Inspirado por:
Titulo: Konzert für 4 Violinen op3
No1 d-dur RV549, II, Largo e spiccato
Autor: Vivaldi
Ano: 1711
Interpretes: The English Conzert ;
Trevor Pinnock;
aviso: temas chocantes; linguagem
forte e agressiva;
republicado com ligeiras alterações em 9 de fevereiro de 2015
Frio.
Húmido. Cansado. Mas o que
restava do corpo tinha de ser
enterrado na mesma. Ele odiava realmente o serviço de limpeza.
A cova
estava aberta. Um buraco mais ou menos arredondado no meio de
nenhures. As plantas, as pedras, os troncos, o que quer que fosse que
anteriormente ocupasse o
espaço onde o buraco tinha sido cavado tinham sido cuidadosamente
retiradas do seu lugar e postas de parte, para regressarem ao seu
lugar no fim do processo, a camuflagem perfeita. A terra escavada
empilhada numa lona para não deixar vestígios visíveis.
O caçador tinha
parado para fumar um cigarro, ocultando a ponta acesa com a mão, não
fosse alguém ver algo brilhante ao longe. Um cinzeiro de bolsa
encarregar-se-ia das beatas. Nada ficava para trás. O pensamento de
que os ecologistas ficariam orgulhosos da maneira como ele passava
pela natureza divertiu-o por uns momentos.
Uma brisa um pouco
mais agreste infiltrou-se-lhe pelo colarinho da camisa e gelou-lhe as
costas. Era aquela hora mesmo antes da alvorada, a hora mais fria de
todas, e o caçador odiava-a.
Olhou
por momentos para os sacos do lixo onde onde os pedaços moídos do
metamorfo tinham sido enfiados. “Nem mesmo mortos servem
para nada!” proclamou somente
em pensamento para si mesmo. Falar sem necessidade era um erro, e o
caçador já não cometia erros. Pelo menos já não cometia esse
erro em particular.
Fixou um olhar
desconsolado nos sacos, na pá, na terra empilhada, no buraco que era
necessário voltar a encher. Decidiu acender outro cigarro.
“Cá
estamos nós outra vez então.”
Apesar de um
momento antes não estar mais ninguém presente, o caçador nem
sequer se sobressaltou. A voz era conhecida. O tédio na voz era
recente, mas não uma novidade.
“Pelos menos
sabes quem era?”
O caçador não
respondeu. Deixou-se estar a fumar o seu cigarro, enquanto a figura
que falava o rodeou de maneira a poder olhar melhor os sacos do lixo.
Deixá-lo ver. Deixá-lo falar. Afinal de contas mais ninguém o via.
Mais ninguém o ouvia.
“Triturar
os corpos é cruel. As famílias nem sequer ficam com nada para fazer
o luto.”
As
palavras já tinham sido repetidas tantas vezes, que já não eram
sequer ouvidas, de certa forma ignorar o anjo e as suas denúncias
faziam tão parte do processo como o cavar do buraco ou o frio
daquela hora antes da alvorada.
“Pelo menos sabes
por que é que fazes isto?”
Blá. Blá. Blá.
Ruído de fundo. Apetecia-lhe fumar outro cigarro, mas o dever
chamava-o.
“É
nestas alturas que me apetece fumar um cigarro, mas cancro do pulmão
é uma maneira irónica de se morrer para quem nunca fumou.”
Isto... Isto era
novo...
“Sabes
se era homem ou mulher?”
“Era
um sacana de um metamorfo. Fêmea. Só as humanas é que são
mulheres.”
“Pois...
Desculpa lá. Esqueci-me das tretas do costume dos caçadores.”
O caçador prestou
atenção ao anjo. Qualquer coisa estava diferente. O que seria?
“Sabes que vais
morrer em breve?”
“Não esperava
ficar cá para semente.” Mas que raio quereria o anjo com uma
conversa destas? Normalmente ficava-se pelo jogo da culpa, e do bem e
do mal.
O anjo manteve-se
fixado nos sacos do lixo. “Pedi para acabarem contigo mais cedo,
mas disseram que ainda tinhas de fazer qualquer coisa por cá. É
claro que não se dignaram a dizer-me a mim o que é, afinal sou só
o teu anjo da guarda. Sou só anjinho pelos vistos.”
Isto
era perturbante. “O meu anjo da guarda quer ver-me
morto?” ecoou-lhe nos
pensamentos. “Se achas que sou assim tão mau, porque é que ainda
aqui andas atrás de mim?”
O anjo finalmente
olhou para ele. “Não é pelos teus belos olhos. Por mim tinhas
morrido durante os treinos para caçador. Lembras-te do acidente com
a garrafa de lixívia?”
“Fostes tu?”
Isso explicava algumas coisas, principalmente como é que entre cinco
homens adultos nem um se tinha apercebido que a garrafa estava cheia
de lixívia e não agua.
“Não.
Mas não fiz nada para impedi-lo.”
Uma
curiosidade mórbida dominou-lhe os pensamentos. “Eu pensava que os
anjos só faziam o que Deus vos mandasse.”
