 3ª Guerra Mundial. Um segundo completo, mais coisa menos coisa.
O caos na sala tinha ultrapassado os limites firmemente impostos pela mãe após duras negociações com a primeira ninhada, ou seja, brinquedos, lápis de cor, livros, etc., ocupavam não só todo e qualquer parte do chão potencialmente não ocupada por objetos inamoviveis, como tinham começado a invadir mesas, cadeiras, estantes e qualquer outro espaço percebido como livre para ocupação imediata.
Para além de tudo e mais alguma coisa em todo e qualquer lugar possível, estavam na sala uma cria de lobo com o pelo ouriçado e a rosnar para uma rapariga de uns oito anos firmemente segura por ambos os braços por dois rapazes gémeos de igualmente oito anos. A expressão de fúria na cara da rapariga era uma certeza de que alguém terminaria aquela cena a chorar se não se desse uma intervenção imediata por parte de alguém responsável, que neste caso ter de ser forçosamente ele, Mário, irmão mais velho e chefe de família por indicação explícita e devidamente vincada por parte da mãe.
Parou!” Gritar não é recomendado na gestão de conflitos, mas normalmente os lupus reagem rapidamente a um berro bem dado. “O que é que se passa aqui?”
A berraria em resposta tranquilizo-o um bocadinho. Se estavam todos a querer gritar mais que os outros, o assunto não era assim tão sério. Seria um assunto irritante, mas não sério.
“Dina! Diogo! Diego! Dinis! Calou tudo!” Realmente um berro bem dado resultava a sério. Mário congratulou-se a si mesmo, estava a berrar quase tão bem como a mãe! Um dia destes iria ser tão bom berrador como a tia Felicidade!
Virou-se para o lobinho. “Dinis. Muda.” Se para calar uma alcateia de lobos à bulha o melhor era berrar mais alto que eles, para ordenar uma metamorfose o mais indicado era uma ordem seca e direta.
Enquanto Dinis assumia o seu aspeto humano, tarefa sempre demorada para um lupus enervado em qualquer idade, quanto mais aos oito anos, Mário decidiu começar com Dina. Tal como ele, uma potencial chefe de alcateia, o que significava que uma mão firme era essencial.
“Dina, o que é que se passou?” Direto ao assunto, nada de rodeios, nada de hesitações. Mário lembrava-se bem das vezes que o pai tinha hesitado com ele. Qualquer que fosse o assunto ficava por resolver até a mãe chegar a casa.
O Dinis é estúpido e burro e parvo!O veneno com que as palavras saiam da boca da sua irmã mais nova nunca o deixavam de surpreender. Mário não tinha a menor ideia de como a pirralha conseguia ferir tanto os outros sem sequer tentar.
Dina! Atenção à linguagem. Voltas a falar assim e vais para o quarto sem televisão durante a tarde toda. Agora vamos lá, o que é que se passou?”
O Dinis disse uma coisa parva e a Dina disse que ela era parvo, e o Dinis disse que ela é que era parva, e a Dina então disse que que o Dinis era parvo e estúpido, e...
Chega, Diego. Já percebi.” Tinha de ser o Diego a falar. Os gémeos eram realmente idênticos, tanto que até a família tinha dificuldades em os distinguir, mas quem os conhecesse sabia sempre qual era qual, Diogo não abria a boca por quase nada, mas Diego era difícil de calar. “Dina, o que é que o Dinis disse?”
A lobinha virou a cara e não respondeu.
“Diogo e Diego! Larguem-na já. Dina se te armares em esperta levas já um açoite para te passar as espertezas!” Se Mário desse um açoite à irmã, a esperteza dela seria o seu menor problema quando a mãe descobrisse, mas a Dina ainda não tinha aprendido que só a mãe é que dava açoites.
De qualquer forma, a hipótese de um rabo dorido, por muito remota que fosse, era mais assustadora que ficar sem televisão. Dina optou por falar. “O Dinis disse que as pessoas boas não têm sombra.”
Certo... Brinquedos partidos, livros riscados, eu-sou-mais-forte-que-tu, isso era normal para Mário. Afinal, ele e as irmãs mais velhas da primeira ninhada tinham feito a mesma coisa. Agora, aquilo...
Dinis. O que é que disseste realmente? Se calhar a Dina não te percebeu como deve ser.” Naquele momento Mário conseguia ouvir com uma extrema claridade o aviso da mãe, do pai, de toda a gente, “Negociação. A Dina e os gémeos podem lidar com o Dinis como bem entenderem, mas todos os outros TÊM SEMPRE de lhe dar pontos de fuga, formas de ele conseguir evitar confrontos diretos.” Os lupus ancoras eram tão frágeis enquanto crianças, havia tanta coisa que podia correr mal.
