Existe uma frase muito repetida que diz: “Se não existissem as trevas não existiria a luz”, uma variante da mesma diz: “é a existência da luz que dá origem às trevas”. O conceito básico por detrás destas e outras afirmações do mesmo género é o de existe uma relação simbiótica entre a luz e as trevas, entre o bem e o mal. Esse conceito sempre me perturbou, na realidade sempre o considerei uma falsidade, uma falácia, mas até agora ainda não tinha conseguido desenvolver uma resposta que me satisfizesse.
A resposta que me “surgiu” é a seguinte: “A luz provoca sombra/trevas porque aqueles em quem incide, não a partilham com os que estão em seu redor”. Este conto destina-se a explanar esse conceito, daí o título, as pessoas boas não têm sombra porque partilham a luz que recebem com os outros.
De qualquer forma, passar a manhã a dormir, declamar o rol das queixas costumeiras quando os pais chegassem, e as próximas saídas estavam garantidas. Com jeitinho até se conseguia um aumento de mesada...
De repente, algo fez soar o alerta.
Aliás, algo não fez soar o alerta.
Televisão ao berros? Certo.
Margarida no telemóvel com as amigas?
Certo.
Qualquer coisa a queimar-se na cozinha?
Certo.
Lobitos
a implicar uns com os outros? E estava uma manhã tão
sossegada. Este foi o seu
pensamento ao começar a levantar-se da cama.
“Máááário!!!”
Para crianças tão pequenas
tinham uns vozeirões de fazer inveja às
vuvuzelas. É
claro que as vuvuzelas eram
menos irritantes.O espaço de tempo que demorou a percorrer entre o quarto da primeira ninhada e a sala, foi mais que suficiente para desencadear a 3ª Guerra Mundial. Um segundo completo, mais coisa menos coisa.
O caos na sala tinha ultrapassado os limites firmemente impostos pela mãe após duras negociações com a primeira ninhada, ou seja, brinquedos, lápis de cor, livros, etc., ocupavam não só todo e qualquer parte do chão potencialmente não ocupada por objetos inamoviveis, como tinham começado a invadir mesas, cadeiras, estantes e qualquer outro espaço percebido como livre para ocupação imediata.
Para além de tudo e mais alguma coisa
em todo e qualquer lugar possível, estavam na sala uma cria de lobo
com o pelo ouriçado e a rosnar para uma rapariga de uns oito anos
firmemente segura por ambos os braços por dois rapazes gémeos de
igualmente oito anos. A expressão de fúria na cara da rapariga era
uma certeza de que alguém terminaria aquela cena a chorar se não se
desse uma intervenção imediata por parte de alguém responsável,
que neste caso ter de ser forçosamente ele, Mário, irmão mais
velho e chefe de família por indicação explícita e devidamente
vincada por parte da mãe.
“Parou!” Gritar não é
recomendado na gestão de conflitos, mas normalmente os lupus
reagem rapidamente a um berro
bem dado. “O que é que se passa aqui?”A berraria em resposta tranquilizo-o um bocadinho. Se estavam todos a querer gritar mais que os outros, o assunto não era assim tão sério. Seria um assunto irritante, mas não sério.
“Dina! Diogo! Diego! Dinis! Calou
tudo!” Realmente um berro bem dado resultava a sério. Mário
congratulou-se a si mesmo, estava a berrar quase tão bem como a mãe!
Um dia destes iria ser tão bom berrador como a tia Felicidade!
Virou-se para o lobinho. “Dinis.
Muda.” Se para calar uma
alcateia de lobos à bulha o melhor era berrar mais alto que eles,
para ordenar uma metamorfose o mais indicado era uma ordem seca e
direta.Enquanto Dinis assumia o seu aspeto humano, tarefa sempre demorada para um lupus enervado em qualquer idade, quanto mais aos oito anos, Mário decidiu começar com Dina. Tal como ele, uma potencial chefe de alcateia, o que significava que uma mão firme era essencial.
“Dina, o que é que se passou?”
Direto ao assunto, nada de rodeios, nada de hesitações. Mário
lembrava-se bem das vezes que o pai tinha hesitado com ele. Qualquer
que fosse o assunto ficava por resolver até a mãe chegar a casa.
“O Dinis é estúpido e burro e
parvo!” O
veneno com que as palavras saiam da boca da sua irmã mais nova nunca
o deixavam de surpreender. Mário não tinha a menor ideia de como a
pirralha conseguia ferir tanto os outros sem sequer tentar.“Dina! Atenção à linguagem. Voltas a falar assim e vais para o quarto sem televisão durante a tarde toda. Agora vamos lá, o que é que se passou?”
