segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Playlist: Livre Arbítrio


Inspirado por:
Titulo: Konzert für 4 Violinen op3 No1 d-dur RV549, II, Largo e spiccato
Autor: Vivaldi
Ano: 1711
Interpretes: The English Conzert ; Trevor Pinnock;

aviso: temas chocantes; linguagem forte e agressiva;
republicado com ligeiras alterações em 9 de fevereiro de 2015

Frio. Húmido. Cansado. Mas o que restava do corpo tinha de ser enterrado na mesma. Ele odiava realmente o serviço de limpeza.
A cova estava aberta. Um buraco mais ou menos arredondado no meio de nenhures. As plantas, as pedras, os troncos, o que quer que fosse que anteriormente ocupasse o espaço onde o buraco tinha sido cavado tinham sido cuidadosamente retiradas do seu lugar e postas de parte, para regressarem ao seu lugar no fim do processo, a camuflagem perfeita. A terra escavada empilhada numa lona para não deixar vestígios visíveis.
O caçador tinha parado para fumar um cigarro, ocultando a ponta acesa com a mão, não fosse alguém ver algo brilhante ao longe. Um cinzeiro de bolsa encarregar-se-ia das beatas. Nada ficava para trás. O pensamento de que os ecologistas ficariam orgulhosos da maneira como ele passava pela natureza divertiu-o por uns momentos.
Uma brisa um pouco mais agreste infiltrou-se-lhe pelo colarinho da camisa e gelou-lhe as costas. Era aquela hora mesmo antes da alvorada, a hora mais fria de todas, e o caçador odiava-a.
Olhou por momentos para os sacos do lixo onde onde os pedaços moídos do metamorfo tinham sido enfiados. “Nem mesmo mortos servem para nada!” proclamou somente em pensamento para si mesmo. Falar sem necessidade era um erro, e o caçador já não cometia erros. Pelo menos já não cometia esse erro em particular.
Fixou um olhar desconsolado nos sacos, na pá, na terra empilhada, no buraco que era necessário voltar a encher. Decidiu acender outro cigarro.
“Cá estamos nós outra vez então.”
Apesar de um momento antes não estar mais ninguém presente, o caçador nem sequer se sobressaltou. A voz era conhecida. O tédio na voz era recente, mas não uma novidade.
“Pelos menos sabes quem era?”
O caçador não respondeu. Deixou-se estar a fumar o seu cigarro, enquanto a figura que falava o rodeou de maneira a poder olhar melhor os sacos do lixo. Deixá-lo ver. Deixá-lo falar. Afinal de contas mais ninguém o via. Mais ninguém o ouvia.
“Triturar os corpos é cruel. As famílias nem sequer ficam com nada para fazer o luto.”
As palavras já tinham sido repetidas tantas vezes, que já não eram sequer ouvidas, de certa forma ignorar o anjo e as suas denúncias faziam tão parte do processo como o cavar do buraco ou o frio daquela hora antes da alvorada.
“Pelo menos sabes por que é que fazes isto?”
Blá. Blá. Blá. Ruído de fundo. Apetecia-lhe fumar outro cigarro, mas o dever chamava-o.
“É nestas alturas que me apetece fumar um cigarro, mas cancro do pulmão é uma maneira irónica de se morrer para quem nunca fumou.”
Isto... Isto era novo...
“Sabes se era homem ou mulher?”
“Era um sacana de um metamorfo. Fêmea. Só as humanas é que são mulheres.”
“Pois... Desculpa lá. Esqueci-me das tretas do costume dos caçadores.”
O caçador prestou atenção ao anjo. Qualquer coisa estava diferente. O que seria?
“Sabes que vais morrer em breve?”
“Não esperava ficar cá para semente.” Mas que raio quereria o anjo com uma conversa destas? Normalmente ficava-se pelo jogo da culpa, e do bem e do mal.
O anjo manteve-se fixado nos sacos do lixo. “Pedi para acabarem contigo mais cedo, mas disseram que ainda tinhas de fazer qualquer coisa por cá. É claro que não se dignaram a dizer-me a mim o que é, afinal sou só o teu anjo da guarda. Sou só anjinho pelos vistos.”
Isto era perturbante. “O meu anjo da guarda quer ver-me morto?” ecoou-lhe nos pensamentos. “Se achas que sou assim tão mau, porque é que ainda aqui andas atrás de mim?”
O anjo finalmente olhou para ele. “Não é pelos teus belos olhos. Por mim tinhas morrido durante os treinos para caçador. Lembras-te do acidente com a garrafa de lixívia?”
“Fostes tu?” Isso explicava algumas coisas, principalmente como é que entre cinco homens adultos nem um se tinha apercebido que a garrafa estava cheia de lixívia e não agua.
“Não. Mas não fiz nada para impedi-lo.”
Uma curiosidade mórbida dominou-lhe os pensamentos. “Eu pensava que os anjos só faziam o que Deus vos mandasse.”
“Tu pensas que Deus fica contente por andares a matar os filhos d'Ele só porque não são humanos como tu.”