Eu disse que as pessoas boas não têm sombra!A agressividade com que Dinis se exprimia não enganava Mário. Quando o cachorro se sentia ameaçado por qualquer motivo que fosse, real ou não, passava ao ataque. O pedopsiquiatra tinha sido bastante claro acerca disso, como todos os ancoras Dinis era sensível ao ambiente emocional em seu redor, mas sendo rapaz a sua resposta primária era agressão em vez de fuga. Ensiná-lo a negociar era a única forma de garantir que conseguia passar pela adolescência sem confrontos diários com tudo e com todos.
Dinis! Olha lá como falas!O tratamento indiferenciado em relação ao resto da ninhada era mais que esperado, era necessário para que o cachorro conseguisse acalmar-se. Os resultados foram imediatos. Dinis baixou a cabeça e repetiu-se.
“As pessoas boas não têm sombra.”
Tão expectável como a timidez de Dinis após uma explosão, era a agressividade de Dina a recuperar a sua primazia dentro da ninhada. “Eu disse que ele tinha dito uma coisa parva!”
Mário não suspirou nem deu qualquer sinal exterior. “Dina. Cala-te.” Tão importante como a negociação era para um ancora, a obediência era essencial para um potencial chefe de família. Chefes de família adolescentes, pré-adolescentes, crianças, enfim, todos, não negociavam, ou obedeciam ou faziam-se obedecer, não existia meio-termo.
“Dinis.” Negociação, assertividade. “Todas as pessoas têm sombra, boas ou más. Porque é que dizes isso?”
O lobinho hesitou. “Eu vi no outro dia na televisão como é que a cores surgem por causa da luz. Sabes como é que é?”
“Sim.” Diálogo, vias de comunicação abertas, demonstrar interesse na conversação. “Nós vemos uma certa cor num certo objeto, porque quando a luz bate nele é toda refletida para os nossos olhos menos a cor do objeto.”
Também viste o programa?! Quando é que vistes? É que quando deu não estavas em casa e...”
“Dinis.” Concentração, não permitir divagações. “O que é que a luz e as cores têm a ver com as pessoas boas não terem sombra?”
“Desculpa... É que nesse programa diziam também que a luz era refletida para todos os lados, e que a cor preta aparecia quando nenhuma luz era refletida.”
Continua...” O que é que vai sair daqui? Um pensamento pouco generoso talvez, mas a estranha forma de lógica preferida por Dinis, já não era uma novidade para Mário.
Depois no outro dia ouvi um senhor a falar na rádio que nós éramos luz e que as pessoas más viviam nas trevas e que tínhamos de ser luz uns para os outros e...”
“Dinis.”
E depois disso a mãe disse-nos que tínhamos de ser bons uns para os outros e partilhar as nossas coisas, e os brinquedos e a televisão e a...
Dinis.
Pois. Pus-me a pensar e deduzi o seguinte.” Se Mário descobri-se quem tinha ensinado a palavra 'deduzir' a Dinis, essa pessoa iria ouvir das boas. Ó se ia. “As pessoas boas partilham as coisas que tem e que lhes dão. As pessoas más não o fazem e por isso estão nas trevas, no escuro.”
“Continua.”
Se as pessoas boas partilham tudo, também partilham a luz que recebem, são como lâmpadas, pois iluminam à sua volta. Ora as lâmpadas não têm sombra. Eu fui ver as lâmpadas daqui de casa e nenhuma tinha sombra. Ora se as pessoas boas são como as lâmpada, isso quer dizer que não têm sombra. Portanto, as pessoas boas não têm sombra.”
“Dinis...” Com mais frequência do que alguma vez admitiria, Mário era apanhado de surpresa pela beleza do mundo visto através dos olhos dos seus irmãos mais novos.
Mário não disse mais nada, apenas pegou no irmão e deu-lhe um abraço apertado por longos momentos.
“Dinis...” Mário recomeçou. “Todas as pessoas têm sombra. É uma caraterística de tudo o que é iluminado, tem uma sombra no lado oposto àquele onde lhe bate a luz. Até as lâmpadas têm sombra, nós é que não a conseguimos ver.”
Uma certa humidade que nunca seria admitida como lágrimas surgiu nos olhos de Dinis. “Então eu estava a dizer uma coisa parva?”
“Não Dinis. Estavas a dizer uma das coisas mais bonitas que já ouvi dizer, mas não é da forma que estás a pensar.” Mário olhou Dinis olhos nos olhos. “A luz que o tal senhor falava na rádio não é a mesma luz que vem do sol ou das lâmpadas. É uma maneira bonita de se dizer todas aquelas coisas boas que as pessoas fazem. E as trevas a que ele referia também não é quando o sol se põe ou as lâmpadas são apagadas. São todas as coisas más que são feitas.”
