sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Contos Tradicionais dos Lobisomens: A Guerra dos Lobos

Quando o mundo ainda era novo, todos cumpriam com aquilo para com que tinham sido criados e dessa forma havia equilíbrio no mundo.
Ninguém se recusava a ser o que era. Ninguém, exceto o homem, que por sua natureza nunca estava satisfeito, e por isso mesmo, era como era suposto ser.
Aconteceu um dia que a loba e o lobo desentenderam-se por causa de algo tão comezinho que nem eles próprios conseguiam recordar o que tinha sido. A verdade era que tão grande era o desentendimento entre eles, que já nem lhes interessava quem tinha razão ou não, desde que o outro estivesse errado.
Os outros animais não sabiam bem o que pensar da guerra dos lobos, pois não conseguiam sequer perceber porque razão lutavam tão ferozmente entre si.
Tão grande era a raiva que sentiam um do outro, que por fim disse a loba ao lobo: “Vai-te de mim! Antes eternamente só, que junto a ti!”
Muito o lobo se ofendeu com tais palavras e decidiu ir mesmo à sua vida.
Remoendo as suas ofensas lá foi o lobo, e por algum tempo andou sozinho. Mas como bem é sabido, não foram os lobos criados para ser solitários, pelo que apôs algum tempo quis o lobo voltar a viver em companhia de alguém. O problema é que todos os animais já estavam emparelhados, até o homem, e como o lobo não queria regressar à loba, não descortinava a maneira de voltar a ficar acompanhado.
Pôs-se o lobo a pensar no que havia de fazer e por fim lembrou-se da promessa que o homem lhe tinha feito, com a Mãe como testemunha. Foi então à procura do homem para lhe pedir algo que nunca antes nem depois foi pedido a quem quer que fosse.
Chegando-se ao pé do homem, fez o lobo este pedido: que o homem trocasse a sua mulher com a loba do lobo.
Ora, nem sequer nessa altura era o homem tão tolo que não visse o tamanho do disparate do lobo, e assim lhe respondeu. O lobo, ao ouvir o homem, o mais tolo de todos os seres criados, a decretar que aquilo que pedia como tolice, parou e repensou o seu pedido.
“Tens razão. Nem a mulher nem a loba jamais aceitariam tal troca. Portanto temos de trocar de pele, para que a loba pense que tu és o lobo, e para que a mulher pense que eu sou o homem.”
Razões tinham de sobra os animais para considerar o homem o mais tolo de todos os animais, mas nesse dia não se tornou o lobo o mais tolo de todos porque o homem aceitou trocar a sua pele com o lobo.
E assim fizeram. O lobo vestiu a pele do homem e pôs-se de pé, e o homem vestiu a pele do lobo e começou a andar em quatro patas. E depois da troca feita, foi o lobo viver com a mulher e foi o homem viver com a loba.
Acontece que o lobo, para além de fiel à loba, era muito tímido, por isso quando chegou à casa da mulher, querendo esta namorar com o seu homem, ficou o lobo tão envergonhado que fugiu da mulher e foi-se esconder entre as aboboras e os feijoeiros da horta.
Entretanto o homem, como para além de tonto era desenvergonhado, decidiu ir seduzir a loba. Esta, mal o viu a por pata na sua caverna, deu-lhe tais dentadas e patadas que não teve o homem outra solução do que fugir a sete pés da loba. Como não conseguiu o homem o seu intento com a loba, decidiu ir pelo mundo a divertir-se com os animais, e por isso começou a fugir aos gritos da ovelhas, a roubar o mel aos ursos, a dançar com os cisnes e a cantar com os sapos.
“Não há duas sem três” é um dito muito, muito antigo, e tenho a certeza do que digo porque foi nesse momento que foi dito pela primeira vez.
A loba estava tão furiosa com aquilo que via o homem a fazer, acreditando ela que era o lobo que o fazia, que pediu em altos brados à Mãe: “Faz com o que o lobo honre a pele que usa, se esqueça de quem foi até agora e que em tudo obedeça àquela a quem essa pele foi prometida em penhor!” Sei que parece muito estranho tal afirmação da loba, mas naquele tempo, duas criaturas eram consideradas casadas quando prometiam a sua própria pele à outra criatura em penhor de fidelidade.
Acontece que não gostou a Mãe mesmo nada do pedido da loba, pois todos os animais tinham sido criados livres e só por sua própria vontade deveriam obedecer à vontade de quem quer que fosse. Sabendo a Mãe que o lobo e o homem tinham trocado de pele disse então à loba: “Como castigo pelo que pediste, como o pediste assim será.” E assim foi.
Naquele instante esqueceu-se o lobo de que era lobo, saiu da horta e foi namorar com a mulher.
A loba não entendeu porque não regressava o lobo para junto dela e o homem continuava a fazer tais disparates que já os animais se preocupavam que o lobo que viam tivesse enlouquecido por causa da guerra com a loba. A Mãe tudo isto observava e em silêncio se mantinha.
