sábado, 14 de fevereiro de 2015

Contos Tradicionais dos Lobisomens: A Rainha Jardineira

Era uma vez num reino que já o deixou de ser há mais tempo desde que os reinos daqui o foram, aconteceram os seguintes acontecimentos e as coisas que lhes sucederam.
Nesse reino era costume o rei não escolher a sua rainha, mas sim ser o povo a dizer quem melhor seria a esposa do rei. E a rainha era escolhida pelo povo desta forma que a seguir se diz. Vindo o aniversário do rei, vinham todas as moças de idade casadoira ou não que quisessem ser a nova rainha e chegando à praça da sua aldeia, chamavam o povo e gabavam as sua próprias virtudes. Se o povo acreditasse no que ouvia, escolhiam entre elas qual a melhor, então o alcaide da aldeia pegava num lenço de linho e pedia à mulher casada à menos tempo para bordar o símbolo da aldeia no lenço e entregava-o à moça escolhida. Esta guardava o lenço com todo o cuidado e viajava até à aldeia vizinha. Lá repetia tudo o que anteriormente tinha feito na sua aldeia, e se lhe entregassem outro lenço, juntava-o com todo o cuidado ao anterior, mas se fosse recusada pelo povo dessa aldeia então teria de entregar todos os lenços que tivesse conseguido recolher à mulher do alcaide dessa aldeia. Desta forma sabia o rei se o povo acreditava ou não naquela que desejava ser rainha, pois quando uma moça se apresentasse ao rei para ser rainha, tinha de mostrar todos os lenços que recolhera, e seguidamente o rei chamava à sua presença todos os alcaides das aldeias dos lenços apresentados e todas as mulheres dos alcaides das aldeias que sobejassem. Se todos os alcaides das aldeias dos lenços apresentados sem exceção confirmassem que o lenço tinha realmente sido entregue à moça, e nenhuma das mulheres dos alcaides das aldeias que sobejassem afirmasse que a moça tinha sido recusada, então o rei casava com essa moça e tornava-a sua rainha.
Aconteceu certa vez o seguinte nesse reino. Sendo o rei ainda moço e bem apessoado, queriam muitas moças ser sua rainha, mas o povo que sabia que o rei ainda era muito novo, e não dava lenço a nenhuma delas e pode assim o rei crescer mais um pouco. Ora havia um nobre numa ponta do reino, que desejava muito que a sua filha fosse rainha, e para isso a ensinou em tudo o que fosse coisa de reinar como rainha, lançando mão dos melhores mestres e instrutores. Assim sabia a moça em questão cantar como um anjo, organizar festas sem depauperar os cofres, avaliar a olho ouro prata e pedras preciosas, e falar com quem quer que fosse sobre qualquer assunto que fosse. Ora havia igualmente na outra ponta do reino uma moça do campo, filha de gente trabalhadora mas humilde, que ao fim de um dia em tinha limpado a casa, tratado dos animais, feito a comida, lavado a roupa, sachado a horta e colhido lenha e frutas no bosque, considerou que se conseguia ela fazer tudo aquilo, igualmente conseguiria ser rainha.
Partiram então ambas as moças cada uma de seu lado a recolher os lenços das aldeias, e tão bem se gabavam das suas virtudes que em nenhuma das aldeias por onde passavam foram recusadas. Tanto andaram, tanto andaram, que quando finalmente chegaram ao rei cada uma delas tinha metade das aldeias do reino em lenços e nenhuma delas tinham mais um lenço só que fosse mais que a outra.
Não sabendo bem como resolver tal situação que nunca tinha antes sucedido, decidiu o rei chamar ao seu castelo todos os alcaides de todas as aldeias e todas as mulheres dos alcaides de todas as aldeias. Chegando toda essa gente ao castelo, perguntou-lhes o rei se as tinham aceitado e se não as tinham recusado. Confirmaram os alcaides que tinham realmente aceitado as moças e igualmente afirmaram as mulheres do alcaides que não tinham sido as moças recusadas.
Vendo que dessa forma não resolvia o problema de duas candidatas a rainha, decidiu então o rei que ambas as moças se deveriam gabar uma ultima vez na sua presença. Os alcaides e as mulheres dos alcaides escolheriam então o lado do salão correspondente à moça que preferissem. Chegando ao fim o lado com mais gente seria o da moça escolhida. Contudo, tão bem se voltaram a gabar as moças que novamente se dividiu o povo ao meio sem que um lado tivesse mais uma única pessoa que o outro lado.