Dinis prestava uma atenção às palavras do seu irmão, que seria considerada assustadora para quem não o conhecesse.
Mário prosseguiu. “Quando a luz bate numa coisa, provoca sempre uma sombra. Mas quando nós somos bons, afastamos sempre as coisas más. É por isso que aquilo que disseste é tão bonito, pois significa que quando somos bons e partilhamos as nossas coisas estamos a ajudar as pessoas à nossa volta só por lá estarmos. Por isso já sabes, porta-te sempre bem e não lutes com os teus irmãos. Isso é uma coisa muito má de se fazer, está bem?”
“Está bem.” Foi a resposta um pouco cabisbaixa de Dinis.
Ora bem! Agora todos para o banho. O almoço vai p'rá mesa daqui a nada, e quero toda a gente de banho tomado!” Se havia momento em que uma ninhada de lobos se assemelhava e muito a uma manada de elefantes em fúria, era quando se mencionava o banho. Ninguém queria ser o último. Não era um problema para Mário. As responsáveis pelo banho eram Marta e Margarida.
Maria observou-o com um sorriso irónico nos lábios. “Quanto tempo achas que vai demorar até ele deduzir outra coisa qualquer?”
“Até meio do almoço. O banho distrai-o sempre.” Se havia coisa que a ninhada mais velha conhecia de trás para a frente eram as manias e as particularidades da ninhada mais nova. “Mas sabes, é realmente uma ideia muito bonita.”
“Sim. É. Só espero que ele consiga acreditar nela por muito mais tempo.” Maria disse em tom de despedida, dirigindo-se para a cozinha.

Mário parou por uns segundos a pensar naquilo que a irmã tinha dito. Mas não se preocupou muito. Dinis era suficientemente esperto para conseguir acreditar que as pessoas boas não tinham sombra durante uma vida inteira.

Contos Tradicionais dos Lobisomens: A Guerra dos Lobos

Quando o mundo ainda era novo, todos cumpriam com aquilo para com que tinham sido criados e dessa forma havia equilíbrio no mundo.
Ninguém se recusava a ser o que era. Ninguém, exceto o homem, que por sua natureza nunca estava satisfeito, e por isso mesmo, era como era suposto ser.
Aconteceu um dia que a loba e o lobo desentenderam-se por causa de algo tão comezinho que nem eles próprios conseguiam recordar o que tinha sido. A verdade era que tão grande era o desentendimento entre eles, que já nem lhes interessava quem tinha razão ou não, desde que o outro estivesse errado.
Os outros animais não sabiam bem o que pensar da guerra dos lobos, pois não conseguiam sequer perceber porque razão lutavam tão ferozmente entre si.
Tão grande era a raiva que sentiam um do outro, que por fim disse a loba ao lobo: “Vai-te de mim! Antes eternamente só, que junto a ti!”
Muito o lobo se ofendeu com tais palavras e decidiu ir mesmo à sua vida.
Remoendo as suas ofensas lá foi o lobo, e por algum tempo andou sozinho. Mas como bem é sabido, não foram os lobos criados para ser solitários, pelo que apôs algum tempo quis o lobo voltar a viver em companhia de alguém. O problema é que todos os animais já estavam emparelhados, até o homem, e como o lobo não queria regressar à loba, não descortinava a maneira de voltar a ficar acompanhado.
Pôs-se o lobo a pensar no que havia de fazer e por fim lembrou-se da promessa que o homem lhe tinha feito, com a Mãe como testemunha. Foi então à procura do homem para lhe pedir algo que nunca antes nem depois foi pedido a quem quer que fosse.
Chegando-se ao pé do homem, fez o lobo este pedido: que o homem trocasse a sua mulher com a loba do lobo.
Ora, nem sequer nessa altura era o homem tão tolo que não visse o tamanho do disparate do lobo, e assim lhe respondeu. O lobo, ao ouvir o homem, o mais tolo de todos os seres criados, a decretar que aquilo que pedia como tolice, parou e repensou o seu pedido.
“Tens razão. Nem a mulher nem a loba jamais aceitariam tal troca. Portanto temos de trocar de pele, para que a loba pense que tu és o lobo, e para que a mulher pense que eu sou o homem.”
Razões tinham de sobra os animais para considerar o homem o mais tolo de todos os animais, mas nesse dia não se tornou o lobo o mais tolo de todos porque o homem aceitou trocar a sua pele com o lobo.
E assim fizeram. O lobo vestiu a pele do homem e pôs-se de pé, e o homem vestiu a pele do lobo e começou a andar em quatro patas. E depois da troca feita, foi o lobo viver com a mulher e foi o homem viver com a loba.