“O Dinis disse uma coisa parva e a Dina disse que ela era parvo, e o Dinis disse que ela é que era parva, e a Dina então disse que que o Dinis era parvo e estúpido, e...”
“Chega, Diego. Já percebi.” Tinha de ser o Diego a falar. Os gémeos eram realmente idênticos, tanto que até a família tinha dificuldades em os distinguir, mas quem os conhecesse sabia sempre qual era qual, Diogo não abria a boca por quase nada, mas Diego era difícil de calar. “Dina, o que é que o Dinis disse?”
A lobinha virou a cara e não
respondeu.
“Diogo e Diego! Larguem-na já. Dina
se te armares em esperta levas já um açoite para te passar as
espertezas!” Se Mário desse um açoite à irmã, a esperteza dela
seria o seu menor problema quando a mãe descobrisse, mas a Dina
ainda não tinha aprendido que só a mãe é que dava açoites.
De qualquer forma, a hipótese de
um rabo dorido, por muito remota que fosse, era mais assustadora que
ficar sem televisão. Dina
optou por falar. “O Dinis disse que as pessoas boas não têm
sombra.”
Certo... Brinquedos partidos, livros
riscados, eu-sou-mais-forte-que-tu, isso era normal para Mário.
Afinal, ele e as irmãs mais velhas da primeira ninhada tinham feito
a mesma coisa. Agora, aquilo...
“Dinis. O que é que disseste
realmente? Se calhar a Dina não te percebeu como deve ser.”
Naquele momento Mário conseguia ouvir com uma extrema claridade o
aviso da mãe, do pai, de toda a gente, “Negociação. A
Dina e os gémeos podem lidar com o Dinis como bem entenderem, mas
todos os outros TÊM SEMPRE de lhe dar pontos de fuga, formas de ele
conseguir evitar confrontos diretos.”
Os lupus
ancoras eram tão
frágeis enquanto crianças,
havia tanta coisa que podia correr mal.“Eu disse que as pessoas boas não têm sombra!” A agressividade com que Dinis se exprimia não enganava Mário. Quando o cachorro se sentia ameaçado por qualquer motivo que fosse, real ou não, passava ao ataque. O pedopsiquiatra tinha sido bastante claro acerca disso, como todos os ancoras Dinis era sensível ao ambiente emocional em seu redor, mas sendo rapaz a sua resposta primária era agressão em vez de fuga. Ensiná-lo a negociar era a única forma de garantir que conseguia passar pela adolescência sem confrontos diários com tudo e com todos.
“Dinis! Olha lá como falas!” O tratamento indiferenciado em relação ao resto da ninhada era mais que esperado, era necessário para que o cachorro conseguisse acalmar-se. Os resultados foram imediatos. Dinis baixou a cabeça e repetiu-se.
“As pessoas boas não têm sombra.”
Tão
expectável como a timidez de Dinis após uma explosão, era a
agressividade de Dina a recuperar a
sua primazia dentro da ninhada. “Eu disse que ele tinha dito uma
coisa parva!”
Mário não suspirou nem deu qualquer
sinal exterior. “Dina. Cala-te.” Tão importante como a
negociação era para um ancora, a obediência era essencial para um
potencial chefe de família. Chefes de família adolescentes,
pré-adolescentes, crianças, enfim, todos, não negociavam, ou
obedeciam ou faziam-se obedecer, não existia meio-termo.
“Dinis.” Negociação,
assertividade. “Todas as pessoas têm sombra, boas ou más. Porque
é que dizes isso?”
O lobinho hesitou. “Eu vi no outro
dia na televisão como é que a cores surgem por causa da luz. Sabes
como é que é?”
“Sim.” Diálogo, vias de
comunicação abertas, demonstrar interesse na conversação. “Nós
vemos uma certa cor num certo objeto, porque quando a luz bate nele é
toda refletida para os nossos olhos menos a cor do objeto.”
“Também viste o programa?!
Quando é que vistes? É que
quando deu não estavas em casa e...”
“Dinis.” Concentração, não
permitir divagações. “O que é que a luz e as cores têm a ver
com as pessoas boas não terem sombra?”
“Desculpa... É que nesse programa
diziam também que a luz era refletida para todos os lados, e que a
cor preta aparecia quando nenhuma luz era refletida.”