“Tu pensas que
Deus fica contente por andares a matar os filhos d'Ele só porque não
são humanos como tu.”
“Os metamorfos
são criaturas do diabo.”
“Pois, pois. E os
anjos mijam das nuvens para fazer chover. Abre a porra dos olhos por
uma vez.”
O caçador
sentia-se confuso. O anjo sempre se tinha comportado... como anjo. “O
que é que tens? Tu nunca disseste um palavrão que se ouvisse?”
“Fartei-me de
ti.”
“Fartas-te de
mim... Pelo que percebi isso não é de agora. O que é que mudou?”
“Na
verdade não mudou nada. Continuas a ser o mesmo fanático estúpido
de sempre. E eu continuou a não poder mudar nada em ti.”
A conversa
tornara-se inquietante. “Tu tentas-te modificar-me?”
“Não te
preocupes com o que eu quero. Deus não aceita que ninguém te
modifique contra a tua vontade. Mesmo que sejas um merdas assassino.
Mesmo que a única coisa que tragas a este mundo seja sofrimento e
dor.”
“Deus deve ser
sádico pelos vistos, para querer que alguém como eu exista.”
O anjo olhou para o
caçador com um olhar derrotado, cansado. “Não. Se há coisa que
Deus não é em absoluto, é sádico. Mas nós... todos nós... somos
masoquistas. Sim. Somos todos masoquistas.”
O caçador manteve
os olhos no anjo, mas um certo ar de alerta já não existia no seu
olhar.
O anjo começou a
suspirar, mas desistiu. Suspiros eram inúteis. Não valia a pena.
“Sabes, quando nascestes tinha tantas esperanças para ti.”
Aproximou-se do caçador “Vieste a este mundo com capacidade para
coisas tão necessárias. E acabaste nisto. Um assassino. Um
fanático. Um animal.”
O caçador não
reagiu, no seu transe continuava a fumar cigarro atrás de cigarro
sem perceção de tempo, sem perceção de nada.
“Eu
sei que não acreditas, mas não foram os metamorfos que deram cabo
da tua vida. Foste tu sozinho.”
O anjo virou-lhe as
costa. A raiva que sentia era tanta que não conseguia continuar
olhar-lhe a cara.
“Vou dizer-te por
que prefiro ver-te morto. Metes-me nojo. Passaste a tua vida a
fazeres de conta que fazes a mínima ideia de como o mundo realmente
funciona, mas na realidade a única coisa que conheces é a fantasia
que te venderam os outros caçadores. 'Só existe alma nos humanos.'
Tretas! Achas que Deus é assim tão pouco que não possa dar alma ao
que Ele bem entender. É esse o teu mal! Não suportas que Deus saiba
mais que tu, que possa mais que tu. Não passas de um arrogante, de
um mesquinho. Tu é que não devias ter alma!”
O anjo começou a
emitir uma luz fria, escura, sem esperança. “E contudo eis-te
aqui! Não só com alma, mas com permissão para pensar, para
decidires por ti próprio. E que decides tu para ti próprio? Decides
não decidir! Decides não pensar! Decides ser menos que um animal!”
A luz do anjo
esbate-se com estas ultimas palavras. “Sabes porque é que não te
posso modificar? Sabes porque não te transformo num ser humano
decente? Não que não o possa fazer, mas quando pedi a Deus
autorização para mudar-te o pensamento, Ele respondeu-me 'Certo.
Muda-lhe o pensamento. Mas se o fizeres não te esqueças que tu
próprio te vais transformar naquilo que não queres que ele seja.' É
por isso que não te modifico. Porque não quero transformar-me em
ti.”
Finalmente o anjo
consegue voltar a olhar o caçador de frente. “Perdoa-me. Não sei
se é cobardia ou sensatez, mas não me quero transformar em ti.”
O
cigarro na mão do caçador ardera
quase por completo. O anjo
retirou-lho de entre os dedos, apagou-o e colocou a beata no cinzeiro
de bolso do caçador. Seguidamente, retirou outro cigarro do maço, e
cuidadosamente acendeu-o e posicionou-o entre os dedos do caçador.
“Estão a chamar-me. Deus quer-me perto dele. Não te preocupes
comigo. Ele não gosta que os seus anjos chorem sozinhos, sem que Ele
os possa abraçar.” O anjo
desapareceu sem luzes milagrosas ou efeitos especiais. Simplesmente
deixou de estar.
O
caçador estremeceu. “Será que adormeci?”
Proclamou somente em
pensamento para si mesmo. Falar sem necessidade era um erro, e o
caçador já não cometia erros. Pelo menos já não cometia esse
erro em particular.
“Estou velho para isto.”
Continuou no seu monólogo interno pegando na pá e abrindo o
primeiro saco do lixo. Uma pazada de corpo triturado para dentro do
buraco. Uma pazada de terra para dentro do buraco.
“Deviam por os maçaricos a fazer
isto.” Mas logo de
seguida lembrou-se de como era importante ninguém descobrir onde os
corpos eram escondidos. Realmente não era serviço para maçaricos a
cheirar a leite.
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