Acontece que o lobo, para além de fiel à loba, era muito tímido, por isso quando chegou à casa da mulher, querendo esta namorar com o seu homem, ficou o lobo tão envergonhado que fugiu da mulher e foi-se esconder entre as aboboras e os feijoeiros da horta.
Entretanto o homem, como para além de tonto era desenvergonhado, decidiu ir seduzir a loba. Esta, mal o viu a por pata na sua caverna, deu-lhe tais dentadas e patadas que não teve o homem outra solução do que fugir a sete pés da loba. Como não conseguiu o homem o seu intento com a loba, decidiu ir pelo mundo a divertir-se com os animais, e por isso começou a fugir aos gritos da ovelhas, a roubar o mel aos ursos, a dançar com os cisnes e a cantar com os sapos.
“Não há duas sem três” é um dito muito, muito antigo, e tenho a certeza do que digo porque foi nesse momento que foi dito pela primeira vez.
A loba estava tão furiosa com aquilo que via o homem a fazer, acreditando ela que era o lobo que o fazia, que pediu em altos brados à Mãe: “Faz com o que o lobo honre a pele que usa, se esqueça de quem foi até agora e que em tudo obedeça àquela a quem essa pele foi prometida em penhor!” Sei que parece muito estranho tal afirmação da loba, mas naquele tempo, duas criaturas eram consideradas casadas quando prometiam a sua própria pele à outra criatura em penhor de fidelidade.
Acontece que não gostou a Mãe mesmo nada do pedido da loba, pois todos os animais tinham sido criados livres e só por sua própria vontade deveriam obedecer à vontade de quem quer que fosse. Sabendo a Mãe que o lobo e o homem tinham trocado de pele disse então à loba: “Como castigo pelo que pediste, como o pediste assim será.” E assim foi.
Naquele instante esqueceu-se o lobo de que era lobo, saiu da horta e foi namorar com a mulher.
A loba não entendeu porque não regressava o lobo para junto dela e o homem continuava a fazer tais disparates que já os animais se preocupavam que o lobo que viam tivesse enlouquecido por causa da guerra com a loba. A Mãe tudo isto observava e em silêncio se mantinha.
Sendo a natureza o que é, ficou a mulher de esperanças, e todos os animais se alegraram pois uma nova vida é sempre bom. Aconteceu então o que tinha de acontecer, quando a mulher deu à luz, nasceu não um homem ou uma mulher, mas sim um lobinho, tão bonito quanto um dia é longo no verão.
Muito se consternou a mulher. Muito se confundiu o lobo na pele do homem. Muito estranhou a loba. Só o homem na pele de lobo é que não achou nada, pois estando numa terra muito longe daquele sítio, nada soube.
Apesar da consternação da mulher, da confusão do lobo e da estranheza da loba, e do pasmo geral de todos os animais, decidiu-se que se a Mãe tinha dado um lobo como filho ao homem e à mulher, então tudo estaria certo e mal nenhum havia em a mulher ter dado à luz um lobo. A única coisa que foi decidida naquele momento, foi que a loba deveria ajudar a mulher a criar o lobinho, pois nem homem nem mulher sabiam como era ser lobo. Assim foi decidido e muito agradada ficou a loba por ser madrinha do filho da mulher e do homem.
Depois de muito mandriar por todas as terras, por fim lá se decidiu o homem na pele de lobo a regressar à sua própria terra, e quando chegou a casa e viu o que sucedia, sentiu tanta vergonha de ter aceitado trocar de pele com o lobo, que começou a chorar em altos prantos e a pedir perdão à mulher, à loba, ao lobo e ao lobinho. Vendo estes aquele que acreditavam ser o lobo em tais jeitos, muito se afligiram, e acreditando que o lobo estava enlouquecido, pediram à Mãe que o curasse do que o afligia.
Chegando a Mãe ao pé do homem na pele do lobo, pôs-lhe a mão na cabeça e lhe perguntou o que com ele sucedia. O homem, frente à Mãe, decidiu contar tudo quanto tinha ele sabia que tinha sucedido e muito perdão pediu pelo mal que tinha feito aos outros.
A Mãe então virou o seu olhar para loba e disse-lhe: “Entendes agora quão errado foi o que me pediste?” A loba então entendeu e deitou-se ao lado do homem a pedir perdão pelo que tinha feito.
Então a Mãe libertou a memória do lobo para que este soubesse dos seus próprios malfeitos, e quando o lobo se lembrou de quem era, igualmente se deitou ao lado do homem a pedir perdão.