Chamou então o rei os lobos, que eram amigos e conselheiros daquele reino havia muito tempo, e explicou-lhes a situação. Os lobos escutaram atentamente e responderam: “Mais valia que casasses com as duas, porque uma sabe quanto uma coroa vale e a outra sabe quanto uma coroa pesa. Mas uma será capaz de te dar tudo quanto queiras, mas a outra apenas te dará aquilo de que precisas.”
O rei ouviu isto e ficou a pensar e por fim decidiu. “Casar-me-ei com a filha do nobre. Contudo a moça do campo ficará igualmente comigo. Que escolha um dos meus soldados mais valentes como seu marido, e que sejam padrinhos meu casamento com a minha rainha, tal como a rainha e eu seremos padrinhos do seu casamento.”
A moça do campo até nem desgostou da solução do rei, pois mais gostava de lavrar a terra que bordados, e botando olho para os lados dos soldados do rei, não viu nem um que lhe desagradasse.
A filha do nobre é ficou sem sabem bem o que pensar de tudo isto, porque em momento algum lhe tinham ensinado que alguém poderia valer tanto como ela, de tal forma que toda esta competição a tinha deixado muito abalada. Mas como no final de tudo iria ser rainha na mesma, achou que não valia a pena pensar muito no assunto.
Casaram-se os casais, e apadrinharam-se entre si e começou cada um a viver sua vida. O rei reinava, o soldado protegia o reino, a moça do campo cuidava do seu soldado e da sua casa, e a rainha acompanhava o rei.
No entanto, de dia para dia a rainha entristecia e ninguém sabia dizer porquê. Um dia a moça do campo foi visitar a rainha para lhe contar que estava grávida, mas quando viu a rainha tão triste quis de imediato saber o que se passava. “Sou tua madrinha, e tu és minha. Se não puderes falar comigo com quem poderás então falar?”
Chorou-se então a rainha que nada do que fazia parecia necessário ao reino, nem sequer um pouco, e que mesmo isso era na verdade feito por outros em seu nome, porque ela como rainha não se deveria rebaixar a tais tarefas. Respondeu-lhe então a moça do campo. “Diz ao rei que queres fazer um jardim, mas que a mais ninguém se não tu lá será permitido cavar. Desta forma terás a satisfação de ver crescer coisas tuas e obra das tuas mão, e então toda tristeza que sentes deixará de existir.”
Quando ouviu isto a rainha pensou que era um grande disparate, mas após pensar mais um pouco viu que afinal não era assim tão disparatado. Tão feliz ficou ao ter uma solução para a sua tristeza, que quando soube a moça do campo ia ser mãe, até cantou de alegria. E desta forma se resolveu este assunto.
A alegria da rainha com o seu jardim era tanta, que este se tornou o mais belo jardim no mundo, e dessa alegria toda também deu a rainha ao mundo e ao rei um novo príncipe.
Ora para felicidade de todos nasceu o príncipe tão são como dois peros, mas sendo a rainha mãe pela primeira vez muito se agastava e angustiava que nada de mal sucedesse ao recém-nascido. E foi então que para garantir que nenhuma cura faltasse para qualquer mal que viesse ao príncipe, começou a plantar todas as plantas do mundo no seu jardim, e a estudar todas as curas, venenos e magias que existissem. E durante uns tempos isto foi bom, porque tão sábia se tornou a rainha que muitos males, doenças e maldições foi capaz de curar às gentes do seu reino e dos reinos vizinhos.
O tempo passou e chegou o momento em que deixaria o príncipe as saias da mãe e das aias, para aprender as artes da guerra e outras coisas consideradas de príncipe e de homem. Isto muito entristeceu a rainha, de tal forma que regressou a moça do campo a falar com a rainha para entender o que se passava. Ao compreender os anseios da rainha propôs-lhe esta solução: que uma das filhas da moça do campo seria entregue à rainha, para que esta lhe ensinasse tudo quanto sabia acerca de curas, venenos e magias, e para que assim pudesse o príncipe estar sempre acompanhado de alguém que o soubesse curar dos males do mundo. A rainha concordou de imediato com esta solução, pois assim poderia o príncipe ir-se ao mundo e mesmo assim continuar protegido.
