sábado, 14 de fevereiro de 2015

Contos Tradicionais dos Lobisomens: O Primeiro Lobisomem

Durante muito tempo os lobos não exigiram que os homens cumprissem o juramento do primeiro homem ao primeiro lobo, mas aconteceu um dia que os homens e os lobos de uma terra distante começaram a guerrear entre si. Tão feroz foi a luta que por fim só sobrou um homem e uma loba.
Quando a loba se apercebeu que estava sozinha muito se enfureceu e decidiu invocar o castigo do Pai sobre o homem, mas o Pai ao ouvir o que a loba lhe pedia, respondeu-lhe que somente o culpado deseja o castigo do culpado. Não compreendendo o que lhe era dito, ainda mais se irou a loba, mas não conseguia imaginar como se vingaria do homem.
Lembrou-se então do juramento do primeiro homem e pediu-lhe o seguinte: como ela estava sozinha devia o homem ser o pai de uma ninhada de lobinhos. Ao ouvir tal pedido, tanto se encolerizou o homem que nem sequer pensou no que dizia e, invocando o Pai, renegou o seu juramento.
Ora como é sabido, a palavra dada é para ser cumprida, e tendo sido o Pai testemunha do juramento, logo ali lançou a Morte sobre o homem por ter renegado a palavra dada.
De seguida lançou o Pai a sua Justiça sobre a loba e proclamou: “Pedis-te a teu irmão que cumprisse com algo com que ele nunca seria capaz de cumprir. O homem renegou a sua palavra e por esse motivo recebeu de mim o devido castigo. Tu corrompeste a minha vontade ao pedires ao homem uma coisa impossível. Será teu castigo que não entenderão mais os homens aos lobos. e que por esse motivo perseguirão os homens aos lobos, e os matarão.”
A loba ficou horrorizada, pois nunca imaginara um castigo tão cruel, e chorou aos pés do Pai a pedir-lhe perdão. Tanto era o seu arrependimento, que se compadeceu o Pai das suas lágrimas e decidiu alterar a sua sentença: “Não entenderão os homens aos lobos, mas se algum homem aprender a amar aos lobos, será capaz de os entender e de ensinar os homens seus irmãos a novamente entender aos lobos. Contudo, até isso acontecer, serão os lobos perseguidos pelos homens e não considerarei culpado de crime de sangue nenhum homem que mate a um lobo.”
“Mas para que mais cedo chegue esse homem, concedo-te a seguinte prova: se comeres a carne deste homem que renegou a palavra dada, nascerá de ti um que será lobo e será homem. Não será ele capaz de ensinar os homens a entender aos lobos, mas por existir serão capazes os homens de aprender a amar aos lobos.”
“Contudo esta restrição te imponho, que até esse que é lobo e que é homem nascer de ti, não poderás comer de mais nenhuma carne, pois se assim o fizeres, ele se tornará em maldição e te consumirá de dentro para fora até nada restar de ti. E para que aprendas a contenção, por mais que comas, nunca estarás satisfeita até ao momento em que aquele que é lobo e que é homem nascer.”
E assim foi, a loba começou a comer a carne do homem, mas sendo um homem maior que uma loba, comeu a loba o homem inteiro e com mais fome ficou. Recordando-se das palavras do Pai, não comeu a loba de mais nenhuma carne, mas nada do que bebesse ou comesse lhe aliviava a fome que sentia.
Longa, muito longa foi a prenhez da loba. Muitas vezes a prenhez dos lobos. Muitas vezes a prenhez dos homens. Mais longa pareceu à loba a sua prenhez, pois somente pior que a fome que sentia era a solidão que tinha por única companhia.
Por fim, apôs muitas e muitas estações, sentiu a loba que era o momento de dar à luz, e logo se recolheu à sua toca para que assim fosse. Nasceu então o mais belo lobinho que alguma vez tinha sido enviado ao mundo, e disso muito se agradou a loba, pois não sabia se este haveria de nascer lobo ou nascer homem. E como nasceu lobo, como lobo e criou e como lobo o ensinou. Mas não lhe ensinou nada acerca dos homens.
E durante uns tempos foram a loba e o lobinho muito felizes, mas na estação em que o lobinho se tornou lobo adulto, regressaram os homens àquela terra, e assim foi que pela primeira vez viu o lobo a um homem.
Perguntou o lobo à loba que criaturas eram aquelas e por que nada acerca delas lhe tinha ela o ensinado. Percebeu logo a loba que tinha feito um grande mal ao lobo ao não lhe ensinar tudo o que havia neste mundo para aprender, e foi de cabeça baixa que lhe contou tudo acerca dos homens e de como o lobo tinha sido gerado.
Muito se inquietou o lobo ao escutar tais coisas, pois sempre acreditara ser uma coisa, e agora lhe diziam que era outra, e nessa inquietação sentiu-se muito traído pela loba. No entanto, o Pai mantinha-se muito atento àquilo que à loba e ao lobo dizia respeito, e vendo o que sucedia, de imediato surgiu ao lobo e lhe explicou como as coisas realmente eram. Mas mesmo sabendo a verdade, o lobo continuava a sentir-se muito desgostoso. Disse-lhe então o Pai: “Irás correr o mundo, e será tua recompensa aprenderes tudo o que há para aprender. Todas as terras te pronunciarão como filho, mas a nenhuma terra chamarás de tua. Como já sabes ser lobo, serás agora ensinado a ser homem, e quando souberes ser homem por completo, te darei irmãos e irmãos, filhos e filhas e nunca mais estarás só.”

E desta maneira começou o lobo a percorrer o mundo e a aprender tudo aquilo que nele havia para aprender. Mas diz-se que só aprendeu a ser homem por completo quando depois de muito andar se encontrou com o Rei Que Não O Era e este lhe testemunhou todas as tontices de que um homem é capaz.

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