Quando o mundo ainda era novo, todos cumpriam com aquilo para com
que tinham sido criados e dessa forma havia equilíbrio no mundo.
Ninguém se recusava a ser o que era. Ninguém, exceto o homem,
que por sua natureza nunca estava satisfeito, e por isso mesmo, era
como era suposto ser.
Aconteceu um dia que a loba e o lobo desentenderam-se por causa de
algo tão comezinho que nem eles próprios conseguiam recordar o que
tinha sido. A verdade era que tão grande era o desentendimento entre
eles, que já nem lhes interessava quem tinha razão ou não, desde
que o outro estivesse errado.
Os outros animais não sabiam bem o que pensar da guerra dos
lobos, pois não conseguiam sequer perceber porque razão lutavam tão
ferozmente entre si.
Tão grande era a raiva que sentiam um do outro, que por fim disse
a loba ao lobo: “Vai-te de mim! Antes eternamente só, que junto a
ti!”
Muito o lobo se ofendeu com tais palavras e decidiu ir mesmo à
sua vida.
Remoendo as suas ofensas lá foi o lobo, e por algum tempo andou
sozinho. Mas como bem é sabido, não foram os lobos criados para ser
solitários, pelo que apôs algum tempo quis o lobo voltar a viver em
companhia de alguém. O problema é que todos os animais já estavam
emparelhados, até o homem, e como o lobo não queria regressar à
loba, não descortinava a maneira de voltar a ficar acompanhado.
Pôs-se o lobo a pensar no que havia de fazer e por fim lembrou-se
da promessa que o homem lhe tinha feito, com a Mãe como testemunha.
Foi então à procura do homem para lhe pedir algo que nunca antes
nem depois foi pedido a quem quer que fosse.
Chegando-se ao pé do homem, fez o lobo este pedido: que o homem
trocasse a sua mulher com a loba do lobo.
Ora, nem sequer nessa altura era o homem tão tolo que não visse
o tamanho do disparate do lobo, e assim lhe respondeu. O lobo, ao
ouvir o homem, o mais tolo de todos os seres criados, a decretar que
aquilo que pedia como tolice, parou e repensou o seu pedido.
“Tens razão. Nem a mulher nem a loba jamais aceitariam tal
troca. Portanto temos de trocar de pele, para que a loba pense que tu
és o lobo, e para que a mulher pense que eu sou o homem.”
Razões tinham de sobra os animais para considerar o homem o mais
tolo de todos os animais, mas nesse dia não se tornou o lobo o mais
tolo de todos porque o homem aceitou trocar a sua pele com o lobo.
E assim fizeram. O lobo vestiu a pele do homem e pôs-se de pé, e
o homem vestiu a pele do lobo e começou a andar em quatro patas. E
depois da troca feita, foi o lobo viver com a mulher e foi o homem
viver com a loba.
Acontece que o lobo, para além de fiel à loba, era muito tímido,
por isso quando chegou à casa da mulher, querendo esta namorar com o
seu homem, ficou o lobo tão envergonhado que fugiu da mulher e
foi-se esconder entre as aboboras e os feijoeiros da horta.
Entretanto o homem, como para além de tonto era desenvergonhado,
decidiu ir seduzir a loba. Esta, mal o viu a por pata na sua caverna,
deu-lhe tais dentadas e patadas que não teve o homem outra solução
do que fugir a sete pés da loba. Como não conseguiu o homem o seu
intento com a loba, decidiu ir pelo mundo a divertir-se com os
animais, e por isso começou a fugir aos gritos da ovelhas, a roubar
o mel aos ursos, a dançar com os cisnes e a cantar com os sapos.
“Não há duas sem três” é um dito muito, muito antigo, e
tenho a certeza do que digo porque foi nesse momento que foi dito
pela primeira vez.
A loba estava tão furiosa com aquilo que via o homem a fazer,
acreditando ela que era o lobo que o fazia, que pediu em altos brados
à Mãe: “Faz com o que o lobo honre a pele que usa, se esqueça de
quem foi até agora e que em tudo obedeça àquela a quem essa pele
foi prometida em penhor!” Sei que parece muito estranho tal
afirmação da loba, mas naquele tempo, duas criaturas eram
consideradas casadas quando prometiam a sua própria pele à outra
criatura em penhor de fidelidade.
Acontece que não gostou a Mãe mesmo nada do pedido da loba, pois
todos os animais tinham sido criados livres e só por sua própria
vontade deveriam obedecer à vontade de quem quer que fosse. Sabendo
a Mãe que o lobo e o homem tinham trocado de pele disse então à
loba: “Como castigo pelo que pediste, como o pediste assim será.”
E assim foi.
Naquele instante esqueceu-se o lobo de que era lobo, saiu da horta
e foi namorar com a mulher.
A loba não entendeu porque não regressava o lobo para junto dela
e o homem continuava a fazer tais disparates que já os animais se
preocupavam que o lobo que viam tivesse enlouquecido por causa da
guerra com a loba. A Mãe tudo isto observava e em silêncio se
mantinha.
Sendo a natureza o que é, ficou a mulher de esperanças, e todos
os animais se alegraram pois uma nova vida é sempre bom. Aconteceu
então o que tinha de acontecer, quando a mulher deu à luz, nasceu
não um homem ou uma mulher, mas sim um lobinho, tão bonito quanto
um dia é longo no verão.