E assim foi que a filha mais velha da moça do campo foi entregue à rainha para ser sua aprendiz, e que esta lhe ensinou tudo quanto sabia menos o conhecimento de como lançar maldições, pois a rainha não desejava que mais ninguém soubesse de tão negras artes.
Cresceu o príncipe, e tornou-se guerreiro sem par. Cresceu a aprendiz, e tornou-se benzedeira sem igual. E quando chegou o momento de o príncipe ir-se ao mundo, a aprendiz foi como sua companhia. Tendo sido criados juntos, via o príncipe à aprendiz como irmã, mas a aprendiz aprendeu a ver o príncipe como homem e como homem o desejou, mas isto nunca disse a quem quer que fosse.
Indo o príncipe e a aprendiz a aprender o mundo, calhou um dia entrarem numa grande floresta, magnifica como mais neste que até então tivessem visto. Numa clareira no meio dessa floresta encontraram uma árvore-mulher, que era tão bela como uma rosa e tão forte como um carvalho, e o príncipe logo ali se enamorou da árvore-mulher e a pediu em casamento.
Como é sabido, as árvores-mulher vivem longos séculos, e aquela era a mais antiga de todas as árvores-mulher. Apesar de para ela ser o príncipe não mais que um recém-nascido, ao ler-lhe o coração, descobriu tanta honra e tanto amor, que decidiu aceitar o pedido do príncipe.
Ao assistir a tudo quanto sucedia, muito se entristeceu a aprendiz, mas nada disse e no seu pensamento começou a imaginar como haveria de ficar com o príncipe para si mesma. Começou então a deplorar não lhe ter sido ensinado como lançar maldições e outras negras artes.
Na sua felicidade, tornou-se o príncipe cego ao que o rodeava, mas à árvore-mulher não escapou o escurecimento do coração da aprendiz. No entanto como era muito sábia, decidiu dar à aprendiz o tempo necessário para esquecer o mal em que matutava e aceitar a felicidade do príncipe, portanto disse ao príncipe: “Regressa à tua terra e prepara-me alojamento digno de mim. E não te esqueças que sendo eu uma árvore-mulher, não habitarei pedras mortas mas sim árvores vivas.” E concedeu um ano ao príncipe para lhe preparar os alojamentos que desejava.
Regressou de imediato o príncipe ao reino de seus pais e lá chegando de imediato contou ao rei e à rainha as novas do seu futuro casamento. O rei, apesar de surpreendido, aceitou as escolhas do príncipe e o abençoou, mas a rainha, que desejava que o príncipe se casasse com uma princesa, muito se zangou com ele. Acontece que naquele reino ninguém se podia opor a um casamento honesto, e como nem o príncipe nem a árvore-mulher tinham sido obrigados a se jurarem um ao outro, ninguém os podia impedir de se casarem, pelo que a rainha nada podia fazer.
Enfurecida, recolheu-se a rainha ao seu jardim para pensar em como havia de impedir o casamento do príncipe, e foi lá que descobriu a aprendiz a chorar as suas mágoas. Perguntando-lhe o que se passava, ficou a rainha ainda mais zangada ao saber da paixão da aprendiz pelo príncipe, e logo ali e para si mesma jurou que jamais permitira que o príncipe se casasse com uma mulher que não fosse escolhida a dedo pela rainha. Adoçando a voz, começou a compadecer-se do sofrimento da aprendiz, e lhe sugeriu que haveria de criar uma maneira de ajudá-la a ficar com o príncipe. Como tinha o coração e o pensamento escurecidos por maus pensamentos, não se apercebeu a aprendiz dos maus intentos da rainha e se comprometeu a fazer tudo quanto a rainha lhe pedisse.
Ora durante os seus estudos, tinha a rainha aprendido a fazer muito bem, mas igualmente tinha aprendido a fazer muito mal, e como é sabido para fazer o mal basta querer fazê-lo. Começou então a rainha a preparar uma maldição tão terrível, que até os demónios do Inferno se recusaram a ajuda-la.