Proferiu então a Mãe esta sentença: “Mulher, em tudo o que aqui se passou foste inocente, por isso e em compensação da traição a que fostes sujeita, decreto que todos os teus filhos serão teus, nascidos sejam do teu corpo ou do teu coração, e que o homem terá de ser como o pai verdadeiro de todos os teus filhos, quer sejam seus filhos ou não, e se o homem assim não o quiser, será por mim fustigado com grandes males e dores.”
“Para ti lobo pronuncio esta sentença: por teres sugerido a troca de peles, farei que tu e todos os teus descendentes nunca sejam capazes de mentir sem serem de imediato descobertos. Mas como não trais-te a loba por tua vontade própria, concedo-te esta graça, que jamais será possível a ti e aos teus descendentes serem infiéis sem que por vossa vontade o queiram.”
“Loba, o teu castigo já foi cumprido, mas como me pediste o mal para outro, decreto o seguinte, que tu e todos os teus descendentes terão de obedecer a qualquer bom pedido do lobinho e dos seus descendentes.”
Por fim, falou a Mãe para o homem. “Não te posso castigar por seres e agires como te fiz. Mas como vejo que não existe em ti o mal, nem por maldade fizeste o que fizeste, determino o seguinte: aqueles a quem amares como teus filhos, teus filhos serão. Mas aqueles a quem fizeres o mal, de suas próprias mãos receberás o castigo que entenderem.”
Falou então a Mãe para o lobinho: “És filho do lobo e da mulher. A loba ensinar-te-á a ser sábio e o homem ensinar-te-á a rir e a cantar. Do lobo herdarás a honra, mas do homem herdarás a loucura. Descobres os limites da honra e as utilidades da loucura e serás o mais feliz de todos os seres criados por mim.”
E assim ficou o imbróglio resolvido. O lobo e o homem voltaram às peles com que tinham nascido e regressaram para junto das suas companheiras. A mulher e a comadre loba criaram e educaram o lobinho e depois de muito entre si falarem perdoaram-se entre si as suas ações. O lobinho cresceu e aprendeu muita coisa e quando fez sete anos foi-lhe oferecido pela Mãe o conhecimento de como se transformar em homem e em lobo, para usar esse conhecimento como se lhe aprouvesse.

E assim regressou a paz, e se o homem continuava tonto e por vezes discutiam os lobos, nunca mais tão grandes tontices voltaram a ser cometidas.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Playlist: Livre Arbítrio


Inspirado por:
Titulo: Konzert für 4 Violinen op3 No1 d-dur RV549, II, Largo e spiccato
Autor: Vivaldi
Ano: 1711
Interpretes: The English Conzert ; Trevor Pinnock;

aviso: temas chocantes; linguagem forte e agressiva;
republicado com ligeiras alterações em 9 de fevereiro de 2015

Frio. Húmido. Cansado. Mas o que restava do corpo tinha de ser enterrado na mesma. Ele odiava realmente o serviço de limpeza.
A cova estava aberta. Um buraco mais ou menos arredondado no meio de nenhures. As plantas, as pedras, os troncos, o que quer que fosse que anteriormente ocupasse o espaço onde o buraco tinha sido cavado tinham sido cuidadosamente retiradas do seu lugar e postas de parte, para regressarem ao seu lugar no fim do processo, a camuflagem perfeita. A terra escavada empilhada numa lona para não deixar vestígios visíveis.
O caçador tinha parado para fumar um cigarro, ocultando a ponta acesa com a mão, não fosse alguém ver algo brilhante ao longe. Um cinzeiro de bolsa encarregar-se-ia das beatas. Nada ficava para trás. O pensamento de que os ecologistas ficariam orgulhosos da maneira como ele passava pela natureza divertiu-o por uns momentos.
Uma brisa um pouco mais agreste infiltrou-se-lhe pelo colarinho da camisa e gelou-lhe as costas. Era aquela hora mesmo antes da alvorada, a hora mais fria de todas, e o caçador odiava-a.
Olhou por momentos para os sacos do lixo onde onde os pedaços moídos do metamorfo tinham sido enfiados. “Nem mesmo mortos servem para nada!” proclamou somente em pensamento para si mesmo. Falar sem necessidade era um erro, e o caçador já não cometia erros. Pelo menos já não cometia esse erro em particular.
Fixou um olhar desconsolado nos sacos, na pá, na terra empilhada, no buraco que era necessário voltar a encher. Decidiu acender outro cigarro.
“Cá estamos nós outra vez então.”
Apesar de um momento antes não estar mais ninguém presente, o caçador nem sequer se sobressaltou. A voz era conhecida. O tédio na voz era recente, mas não uma novidade.
“Pelos menos sabes quem era?”