“Os metamorfos são criaturas do diabo.”
“Pois, pois. E os anjos mijam das nuvens para fazer chover. Abre a porra dos olhos por uma vez.”
O caçador sentia-se confuso. O anjo sempre se tinha comportado... como anjo. “O que é que tens? Tu nunca disseste um palavrão que se ouvisse?”
“Fartei-me de ti.”
“Fartas-te de mim... Pelo que percebi isso não é de agora. O que é que mudou?”
“Na verdade não mudou nada. Continuas a ser o mesmo fanático estúpido de sempre. E eu continuou a não poder mudar nada em ti.”
A conversa tornara-se inquietante. “Tu tentas-te modificar-me?”
“Não te preocupes com o que eu quero. Deus não aceita que ninguém te modifique contra a tua vontade. Mesmo que sejas um merdas assassino. Mesmo que a única coisa que tragas a este mundo seja sofrimento e dor.”
“Deus deve ser sádico pelos vistos, para querer que alguém como eu exista.”
O anjo olhou para o caçador com um olhar derrotado, cansado. “Não. Se há coisa que Deus não é em absoluto, é sádico. Mas nós... todos nós... somos masoquistas. Sim. Somos todos masoquistas.”
O caçador manteve os olhos no anjo, mas um certo ar de alerta já não existia no seu olhar.
O anjo começou a suspirar, mas desistiu. Suspiros eram inúteis. Não valia a pena. “Sabes, quando nascestes tinha tantas esperanças para ti.” Aproximou-se do caçador “Vieste a este mundo com capacidade para coisas tão necessárias. E acabaste nisto. Um assassino. Um fanático. Um animal.”
O caçador não reagiu, no seu transe continuava a fumar cigarro atrás de cigarro sem perceção de tempo, sem perceção de nada.
“Eu sei que não acreditas, mas não foram os metamorfos que deram cabo da tua vida. Foste tu sozinho.”
O anjo virou-lhe as costa. A raiva que sentia era tanta que não conseguia continuar olhar-lhe a cara.
“Vou dizer-te por que prefiro ver-te morto. Metes-me nojo. Passaste a tua vida a fazeres de conta que fazes a mínima ideia de como o mundo realmente funciona, mas na realidade a única coisa que conheces é a fantasia que te venderam os outros caçadores. 'Só existe alma nos humanos.' Tretas! Achas que Deus é assim tão pouco que não possa dar alma ao que Ele bem entender. É esse o teu mal! Não suportas que Deus saiba mais que tu, que possa mais que tu. Não passas de um arrogante, de um mesquinho. Tu é que não devias ter alma!”
O anjo começou a emitir uma luz fria, escura, sem esperança. “E contudo eis-te aqui! Não só com alma, mas com permissão para pensar, para decidires por ti próprio. E que decides tu para ti próprio? Decides não decidir! Decides não pensar! Decides ser menos que um animal!”
A luz do anjo esbate-se com estas ultimas palavras. “Sabes porque é que não te posso modificar? Sabes porque não te transformo num ser humano decente? Não que não o possa fazer, mas quando pedi a Deus autorização para mudar-te o pensamento, Ele respondeu-me 'Certo. Muda-lhe o pensamento. Mas se o fizeres não te esqueças que tu próprio te vais transformar naquilo que não queres que ele seja.' É por isso que não te modifico. Porque não quero transformar-me em ti.”
Finalmente o anjo consegue voltar a olhar o caçador de frente. “Perdoa-me. Não sei se é cobardia ou sensatez, mas não me quero transformar em ti.”
O cigarro na mão do caçador ardera quase por completo. O anjo retirou-lho de entre os dedos, apagou-o e colocou a beata no cinzeiro de bolso do caçador. Seguidamente, retirou outro cigarro do maço, e cuidadosamente acendeu-o e posicionou-o entre os dedos do caçador. “Estão a chamar-me. Deus quer-me perto dele. Não te preocupes comigo. Ele não gosta que os seus anjos chorem sozinhos, sem que Ele os possa abraçar.” O anjo desapareceu sem luzes milagrosas ou efeitos especiais. Simplesmente deixou de estar.
O caçador estremeceu. “Será que adormeci?” Proclamou somente em pensamento para si mesmo. Falar sem necessidade era um erro, e o caçador já não cometia erros. Pelo menos já não cometia esse erro em particular.
Estou velho para isto.” Continuou no seu monólogo interno pegando na pá e abrindo o primeiro saco do lixo. Uma pazada de corpo triturado para dentro do buraco. Uma pazada de terra para dentro do buraco.
Deviam por os maçaricos a fazer isto.” Mas logo de seguida lembrou-se de como era importante ninguém descobrir onde os corpos eram escondidos. Realmente não era serviço para maçaricos a cheirar a leite.

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