Durante muito tempo os lobos não exigiram que os homens
cumprissem o juramento do primeiro homem ao primeiro lobo, mas
aconteceu um dia que os homens e os lobos de uma terra distante
começaram a guerrear entre si. Tão feroz foi a luta que por fim só
sobrou um homem e uma loba.
Quando a loba se apercebeu que estava sozinha muito se enfureceu e
decidiu invocar o castigo do Pai sobre o homem, mas o Pai ao ouvir o
que a loba lhe pedia, respondeu-lhe que somente o culpado deseja o
castigo do culpado. Não compreendendo o que lhe era dito, ainda mais
se irou a loba, mas não conseguia imaginar como se vingaria do
homem.
Lembrou-se então do juramento do primeiro homem e pediu-lhe o
seguinte: como ela estava sozinha devia o homem ser o pai de uma
ninhada de lobinhos. Ao ouvir tal pedido, tanto se encolerizou o
homem que nem sequer pensou no que dizia e, invocando o Pai, renegou
o seu juramento.
Ora como é sabido, a palavra dada é para ser cumprida, e tendo
sido o Pai testemunha do juramento, logo ali lançou a Morte sobre o
homem por ter renegado a palavra dada.
De seguida lançou o Pai a sua Justiça sobre a loba e proclamou:
“Pedis-te a teu irmão que cumprisse com algo com que ele nunca
seria capaz de cumprir. O homem renegou a sua palavra e por esse
motivo recebeu de mim o devido castigo. Tu corrompeste a minha
vontade ao pedires ao homem uma coisa impossível. Será teu castigo
que não entenderão mais os homens aos lobos. e que por esse motivo
perseguirão os homens aos lobos, e os matarão.”
A loba ficou horrorizada, pois nunca imaginara um castigo tão
cruel, e chorou aos pés do Pai a pedir-lhe perdão. Tanto era o seu
arrependimento, que se compadeceu o Pai das suas lágrimas e decidiu
alterar a sua sentença: “Não entenderão os homens aos lobos, mas
se algum homem aprender a amar aos lobos, será capaz de os entender
e de ensinar os homens seus irmãos a novamente entender aos lobos.
Contudo, até isso acontecer, serão os lobos perseguidos pelos
homens e não considerarei culpado de crime de sangue nenhum homem
que mate a um lobo.”
“Mas para que mais cedo chegue esse homem, concedo-te a seguinte
prova: se comeres a carne deste homem que renegou a palavra dada,
nascerá de ti um que será lobo e será homem. Não será ele capaz
de ensinar os homens a entender aos lobos, mas por existir serão
capazes os homens de aprender a amar aos lobos.”
“Contudo esta restrição te imponho, que até esse que é lobo
e que é homem nascer de ti, não poderás comer de mais nenhuma
carne, pois se assim o fizeres, ele se tornará em maldição e te
consumirá de dentro para fora até nada restar de ti. E para que
aprendas a contenção, por mais que comas, nunca estarás satisfeita
até ao momento em que aquele que é lobo e que é homem nascer.”
E assim foi, a loba começou a comer a carne do homem, mas sendo
um homem maior que uma loba, comeu a loba o homem inteiro e com mais
fome ficou. Recordando-se das palavras do Pai, não comeu a loba de
mais nenhuma carne, mas nada do que bebesse ou comesse lhe aliviava a
fome que sentia.
Longa, muito longa foi a prenhez da loba. Muitas vezes a prenhez
dos lobos. Muitas vezes a prenhez dos homens. Mais longa pareceu à
loba a sua prenhez, pois somente pior que a fome que sentia era a
solidão que tinha por única companhia.
Por fim, apôs muitas e muitas estações, sentiu a loba que era o
momento de dar à luz, e logo se recolheu à sua toca para que assim
fosse. Nasceu então o mais belo lobinho que alguma vez tinha sido
enviado ao mundo, e disso muito se agradou a loba, pois não sabia se
este haveria de nascer lobo ou nascer homem. E como nasceu lobo, como
lobo e criou e como lobo o ensinou. Mas não lhe ensinou nada acerca
dos homens.
E durante uns tempos foram a loba e o lobinho muito felizes, mas
na estação em que o lobinho se tornou lobo adulto, regressaram os
homens àquela terra, e assim foi que pela primeira vez viu o lobo a
um homem.
Perguntou o lobo à loba que criaturas eram aquelas e por que nada
acerca delas lhe tinha ela o ensinado. Percebeu logo a loba que tinha
feito um grande mal ao lobo ao não lhe ensinar tudo o que havia
neste mundo para aprender, e foi de cabeça baixa que lhe contou tudo
acerca dos homens e de como o lobo tinha sido gerado.
Muito se inquietou o lobo ao escutar tais coisas, pois sempre
acreditara ser uma coisa, e agora lhe diziam que era outra, e nessa
inquietação sentiu-se muito traído pela loba. No entanto, o Pai
mantinha-se muito atento àquilo que à loba e ao lobo dizia
respeito, e vendo o que sucedia, de imediato surgiu ao lobo e lhe
explicou como as coisas realmente eram. Mas mesmo sabendo a verdade,
o lobo continuava a sentir-se muito desgostoso. Disse-lhe então o
Pai: “Irás correr o mundo, e será tua recompensa aprenderes tudo
o que há para aprender. Todas as terras te pronunciarão como filho,
mas a nenhuma terra chamarás de tua. Como já sabes ser lobo, serás
agora ensinado a ser homem, e quando souberes ser homem por completo,
te darei irmãos e irmãos, filhos e filhas e nunca mais estarás
só.”
E desta maneira começou o lobo a percorrer o mundo e a aprender
tudo aquilo que nele havia para aprender. Mas diz-se que só aprendeu
a ser homem por completo quando depois de muito andar se encontrou
com o Rei Que Não O Era e este lhe testemunhou todas as tontices de
que um homem é capaz.
O que é então "Lobisomens - O Passado É Para Esquecer"? De uma forma simples é o mundo onde os meus lobisomens vão viver as suas vidas. Ainda não sei tudo acerca deste mundo, sei que os lobisomens são reais lá. Sei que humanos sabem que os lobisomens existem e sabem quem eles são. Sei que esse mundo está a mudar. Sei que esse mundo é muito parecido ao nosso. Sei que os demónios desse mundo são os mesmos do nosso: ódio, ganancia, medo.
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