O caçador não respondeu. Deixou-se estar a fumar o seu cigarro, enquanto a figura que falava o rodeou de maneira a poder olhar melhor os sacos do lixo. Deixá-lo ver. Deixá-lo falar. Afinal de contas mais ninguém o via. Mais ninguém o ouvia.
“Triturar os corpos é cruel. As famílias nem sequer ficam com nada para fazer o luto.”
As palavras já tinham sido repetidas tantas vezes, que já não eram sequer ouvidas, de certa forma ignorar o anjo e as suas denúncias faziam tão parte do processo como o cavar do buraco ou o frio daquela hora antes da alvorada.
“Pelo menos sabes por que é que fazes isto?”
Blá. Blá. Blá. Ruído de fundo. Apetecia-lhe fumar outro cigarro, mas o dever chamava-o.
“É nestas alturas que me apetece fumar um cigarro, mas cancro do pulmão é uma maneira irónica de se morrer para quem nunca fumou.”
Isto... Isto era novo...
“Sabes se era homem ou mulher?”
“Era um sacana de um metamorfo. Fêmea. Só as humanas é que são mulheres.”
“Pois... Desculpa lá. Esqueci-me das tretas do costume dos caçadores.”
O caçador prestou atenção ao anjo. Qualquer coisa estava diferente. O que seria?
“Sabes que vais morrer em breve?”
“Não esperava ficar cá para semente.” Mas que raio quereria o anjo com uma conversa destas? Normalmente ficava-se pelo jogo da culpa, e do bem e do mal.
O anjo manteve-se fixado nos sacos do lixo. “Pedi para acabarem contigo mais cedo, mas disseram que ainda tinhas de fazer qualquer coisa por cá. É claro que não se dignaram a dizer-me a mim o que é, afinal sou só o teu anjo da guarda. Sou só anjinho pelos vistos.”
Isto era perturbante. “O meu anjo da guarda quer ver-me morto?” ecoou-lhe nos pensamentos. “Se achas que sou assim tão mau, porque é que ainda aqui andas atrás de mim?”
O anjo finalmente olhou para ele. “Não é pelos teus belos olhos. Por mim tinhas morrido durante os treinos para caçador. Lembras-te do acidente com a garrafa de lixívia?”
“Fostes tu?” Isso explicava algumas coisas, principalmente como é que entre cinco homens adultos nem um se tinha apercebido que a garrafa estava cheia de lixívia e não agua.
“Não. Mas não fiz nada para impedi-lo.”
Uma curiosidade mórbida dominou-lhe os pensamentos. “Eu pensava que os anjos só faziam o que Deus vos mandasse.”
“Tu pensas que Deus fica contente por andares a matar os filhos d'Ele só porque não são humanos como tu.”
“Os metamorfos são criaturas do diabo.”
“Pois, pois. E os anjos mijam das nuvens para fazer chover. Abre a porra dos olhos por uma vez.”
O caçador sentia-se confuso. O anjo sempre se tinha comportado... como anjo. “O que é que tens? Tu nunca disseste um palavrão que se ouvisse?”
“Fartei-me de ti.”
“Fartas-te de mim... Pelo que percebi isso não é de agora. O que é que mudou?”
“Na verdade não mudou nada. Continuas a ser o mesmo fanático estúpido de sempre. E eu continuou a não poder mudar nada em ti.”
A conversa tornara-se inquietante. “Tu tentas-te modificar-me?”
“Não te preocupes com o que eu quero. Deus não aceita que ninguém te modifique contra a tua vontade. Mesmo que sejas um merdas assassino. Mesmo que a única coisa que tragas a este mundo seja sofrimento e dor.”
“Deus deve ser sádico pelos vistos, para querer que alguém como eu exista.”
O anjo olhou para o caçador com um olhar derrotado, cansado. “Não. Se há coisa que Deus não é em absoluto, é sádico. Mas nós... todos nós... somos masoquistas. Sim. Somos todos masoquistas.”
O caçador manteve os olhos no anjo, mas um certo ar de alerta já não existia no seu olhar.
O anjo começou a suspirar, mas desistiu. Suspiros eram inúteis. Não valia a pena. “Sabes, quando nascestes tinha tantas esperanças para ti.” Aproximou-se do caçador “Vieste a este mundo com capacidade para coisas tão necessárias. E acabaste nisto. Um assassino. Um fanático. Um animal.”
O caçador não reagiu, no seu transe continuava a fumar cigarro atrás de cigarro sem perceção de tempo, sem perceção de nada.
“Eu sei que não acreditas, mas não foram os metamorfos que deram cabo da tua vida. Foste tu sozinho.”
O anjo virou-lhe as costa. A raiva que sentia era tanta que não conseguia continuar olhar-lhe a cara.