Sendo a natureza o que é, ficou a mulher de esperanças, e todos os animais se alegraram pois uma nova vida é sempre bom. Aconteceu então o que tinha de acontecer, quando a mulher deu à luz, nasceu não um homem ou uma mulher, mas sim um lobinho, tão bonito quanto um dia é longo no verão.
Muito se consternou a mulher. Muito se confundiu o lobo na pele do homem. Muito estranhou a loba. Só o homem na pele de lobo é que não achou nada, pois estando numa terra muito longe daquele sítio, nada soube.
Apesar da consternação da mulher, da confusão do lobo e da estranheza da loba, e do pasmo geral de todos os animais, decidiu-se que se a Mãe tinha dado um lobo como filho ao homem e à mulher, então tudo estaria certo e mal nenhum havia em a mulher ter dado à luz um lobo. A única coisa que foi decidida naquele momento, foi que a loba deveria ajudar a mulher a criar o lobinho, pois nem homem nem mulher sabiam como era ser lobo. Assim foi decidido e muito agradada ficou a loba por ser madrinha do filho da mulher e do homem.
Depois de muito mandriar por todas as terras, por fim lá se decidiu o homem na pele de lobo a regressar à sua própria terra, e quando chegou a casa e viu o que sucedia, sentiu tanta vergonha de ter aceitado trocar de pele com o lobo, que começou a chorar em altos prantos e a pedir perdão à mulher, à loba, ao lobo e ao lobinho. Vendo estes aquele que acreditavam ser o lobo em tais jeitos, muito se afligiram, e acreditando que o lobo estava enlouquecido, pediram à Mãe que o curasse do que o afligia.
Chegando a Mãe ao pé do homem na pele do lobo, pôs-lhe a mão na cabeça e lhe perguntou o que com ele sucedia. O homem, frente à Mãe, decidiu contar tudo quanto tinha ele sabia que tinha sucedido e muito perdão pediu pelo mal que tinha feito aos outros.
A Mãe então virou o seu olhar para loba e disse-lhe: “Entendes agora quão errado foi o que me pediste?” A loba então entendeu e deitou-se ao lado do homem a pedir perdão pelo que tinha feito.
Então a Mãe libertou a memória do lobo para que este soubesse dos seus próprios malfeitos, e quando o lobo se lembrou de quem era, igualmente se deitou ao lado do homem a pedir perdão.
Proferiu então a Mãe esta sentença: “Mulher, em tudo o que aqui se passou foste inocente, por isso e em compensação da traição a que fostes sujeita, decreto que todos os teus filhos serão teus, nascidos sejam do teu corpo ou do teu coração, e que o homem terá de ser como o pai verdadeiro de todos os teus filhos, quer sejam seus filhos ou não, e se o homem assim não o quiser, será por mim fustigado com grandes males e dores.”
“Para ti lobo pronuncio esta sentença: por teres sugerido a troca de peles, farei que tu e todos os teus descendentes nunca sejam capazes de mentir sem serem de imediato descobertos. Mas como não trais-te a loba por tua vontade própria, concedo-te esta graça, que jamais será possível a ti e aos teus descendentes serem infiéis sem que por vossa vontade o queiram.”
“Loba, o teu castigo já foi cumprido, mas como me pediste o mal para outro, decreto o seguinte, que tu e todos os teus descendentes terão de obedecer a qualquer bom pedido do lobinho e dos seus descendentes.”
Por fim, falou a Mãe para o homem. “Não te posso castigar por seres e agires como te fiz. Mas como vejo que não existe em ti o mal, nem por maldade fizeste o que fizeste, determino o seguinte: aqueles a quem amares como teus filhos, teus filhos serão. Mas aqueles a quem fizeres o mal, de suas próprias mãos receberás o castigo que entenderem.”
Falou então a Mãe para o lobinho: “És filho do lobo e da mulher. A loba ensinar-te-á a ser sábio e o homem ensinar-te-á a rir e a cantar. Do lobo herdarás a honra, mas do homem herdarás a loucura. Descobres os limites da honra e as utilidades da loucura e serás o mais feliz de todos os seres criados por mim.”
E assim ficou o imbróglio resolvido. O lobo e o homem voltaram às peles com que tinham nascido e regressaram para junto das suas companheiras. A mulher e a comadre loba criaram e educaram o lobinho e depois de muito entre si falarem perdoaram-se entre si as suas ações. O lobinho cresceu e aprendeu muita coisa e quando fez sete anos foi-lhe oferecido pela Mãe o conhecimento de como se transformar em homem e em lobo, para usar esse conhecimento como se lhe aprouvesse.

E assim regressou a paz, e se o homem continuava tonto e por vezes discutiam os lobos, nunca mais tão grandes tontices voltaram a ser cometidas.

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