“Continua...” O que
é que vai sair daqui? Um
pensamento pouco generoso talvez, mas a estranha forma de lógica
preferida por Dinis, já não era uma novidade para Mário.“Depois no outro dia ouvi um senhor a falar na rádio que nós éramos luz e que as pessoas más viviam nas trevas e que tínhamos de ser luz uns para os outros e...”
“Dinis.”
“E depois disso a
mãe disse-nos que tínhamos de ser bons uns para os outros e
partilhar as nossas coisas, e os brinquedos e a televisão e a...”“Dinis.”
“Pois. Pus-me a pensar e deduzi o seguinte.” Se Mário descobri-se quem tinha ensinado a palavra 'deduzir' a Dinis, essa pessoa iria ouvir das boas. Ó se ia. “As pessoas boas partilham as coisas que tem e que lhes dão. As pessoas más não o fazem e por isso estão nas trevas, no escuro.”
“Continua.”
“Se as pessoas boas partilham
tudo, também partilham a luz que recebem, são como lâmpadas, pois
iluminam à sua volta. Ora as lâmpadas não têm sombra. Eu fui ver
as lâmpadas daqui de casa e nenhuma tinha sombra. Ora se as pessoas
boas são como as lâmpada, isso quer dizer que não têm sombra.
Portanto, as pessoas boas não têm sombra.”
“Dinis...” Com mais frequência do
que alguma vez admitiria, Mário era apanhado de surpresa pela beleza
do mundo visto através dos olhos dos seus irmãos mais novos.
Mário não disse mais nada,
apenas pegou no irmão e deu-lhe um abraço apertado por
longos momentos.
“Dinis...” Mário recomeçou.
“Todas as pessoas têm sombra. É uma caraterística de tudo o que
é iluminado, tem uma sombra no lado oposto àquele onde lhe bate a
luz. Até as lâmpadas têm sombra, nós é que não a conseguimos
ver.”
Uma certa humidade que nunca seria
admitida como lágrimas surgiu nos olhos de Dinis. “Então eu
estava a dizer uma coisa parva?”
“Não Dinis. Estavas a dizer uma das
coisas mais bonitas que já ouvi dizer, mas não é da forma que
estás a pensar.” Mário olhou Dinis olhos nos olhos. “A luz que
o tal senhor falava na rádio não é a mesma luz que vem do sol ou
das lâmpadas. É uma maneira bonita de se dizer todas aquelas coisas
boas que as pessoas fazem. E as trevas a que ele referia também não
é quando o sol se põe ou as lâmpadas são apagadas. São todas as
coisas más que são feitas.”
Dinis prestava uma atenção às
palavras do seu irmão, que seria considerada assustadora para quem
não o conhecesse.
Mário prosseguiu. “Quando
a luz bate numa coisa, provoca sempre uma sombra. Mas quando nós
somos bons, afastamos sempre as coisas más. É por isso que aquilo
que disseste é tão bonito, pois significa que quando somos bons e
partilhamos as nossas coisas estamos a ajudar as pessoas à nossa
volta só por lá estarmos. Por isso já sabes, porta-te sempre bem e
não lutes com os teus irmãos. Isso é uma coisa muito má de se
fazer, está bem?”
“Está bem.” Foi a resposta um
pouco cabisbaixa de Dinis.
“Ora bem! Agora todos para o
banho. O almoço vai p'rá mesa daqui a nada, e quero toda a gente de
banho tomado!” Se havia momento em que uma
ninhada de lobos se assemelhava e muito a uma manada de elefantes em
fúria, era quando
se mencionava o banho. Ninguém queria
ser o último. Não era um
problema para Mário. As responsáveis pelo banho eram Marta e
Margarida.Maria observou-o com um sorriso irónico nos lábios. “Quanto tempo achas que vai demorar até ele deduzir outra coisa qualquer?”
“Até meio do almoço. O banho
distrai-o sempre.” Se havia coisa que a ninhada mais velha conhecia
de trás para a frente eram as manias e as particularidades da
ninhada mais nova. “Mas sabes, é realmente uma ideia muito
bonita.”
“Sim. É. Só espero que ele consiga
acreditar nela por muito mais tempo.” Maria disse em tom de
despedida, dirigindo-se para a cozinha.
Mário parou por uns segundos a pensar naquilo que a irmã tinha dito. Mas não se preocupou muito. Dinis era suficientemente esperto para conseguir acreditar que as pessoas boas não tinham sombra durante uma vida inteira.
Sem comentários:
Enviar um comentário