“Vou dizer-te por que prefiro ver-te morto. Metes-me nojo. Passaste a tua vida a fazeres de conta que fazes a mínima ideia de como o mundo realmente funciona, mas na realidade a única coisa que conheces é a fantasia que te venderam os outros caçadores. 'Só existe alma nos humanos.' Tretas! Achas que Deus é assim tão pouco que não possa dar alma ao que Ele bem entender. É esse o teu mal! Não suportas que Deus saiba mais que tu, que possa mais que tu. Não passas de um arrogante, de um mesquinho. Tu é que não devias ter alma!”
O anjo começou a emitir uma luz fria, escura, sem esperança. “E contudo eis-te aqui! Não só com alma, mas com permissão para pensar, para decidires por ti próprio. E que decides tu para ti próprio? Decides não decidir! Decides não pensar! Decides ser menos que um animal!”
A luz do anjo esbate-se com estas ultimas palavras. “Sabes porque é que não te posso modificar? Sabes porque não te transformo num ser humano decente? Não que não o possa fazer, mas quando pedi a Deus autorização para mudar-te o pensamento, Ele respondeu-me 'Certo. Muda-lhe o pensamento. Mas se o fizeres não te esqueças que tu próprio te vais transformar naquilo que não queres que ele seja.' É por isso que não te modifico. Porque não quero transformar-me em ti.”
Finalmente o anjo consegue voltar a olhar o caçador de frente. “Perdoa-me. Não sei se é cobardia ou sensatez, mas não me quero transformar em ti.”
O cigarro na mão do caçador ardera quase por completo. O anjo retirou-lho de entre os dedos, apagou-o e colocou a beata no cinzeiro de bolso do caçador. Seguidamente, retirou outro cigarro do maço, e cuidadosamente acendeu-o e posicionou-o entre os dedos do caçador. “Estão a chamar-me. Deus quer-me perto dele. Não te preocupes comigo. Ele não gosta que os seus anjos chorem sozinhos, sem que Ele os possa abraçar.” O anjo desapareceu sem luzes milagrosas ou efeitos especiais. Simplesmente deixou de estar.
O caçador estremeceu. “Será que adormeci?” Proclamou somente em pensamento para si mesmo. Falar sem necessidade era um erro, e o caçador já não cometia erros. Pelo menos já não cometia esse erro em particular.
Estou velho para isto.” Continuou no seu monólogo interno pegando na pá e abrindo o primeiro saco do lixo. Uma pazada de corpo triturado para dentro do buraco. Uma pazada de terra para dentro do buraco.
Deviam por os maçaricos a fazer isto.” Mas logo de seguida lembrou-se de como era importante ninguém descobrir onde os corpos eram escondidos. Realmente não era serviço para maçaricos a cheirar a leite.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Contos Tradicionais dos Lobisomens: A roupa bonita do homem


Em tempos tão antigos que até o tempo era novo, aconteceu um dia os animais começarem a discutir entre si de qual deles seria a roupagem mais bela.
Dizia a loba que o seu pelo era não só bonito, como era acolhedor no inverno e leve no verão.
Respondia a ovelha que nada havia mais belo e suave que a brancura da sua lã.
A águia argumentava que mais belo que as suas penas só o facto de a fazerem voar.
Ria-se a cobra que os seus padrões de escamas batiam aos pontos tudo o resto.
Enfim, cada animal via-se como a mais bela e a mais abençoada com aquilo que as cobria, e defendiam a sua opinião com vozes cada vez mais altas.
Tanto foi o barulho, que o homem, que estava a dormir, acordou e sendo confusão o que acontecia, foi de imediato juntar-se-lhe.
Chegando o homem ao pé dos outros animais, perguntou o que se passava, ao que os outros animais responderam que discutiam qual a qual deles pertencia a roupagem mais bela. O homem olhou em redor e ficou muito contente de ver tantas roupagens tão diferentes e todas tão belas, mas então olhou para si mesmo e viu que estava nu e não apreciou que a sua pele não tivesse padrões, que o seu pelo não o cobrisse e não fosse tão belo como a lã ou as penas.
Enchendo-se de inveja, afastou-se dos outros animais e decidiu remediar aquilo que encarava como uma ofensa que lhe tinha sido feita. Começou a colher flores, plantas, pedras, conchas e todas as coisas bonitas que os seus olhos vissem, e com elas fez uma roupa que considerou a mais bela roupagem de todas. Terminando a sua nova roupa bonita, vestiu-a e foi-se mostrar aos outros animais.