Quando faltava um dia para a árvore-mulher chegar ao reino e se casar com o príncipe, foi quando terminou a rainha a sua maldição, e chamando a aprendiz a si lha entregou e disse: “Se beberes esta poção, ela te dará a força para beber a vida da árvore-mulher e dessa forma se apaixonará o príncipe por ti.” O que a rainha não disse à aprendiz, era que apôs beber a poção a aprendiz se transformaria num monstro que iria consumir todas as árvores-mulher, e que vendo o príncipe isto a iria recusar como mal que seria. A aprendiz estava tão cega, que nem sequer hesitou em beber a sua própria perdição e assim se tornou na primeira vampiresa.
O bem cria o bem e o mal atrai o mal. Sabendo nós que isto é verdadeiro, não nos deverá surpreender o que seguidamente aconteceu. Estando o príncipe a dar os últimos retoques nos alojamentos da árvore-mulher, espetou uma pua num dedo, e não a conseguindo remover foi pedir à aprendiz que lha tirasse. Ora vendo a aprendiz a pua no dedo do príncipe, com mil cuidados a removeu e a seguir, deu um beijinho na ferida, para que se curasse mais depressa. Mas foi nesse momento que a maldição teve inicio, pois uma gota de sangue do príncipe foi bebida pela aprendiz, e foi desta maneira que se tornaram os vampiros sedentos do sangue dos homens.
Enlouquecida pela maldição, a vampiresa atacou e matou todos os que moravam no castelo, começando pelo príncipe e terminando com a sua própria mãe, a moça do campo. A única que se salvou foi a rainha, pois usou as suas magias para se proteger.
No dia seguinte chegou ao castelo a árvore-mulher acompanhada pelos lobos amigos do reino, e vendo o que havia sucedido muito se angustiaram. No entanto a árvore-mulher, que era muito sábia chamou a si a rainha e a aprendiz e leu-lhes os corações para determinar o que sucedera, e o que leu muito a enfureceu, e tão grande foi a sua fúria que até o Pai decidiu intervir para que não se acabasse ali o mundo.
Olhando para tudo o que sucedera determinou então o Pai para a aprendiz: “Que seja a tua fome tão grande quão negro for o teu coração. Que roubes no sangue dos homens as suas trevas. Que bebas a luz dos homens no sangue que te for ofertado.” De seguida, curou a da loucura mas não das trevas e mandou vaguear pelo mundo até que penasse tantas vidas quantas aquelas que bebera. Ordenou então aos lobos que protegessem todas as criaturas menos os homens da sede da vampiresa e concedeu-lhes o condão de serem resistentes aos vampiros.
À árvore-mulher concedeu isto: “Como perdeste o teu amado, farei a sua alma regressar a ti de todas as vezes que ele regressar a este mundo. Mas como não mostras-te contenção quando soubeste o que aqui se passou, e estavas disposta a fazer terminar o mundo por causa disso, ele nunca se vai recordar de ti, e de todas as vezes vais ter de o ensinar novamente a amar-te.”
Por fim, lançou o Pai a sua Fúria sobre a rainha: “De tanto que te foi dado o que fizeste tu? Como te atreveste a corromper o conhecimento que te foi concedido? Não verás! Não escutarás! Não saborearás! Não cheirarás! Não sentirás! Que fiques fechada no teu jardim e na tua mente e que nunca o teu corpo morra mas que apodreças como o mal em que te converteste! Enquanto existir mal neste mundo não terminará a tua sentença e não terás nem paz, nem sossego!”
E assim como foi determinado assim aconteceu. A vampiresa vagueou pelo mundo e muitos males fez até que um dia os lobisomens a caçaram e a prenderam. Os lobos contaram aos lobisomens sua sentença da vampiresa, e estes começaram a oferecer-lhe do seu próprio sangue e dessa forma conseguiram expurgar dela as trevas que a habitavam.
A árvore-mulher voltou a encontrar-se muitas vezes com o príncipe regressado à terra, mas de cada vez que ele tinha de partir por que afinal era apenas um homem, e todos os homens morrem, de cada vez mais e mais se entristecia. Tão grande era a sua tristeza, que por fim o Pai condoeu-se do seu sofrimento e permitiu que ela o acompanha-se enquanto estivesse no outro mundo.

Tanto quanto sei a rainha continua no seu jardim, mas diz-se que se uma alma for suficientemente negra, pode chamar a si a rainha jardineira e pedir-lhe que novamente lance os seus males ao mndo.

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