Muito se consternou a mulher. Muito se confundiu o lobo na pele do
homem. Muito estranhou a loba. Só o homem na pele de lobo é que não
achou nada, pois estando numa terra muito longe daquele sítio, nada
soube.
Apesar da consternação da mulher, da confusão do lobo e da
estranheza da loba, e do pasmo geral de todos os animais, decidiu-se
que se a Mãe tinha dado um lobo como filho ao homem e à mulher,
então tudo estaria certo e mal nenhum havia em a mulher ter dado à
luz um lobo. A única coisa que foi decidida naquele momento, foi que
a loba deveria ajudar a mulher a criar o lobinho, pois nem homem nem
mulher sabiam como era ser lobo. Assim foi decidido e muito agradada
ficou a loba por ser madrinha do filho da mulher e do homem.
Depois de muito mandriar por todas as terras, por fim lá se
decidiu o homem na pele de lobo a regressar à sua própria terra, e
quando chegou a casa e viu o que sucedia, sentiu tanta vergonha de
ter aceitado trocar de pele com o lobo, que começou a chorar em
altos prantos e a pedir perdão à mulher, à loba, ao lobo e ao
lobinho. Vendo estes aquele que acreditavam ser o lobo em tais
jeitos, muito se afligiram, e acreditando que o lobo estava
enlouquecido, pediram à Mãe que o curasse do que o afligia.
Chegando a Mãe ao pé do homem na pele do lobo, pôs-lhe a mão
na cabeça e lhe perguntou o que com ele sucedia. O homem, frente à
Mãe, decidiu contar tudo quanto tinha ele sabia que tinha sucedido e
muito perdão pediu pelo mal que tinha feito aos outros.
A Mãe então virou o seu olhar para loba e disse-lhe: “Entendes
agora quão errado foi o que me pediste?” A loba então entendeu e
deitou-se ao lado do homem a pedir perdão pelo que tinha feito.
Então a Mãe libertou a memória do lobo para que este soubesse
dos seus próprios malfeitos, e quando o lobo se lembrou de quem era,
igualmente se deitou ao lado do homem a pedir perdão.
Proferiu então a Mãe esta sentença: “Mulher, em tudo o que
aqui se passou foste inocente, por isso e em compensação da traição
a que fostes sujeita, decreto que todos os teus filhos serão teus,
nascidos sejam do teu corpo ou do teu coração, e que o homem terá
de ser como o pai verdadeiro de todos os teus filhos, quer sejam seus
filhos ou não, e se o homem assim não o quiser, será por mim
fustigado com grandes males e dores.”
“Para ti lobo pronuncio esta sentença: por teres sugerido a
troca de peles, farei que tu e todos os teus descendentes nunca sejam
capazes de mentir sem serem de imediato descobertos. Mas como não
trais-te a loba por tua vontade própria, concedo-te esta graça, que
jamais será possível a ti e aos teus descendentes serem infiéis
sem que por vossa vontade o queiram.”
“Loba, o teu castigo já foi cumprido, mas como me pediste o mal
para outro, decreto o seguinte, que tu e todos os teus descendentes
terão de obedecer a qualquer bom pedido do lobinho e dos seus
descendentes.”
Por fim, falou a Mãe para o homem. “Não te posso castigar por
seres e agires como te fiz. Mas como vejo que não existe em ti o
mal, nem por maldade fizeste o que fizeste, determino o seguinte:
aqueles a quem amares como teus filhos, teus filhos serão. Mas
aqueles a quem fizeres o mal, de suas próprias mãos receberás o
castigo que entenderem.”
Falou então a Mãe para o lobinho: “És filho do lobo e da
mulher. A loba ensinar-te-á a ser sábio e o homem ensinar-te-á a
rir e a cantar. Do lobo herdarás a honra, mas do homem herdarás a
loucura. Descobres os limites da honra e as utilidades da loucura e
serás o mais feliz de todos os seres criados por mim.”
E assim ficou o imbróglio resolvido. O lobo e o homem voltaram às
peles com que tinham nascido e regressaram para junto das suas
companheiras. A mulher e a comadre loba criaram e educaram o lobinho
e depois de muito entre si falarem perdoaram-se entre si as suas
ações. O lobinho cresceu e aprendeu muita coisa e quando fez sete
anos foi-lhe oferecido pela Mãe o conhecimento de como se
transformar em homem e em lobo, para usar esse conhecimento como se
lhe aprouvesse.
E assim regressou a paz, e se o homem continuava tonto e por vezes
discutiam os lobos, nunca mais tão grandes tontices voltaram a ser
cometidas.
O que é então "Lobisomens - O Passado É Para Esquecer"? De uma forma simples é o mundo onde os meus lobisomens vão viver as suas vidas. Ainda não sei tudo acerca deste mundo, sei que os lobisomens são reais lá. Sei que humanos sabem que os lobisomens existem e sabem quem eles são. Sei que esse mundo está a mudar. Sei que esse mundo é muito parecido ao nosso. Sei que os demónios desse mundo são os mesmos do nosso: ódio, ganancia, medo.
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