Chegando ao pé dos outros animais, começou de imediato a gabar-se da sua roupagem e de como esta era mais bela do que qualquer outra. O problema foi que os animas não sabiam muito bem o que pensar da roupa do homem, pois tinha tanta coisa misturada, que não se percebia o que era o quê e até nem se conseguia perceber se era uma roupagem bonita ou feia.
Como os animais não lhe contestavam primazia da sua roupa entre todas as roupagens, visto que não conseguiam perceber o que era aquilo, o homem começou a dançar e a pular certo de que todos consideravam a sua roupagem a mais bela. Tanto pulou, tanto dançou, tanto rodopiou, que não viu que se aproximava do rio, e tão pouca atenção prestava ao que fazia que acabou por cair lá dentro.
Acontece que a roupa do homem era tão pesada que ele não conseguia nadar para salvar-se e começou a gritar por ajuda. A loba, que normalmente era quem prestava atenção aos desvarios do homem, foi ver o que se passava, e olhando o homem preste a afogar-se, gritou-lhe que largasse a roupa que o puxava para o fundo do rio.
O homem respondia que a loba estava era com inveja da sua roupa bonita e que por isso queria que ele a perdesse. A loba insistia com o homem para que largasse a roupa que o afogava, mas o homem não queria. Por fim, farta da teimosia do homem, a loba pediu aos cágados do rio que comessem os fios da roupa do homem, para que assim o resto se soltasse e o homem se salvasse.
Assim foi feito pelos peixes e pelos cágados e o homem lá conseguiu sair de dentro de agua. Contudo, vinha muito cabisbaixo, pois via que a loba mais uma vez tinha razão naquilo que lhe aconselhava.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Contos Tradicionais dos Lobisomens: O juramento do homem

Em tempos que já lá vão aconteceu um dia de se encontrarem no mesmo abrigo durante uma noite chuvosa o lobo, o raposo e o homem.
Começaram o lobo e o homem a discutir que iriam caçar para comer, mas o raposo nada disse. Como não conseguiram combinar o que caçariam, foi lobo para um lado e o homem para o outro e o raposo deixou-se ficar, dizendo que ficaria de vigia e que não se preocupassem com ele, pois não sentia fome.
Regressando o homem em primeiro lugar com o que comer, logo tomou atenção para não cair nas artimanhas do raposo, que era por demais conhecido pelas suas partidas e gatunices.
Chegando o lobo com o que tinha caçado, logo o raposo o enganou e ficou-lhe com a carne. Apercebendo-se que tinha sido enganado, o lobo lutou com o raposo e após umas mordelas e dentadas, recuperou a carne, e de imediato a partilhou com o raposo.
Ao assistir a isto o homem ficou muito confuso e perguntou ao lobo, “Porque partilhas a tua carne com quem te roubou?” Ao que o lobo respondeu “Porque o raposo é melhor forte que eu.”
O homem não entendeu nada e perguntou ao raposo, “Porque aceitas a ajuda de quem te derrotou?” Ao que o raposo respondeu “Porque o lobo é melhor esperto do que eu.”
O homem então ficou realmente confuso com o que ouvia e implorou ao lobo e ao raposo que lhe explicassem o que lhe tinham respondido. Mas o lobo e o raposo nada mais disseram e ficaram muito tristes, pois sabiam que o homem era incapaz de compreender o que eles estavam a falar.
O homem realmente não entendia e começou a oferecer ao lobo e ao raposo tudo quanto lhe pertencia para que estes lhe respondessem. Mas nada daquilo que pertencia ao homem interessava quer ao lobo, quer ao raposo.
Tanto insistiu o homem, que por fim o lobo disse-lhe “Nada tens de teu que me interesse, mas se jurares pelo Pai de Todos que me darás o que quer que eu te peça no futuro, pedirei ao Pai de Todos que te faça entender as nossas palavras.”
O homem estava tão desesperado por entender que aceitou fazer uma promessa de tal gravidade, e após o lobo ter chamado o Pai de Todos como testemunha, o homem jurou que entregaria ao lobo o que quer que este lhe pedisse no futuro. O Pai de Todos testemunhou a promessa do homem e deu-lhe o entendimento necessário para perceber as respostas do lobo e do raposo.
E então explicou o lobo, “O raposo é melhor forte do que eu, porque eu só sei usar a minha força para lutar e o raposo faz muitas coisas com a sua força.”
E continuou o raposo, “O lobo é melhor esperto do que eu, porque eu só sei usar a minha inteligência para enganar e roubar, e o lobo consegue pensar e criar muitas coisas.”

Finalmente o homem entendeu, mas de vez em quando esquecia-se das palavras do lobo e do raposo e só sabia usar a sua força para lutar e a sua esperteza para enganar. Contudo o juramento que fez, cumpriu, e muito perdeu e muito ganhou.